A vitória nos tribunais que eliminou o Chile do Mundial

A derrota por 3-0 para o Brasil na última jornada da fase de qualificação definiu a eliminação chilena do Mundial da Rússia em 2018. O país não ficava de fora do mundial desde 2006, quando não conseguiu ir à Alemanha, e ainda acumulou dois títulos da Copa América em 2015 e 2016: os dois primeiros da sua história.

Com uma equipa repleta de jogadores que atuam na Europa, a expectativa dos chilenos era a de conseguir, na Rússia, um desempenho ainda melhor do que nos últimos dois mundiais, quando caiu nos 16 avos-de-final.

A diferença para o Peru, quinto classificado na América do Sul e qualificado para a única vaga de repescagem à qual o continente tem direito, foi de dois golos de saldo. Ambos terminaram com 26 pontos em 18 jornadas. Ou seja, se houvesse perdido para o Brasil por apenas 1-0, por exemplo, o Chile estaria qualificado.

Mas não foram apenas os resultados dentro de campo que eliminaram as esperanças chilenas de ir à Rússia. Uma manobra judicial empreendida pelo próprio Chile para obter vantagem na classificação geral no continente acabou sendo chave para a sua própria eliminação.

Escalação irregular

Era início de setembro de 2016 e as eliminatórias na América do Sul ainda estavam na 8ª das suas 18 rodadas. O Chile havia recentemente vencido a Argentina pela segunda vez consecutiva na final da Copa América, nos pênaltis, e era um dos favoritos para ocupar uma das quatro vagas diretas que o continente tem direito na Copa do Mundo.

Em uma partida contra a Bolívia, disputada na capital chilena Santiago, os chilenos bem que tentaram, mas não conseguiram sair do 0-0. O empate foi considerado um mau resultado pela equipa da casa, mas ótimo para os bolivianos. Tão bom que aos 31 minutos do segundo tempo, a Bolívia substituiu o armador Juan Arce pelo defensor Nelson Cabrera para segurar o ataque adversário.

O problema é que Cabrera foi escalado de forma irregular na Bolívia. O atleta é paraguaio naturalizado boliviano, e pelas regras da Fifa deveria morar na Bolívia por cinco anos consecutivos antes de poder defender a seleção local. Como havia chegado ao Bolívar em 2013, viveu na terra de Evo Morales por apenas três desses cinco anos à época.

Ajuda inesperada

O Chile, ao descobrir o erro boliviano, denunciou os adversários na FIFA. A entidade máxima do futebol puniu a Bolívia financeiramente e ainda declarou vitória chilena por 3-0, que fez a equipa somar dois pontos a mais na tabela de classificação e, naquela hora, ultrapassar a Argentina e entrar na zona de classificação.

O que o Chile não imaginava é que, naquele momento, estava decretando a própria eliminação. Isso porque o mesmo Nelson Cabrera também havia atuado na partida anterior da Bolívia nas eliminatórias: uma vitória por 2-0 sobre o Peru, na altitude de La Paz.

Assim como o Chile, o Peru foi declarado o vencedor da partida contra os bolivianos. Mas, nesse processo, acabou por ganhar um ponto a mais que os chilenos, uma vez que saiu de uma derrota para uma vitória.

O Peru nunca foi considerado um dos principais competidores por uma vaga na Rússia, e portanto, naquele momento, o Chile parecia ter feito um bom negócio ao somar dois pontos e dar outros três aos peruanos.

Um ano depois, contudo, o Chile passou a jogar mal e o Peru cresceu. Nas últimas cinco jornadas, os chilenos somaram apenas seis pontos enquanto os peruanos fizeram 11. Resultado: o Peru ganhou a quinta colocação e, com isso, o direito de enfrentar a Nova Zelândia na repescagem, em novembro de 2017.

Já a Bolívia continuaria eliminada mesmo se não tivesse perdido os quatro pontos nos tribunais. Em declaração após a eliminação, o treinador do Chile Juan Antonio Pizzi lamentou a coincidência ingrata, mas não demonstrou arrependimento. “Aceitamos a decisão, que era justa, era a correta. Vendo os números hoje, vemos que fomos prejudicados. Não temos do que reclamar. Foi justo”, disse logo depois de perder para o Brasil, em São Paulo.

Rafael Almeida

Rafael é brasileiro e acompanha futebol há tanto tempo que nem se lembra. Se interessa também pela política do esporte e pelas suas dimensões socio-culturais. É formado em Relações Internacionais pela Universidade de São Paulo e atualmente estuda jornalismo, sendo também parte da equipe de um jornal digital no Brasil, onde escreve sobre política internacional.

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