Análise: como jogou o Sevilha e André Silva na goleada frente ao Rayo

O último fim de semana marcou o regresso de La Liga e também do Rayo Vallecano ao principal palco do futebol espanhol, depois de vencer a última edição da segunda liga. O regresso do futebol de primeira a Vallecas era muito esperado, mas o primeiro jogo dificilmente poderia ser mais complicado.

O Sevilla deslocou-se a Madrid já com alguns jogos oficiais nas pernas, depois de passar com facilidade por Újpest e Zalgiris para a Liga Europa e perder a Supertaça para o Barcelona, numa partida muito equilibrada.

Nesta análise proponho olhar para ambas as equipas a nível táctico e tentar explicar um pouco do resultado de 1-4, com um especial foco no Sevilla de Machín e no grande protagonista da partida: André Silva.

Machín apresentou a estrutura normal de 3-4-2-1, onde a principal novidade foi André Silva na frente. Já no Rayo, a única dúvida prendia-se com a colocação de Jordi Amat, se este funcionaria como 3 central numa linha de 5, ou se , como aconteceu, jogaria como “trinco”.

Ora a aposta em André Silva, foi fundamental para aquilo que era a estratégia de jogo do Sevilla. O Rayo em casa é uma equipa muito intensa, a paixão e entusiasmo do público a isso o obriga, e o Sevilla sabia que ia sofrer uma pressão em todo o campo, com os 4 homens mais adiantados a pressionar a linha defensiva, dificultando ao máximo uma possível inteção de construir desde trás. O que P.Machín fez, foi usar isso a seu favor, promovendo intencionalmetne essa pressão do Rayo com uma circulação lenta pela defensa, a chamar a pressão.

Nesta primeira imagem vemos isso mesmo. Quando a linha mais avançada do Rayo subia, o Sevilla procurava a bola longa para AS, que era o foco, com a aproximação do resto da equipa para ganhar a segunda bola.

Depois no segundo momento observarmos como os jogadores se aproximam da zona onde o André Silva vai disputar a primeira bola, para garantir que, se Plano A não resultar, pelo menos ganham a segunda bola. Plano A esse que se baseava em AS desviar-se, para a bola chegar-se a Sarabia, que se colocou nas costas do Português intencionalmente. Se a bola chegar ao espanhol, está criada uma situação muito perigosa para o Rayo, já que Navas (no limite da imagem) está a acelerar pelo corredor direito, o que cria uma situação de superioridade numérica com o lateral do Rayo. Aos 10 minutos, o Sevilla marca golo (Bem anulado) através de uma jogada onde aconteceu precisamente isso.

Esta jogada é apenas um exemplo de uma das várias formas como o Sevilla procura constantemente criar espaços atrás das linhas médias adversárias para tirar o máximo partido das zonas entre o corredor central e lateral, ocupadas constantemente por Sarabia e Vázquez. Quando conseguem receber a bola nessas zonas, esses homens estão numa posição extremamente vantajosa, muitas vezes com o suporte dos alas laterais (Escudero e Navas), que garantem a largura, factor chave para esticar as linhas defensivas adversárias, criando “crateras” entre os laterais e os centrais.

Podemos ver aqui nesta terceira imagem como essa procura pela largura e profundidade implica também situações de igualdade numérica dentro da grande área (já que um dos centrais têm muitas vezes de sair da posição central para compensar a subida do seu lateral) muito exploradas pelo Sevilla com centros constantes. Neste lance, AS fica perto do golo, onde trabalhou muito bem as costas do seu defensor e cabeceou livre.

O Primeiro golo do Sevilla…

… é o somatório e resultado de todos os comportamentos que se tinham observado nos primeiros minutos, sobretudo (e em primeiro lugar) o controlo da segunda bola e a colocação de Sarabia e Vázquez nas zonas entre o corredor central e lateral, posicionamento que permite situações constantes de superioridade numérica. O lance começa num pontapé de baliza para o Rayo. Onde a colocação do próprio Sevilla para evitar que a equipa da casa saísse a jogar, deixava-a pronta para quando ganhasse a bola, conseguisse magoar o adversário (apostem onde estavam colocados Sarabia e Vázquez).

Aqui uma palavra, extremamente negativa, para Alberto García, que bateu o pontapé de baliza com a equipa totalmente larga e esticada no campo (apostou que Trejo ganhava no ar com Kjaer), o que resultou no panorama que vemos.

