Addio, Pirlo. Addio, genio silenzioso

Sim, é verdade. Por muito que me custe… que custe aos apaixonados pelo futebol, Pirlo pendurou as chuteiras. O eterno maestro não vai conduzir mais nenhuma equipa à glória.

Ver Pirlo a jogar era uma bela combinação de sentimentos. Sim…… era. [Desculpem, mas ainda não me habituei a escrever no passado]. Pirlo foi uma perfeita simbiose entre elegância e precisão. Entre delicadeza e classe.

Por estes mesmos motivos aproveito o momento para fazer um breve resumo da sua carreira.

Andrea Pirlo nasceu a 19 de maio de 1979 em Flero, no norte da Itália. Começou a dar os primeiros toques no Voluntas Brescia, clube satélite do Brescia, onde acabou por ingressar muito jovem. Contudo, cedo se mudou para o Brescia e foi com este emblema ao peito que acabou por se estrear na Serie A, com apenas dezasseis anos e dois dias de idade: a 21 de maio de 1995, entrou em campo no jogo entre Reggiana e Brescia – que terminou com a derrota da sua equipa, por 2-0 – tornando-se o mais jovem jogador da história do Brescia a estrear-se na Serie A. Era o começar de uma lenda.

Pirlo permaneceu no clube que o viu dar os primeiros toques na bola até à época 98/99, altura em que foi contratado pelo Inter de Milão por uns modestos dois milhões de euros. Apesar de ter realizado 29 jogos oficiais, não encontrou o espaço que pretendia na equipa, e na temporada seguinte foi emprestado ao Reggina, onde somou um total de 30 jogos.

Em 2000/01 voltou para o Inter, mas continuou com pouca influência. A falta de minutos originou mais um empréstimo no mercado de inverno, desta feita para o Brescia. Foi pelas mãos de Carlo Mazzone, na altura treinador do Brescia, que Pirlo começou a destacar-se. O técnico italiano redescobriu o jogador, que até à data jogava como médio centro (a chamada posição oito) e colocou-o na “posição 6”.

Destacou-se tanto que no verão de 2001, o Milan desembolsou 18 milhões de euros para contar com os serviços do jogador italiano. O jovem natural de Brescia tornou-se num líder da equipa rossoneri, beneficiando de algumas lesões contraídas por Ambrosini e Gattuso, que permitiram que jogasse com mais frequência. Sob a liderança de Carlo Ancelotti, Pirlo deu um toque pessoal à “posição 6”, tornando-se num guarda-costas de fino recorte técnico, de um meio-campo composto por Rui Costa, Gattuso e Seedorf.

Em 2002/2003, com 24 anos, Pirlo conquistou a Liga dos Campeões, e reforçou de vez a sua posição de pivot indispensável. Após a estreia com a camisola da seleção da Itália, no dia 7 de Setembro de 2002, foi selecionado para os Jogos Olímpicos de Atenas no ano de 2004, onde ganhou a medalha de bronze.
O momento de ouro do jogador no que toca à seleção nacional materializou-se no Mundial de 2006, na Alemanha, onde se sagrou campeão do mundo. Pirlo foi considerado o homem do jogo nas partidas contra o Gana, Alemanha e França, e em 2006 ficou em nono no ranking para o Ballon d’Or.
Na época seguinte conseguiu ascender para o quinto lugar, graças às conquistas, ao serviço do Milan, da Liga dos Campeões, da Supertaça Europeia e do Campeonato do Mundo de Clubes. A carreira no Milan terminou no verão de 2011, quando Pirlo decidiu não renovar o contrato.  Em Milão ganhou duas Ligas dos Campeões, dois campeonatos italianos, um Mundial de Clubes, uma Taça da Itália, duas Supertaças Europeias e uma Supertaça Italiana. Foram 401 jogos e 41 golos marcados.

A Juventus foi a próxima paragem. O emblema de Turim teve de desembolsar 10 milhões de euros para poder contar com Pirlo. O internacional italiano assinou um contrato até 2014, e estreou-se frente ao Parma, logo com duas assistências.

Na “Vecchia Signora” realizou o seu jogo 400 na Serie A , no dia 11 de março de 2012, contra o Génova.  A 6 de maio, conquistou o “Scudetto” tornando-se o sexto jogador na história italiana a ganhar dois campeonatos seguidos com dois emblemas diferentes.

Com uma técnica de futebol de nível superior, Andrea Pirlo é considerado um dos trincos mais talentosos do mundo na primeira década dos anos 2000. Apesar de nunca ter sido um jogador muito rápido, destacou-se essencialmente pelos precisos passes verticais e repentinos. Mas já que falei em velocidade, existiam duas coisas em que era quase sempre mais rápido: a pensar e executar as suas ações.

Pirlo mudou-se em julho de 2015 para Nova Iorque, mas os problemas físicos foram aparecendo com bastante frequência e não o permitiram jogar regularmente.

Mas tudo tem um fim… O último jogo oficial da sua carreira, aconteceu ontem, no duelo entre os New York City FC e os Columbus Crew, a contar para as meias finais dos “playoffs” da MLS. O internacional italiano entrou na partida ao minuto 90, sob uma grande ovação e aplausos das bancadas.

É o adeus a uma lenda.

Pirlo foi um arquitecto do futebol. Quem não vai ter saudades daqueles passes que pareciam teleguiados? Ou dos livres à entrada da área, que mesmo antes de entrarem toda a gente já sabia que iam dar golo?

Andrea Pirlo foi um jogador tão “grande” que a posição de pivot defensivo se tornou só dele. Existe o “6 normal”, e depois existe o “6 à Pirlo”. Um génio silencioso, que nunca deixou que a luz dos holofotes da fama o cegassem. Ao todo foram 868 jogos e 86 golos. Um maestro que gesticulava com os pés. Uma camisola 21 que nunca mais será esquecida.

Addio, Pirlo. Addio, genio silenzioso

Ricardo Rocha Cruz

Confiante, resolvido consigo mesmo e ousado. Prazer, chamo-me Ricardo Cruz. Bem-vindos ao meu novo projeto. 

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