A excelente exibição de AS começa aqui. Não só pela boa leitura na forma como se posicionou no local certo para ficar com a bola de Kjaer, mas como (e principalmente) teve a calma necessária para ler a jogada e temporizar, aguardando que Sarabia saísse das costas do lateral e que Navas avançasse mais no terreno, para quando Sarabia recebesse a bola, fosse só tocar para o lado para Navas penetrar na grande área (precisamente o que aconteceu).

A proposta ofensiva do Sevilla baseia-se num inicio de construção estável evoluindo rapidamente para passes verticais e diagonais (em especial para o corredor direito). Era típico, e já falei, ver André Silva baixar para ganhar a primeira bola e desviar a mesma para Sarabia ou para Navas, onde muitas vezes o ex-city tinha espaço no corredor para cruzar. A exploração das zonas entre corredores e o espaço entre linhas são também aspectos chave da forma como o Sevilla ataca, onde é fundamental ter jogadores que consigam sobre pressão receber a bola e dar continuidade ao jogo da equipa, com as tais bolas diagonais para o corredor contrário.

Construção de jogo Sevilhana

A construção do Sevilla é muito orientada para a manutenção da posse dentro do seu meio campo. Os três centrais não abrem muito, mantêm uma estrutura mais central, e os alas laterais dão largura, mas recuam muitas vezes no campo para atrair os marcadores directos, o que mais tarde permite tirar máximo partido to tal espaço entre o central e o lateral. Tudo isto induziu e provocou o Rayo a pressionar e a forçar que subissem sempre 4/5 dos seus homens para responder a esta estrutura, atitude que nunca incomodou o Sevilla, face a capacidade que os seus jogadores têm em jogar sobre pressão e de assumir comportamentos de risco.

Muitas vezes, e perdoem-me os adeptos do Rayo, parecia que o Sevilla estava a jogar ao “meio”. Isto porque o Sevilla manipulou de tal forma o adversário e a sua pressão, que muitas vezes os jogadores do Rayo deixavam a sua posição cedo demais para pressionar e tentar ganhar a bola, sem ter um colega a dar cobertura, o que é muito perigoso já que, se não conseguisse ganhar a bola dessa forma, iniciava-se um efeito dominó que muitas vezes resultava em golo, como foi o caso do segundo golo do Sevilla.

Não quero voltar a falar do posicionamento constante dos jogadores do Sevilla entre os laterais e centrais, mas sim da forma como o Sevilla induziu ao lateral Tito a sair da sua posição cedo demais e o resto foi o efeito dominó disso mesmo.

Resumindo, tudo o que o Sevilla procura fazer a nível ofensivo, é transformar a posse (dentro do seu meio campo) no domínio do espaço em zonas mais avançadas.

Neste frame, pretendo não só sublinhar como o Sevilla procura constantemente transformar a posse de bola em bolas diagonais e verticais para as infiltrações dos seus jogadores, como introduzir o papel que André Silva teve no jogo. O movimento de André Silva pode parecer irrelevante, mas é fundamental não apenas para abrir a linha de passe para Banega realizar o mesmo, como para colocar a linha defensiva em dificuldade.

André Silva 

Não querendo falar da época passada, parece que o português encontrou uma equipa que lhe permita voltar a mostrar a sua qualidade, porque ela nunca desapareceu. Demonstrou uma enorme disponibilidade para ajudar a equipa em todos os momentos do jogo, com uma grande capacidade de trabalho, apresentando-se como um ponto de foco para os companheiros. Essa capacidade em ser um ponto de referência permitiu à equipa maximizar ao longo de todo o jogo as bolas diagonais e o jogo vertical.

Sem bola, usou muito bem o lado cego dos adversários quando a bola entrava num corredor na preparação para cruzamentos. Aos 74 minutos, por exemplo, o movimento que faz, permitiu ao companheiro receber livre o segundo poste e ficar perto do golo. Já no último golo, com 80 minutos e 0-3 no marcador, não deixa de estar ligado no jogo, pois esteve envolvido na fase inicial da jogada e acaba por a finalizar num bom movimento curto, à André Silva.

Poderia escrever 400 páginas sobre este jogo, mas em nada ia acrescentar a uma exibição dominadora e muito superior de um Sevilla (e treinador), que vai dar muito que falar esta época.

João Mateus

A probabilidade de o Robben cortar sempre para a esquerda quando vinha para dentro é a mesma de ele estar sempre a pensar em Futebol. Com grandes sonhos na bagagem, está a concluir o Mestrado em Engenharia e Gestão Industrial, pela Uni-Nova e procura partilhar a forma como vê o jogo com todos os que partilham a sua paixão.

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