Análise tática: um olhar ao que falhou e fez um Benfica superior empatar

Benfica e PAOK apresentaram-se sem grandes novidades, os encarnados com o seu clássico 4-3-3 e os gregos no habitual 4-2-3-1. A nível individual, nota apenas para Zivkovic que foi a aposta de Rui Vitória para substituir Salvio, ausente dos convocados.

Benfica: Vlachodimos; André – Rúben Dias – Jardel – Grimaldo; Gedson – Fejsa – Pizzi; Zivkovic – Ferreyra – Cervi.

PAOK: Paschalakis; Matos – Varela – Crespo – Vieirinha; Maurício – Cañas; Limnios – Peleas – Jabá; Prijovic.

PAOK estudou bem para o teste 

Os gregos apresentaram-se com uma disposição que indicava claramente que tinham feito um bom trabalho de casa. O trio defensivo composto por Jardel – Dias – Fejsa é algo limitado a nível técnico, por isso a primeira fase de construção do Benfica resume-se em grande parte a passes laterais, sem grande risco, para Grimaldo e André Almeida, tentando sair a partir das combinações desses jogadores com Cervi e Zivkovic. Em especial pelo lado esquerdo com Grimaldo e Cervi.

O PAOK assumiu um comportamento em certa medida corajoso, em especial pelo adiantamento de Cañas e Maurício, para estes ter sempre acesso e a possibilidade de pressionar imediatamente Pizzi e Gedson, que ao contrário do outro homem do meio campo (Fejsa), são tecnicamente mais evoluídos o que lhes permite receber em situações de grande pressão.

No Jonas No Party

Esta estratégia do PAOK foi particularmente eficaz nos primeiros minutos, em que nenhum jogador do Benfica explorou os espaços nas costas desses dois homens do PAOK (Canãs e Maurício) que subiam para encurtar nos médios do Benfica. Acredito que se Rui Vitória tivesse Jonas em campo, o Benfica ia penalizar fortemente essa coragem dos gregos, na medida em que o Brasileiro é soberbo no aproveitamento desses espaços, pela capacidade jogar a um toque e pelos momentos em que aparece nesses espaços.

O PAOK beneficiou nos primeiros minutos da falta de envolvimento de Ferreyra com os companheiros. Para se perceber o que poderia acontecer (exercício puramente imaginativo), caso FF procurasse a bola na zona indicada a vermelho (no timing certo) bastava desviar a bola ligeiramente para o lado que isolaria Cervi. Importa dizer, que o passe para a tal zona vermelha é de lato risco e só compensa se o jogador que receber a bola estiver bem posicionado, e é isso que se passa em certos momentos com o Benfica! Os jogadores ainda não têm a mesma confiança para arriscar esse passe, porque para eles Facundo não é Jonas … e não o é.

… então, quem é Ferreyra ? 

Sim, vou receber muitas críticas por defender o argentino depois de uma partida em que cometeu muito erros (em especial na finalização), e a sua falta de envolvimento a nível ofensivo acabou por prejudicar imenso a equipa, mas é para isso que cá estou.

É um jogador muito inteligente e com uma capacidade de trabalho e de sacrifício de salientar. É fundamental na proposta de pressão do Benfica (pressão encarnada que nas últimas épocas foi sempre muito desorganizada) particularmente na forma como trabalha as costas dos jogadores em posse para os surpreender e recuperar a bola. Proponho falarmos daqui a uns tempos e olhar quantos golos o Benfica vai fazer depois de recuperações de bola com influência do argentino.

Importância de Facundo Ferreyra na pressão e recuperação
20 segundos que demonstram um PAOK que continua a passar impune (inexplicavelmente)

Já ultrapassaram Basileia e Spartak, mas continuam a apresentar as mesmas deficiências. Os gregos apresentam dois jogadores no centro do meio campo (os referidos Cañas e Maurício), que pela sua forte presença física oferecem uma  boa estabilidade aos dois centrais, em especial em bloco baixo. A partir dos 20 minutos, começaram cada vez mais a aproximar-se dos centrais, procurando manter um controlo maior da zona central à custa do envolvimento no processo ofensivo.

Contudo sempre que o Benfica obrigava esses dois homens a grandes deslocações, abriam-se imensos espaços entre eles e os médios mais exteriores: Limnios e Jabá. A lentidão na forma como rodavam o bloco, e os constantes erros de posicionamento de Limnios e Jabá, resultava na falta de compactação horizontal, que foi pouco explorada pelo Benfica. ( quem tiver a curiosidade reveja o primeiro golo do Spartak na Grécia para perceber como é recorrente )

Neste primeiro momento, a lentidão na rotação do bloco dá a Grimaldo tempo e espaço para encontrar Pizzi nas costas dos homens do PAOK, onde o português (sempre com uma boa noção da posição dos colegas) olha por cima do ombro e deixa a bola passar para Gedson. Este “deixar a bola passar” sem tocar na mesma, é o momento decisivo do lance, na medida em que capitaliza no posicionamento demasiado aberto do ME do PAOK, mantido a velocidade da jogada, dessa forma o homem do PAOK nunca vai chegar a tempo a Gedson o que permite ao jovem a possibilidade de libertar no corredor onde está criada uma situação de superioridade numérica no último terço de 2vs1.

São más decisões como estas, aqui com André Almeida, que explicam em grande medida o empate. E é esta inabilidade dos adversários do PAOK, em penalizar os erros da equipa grega, que lhes permitem estar ainda em prova, como podemos ver nesta última imagem. Os jogadores gregos focam-se muito na bola, e têm muita dificuldade em dividir a atenção entre a bola e os adversários, o Benfica tem de ser mais dinâmico sem bola para penalizar os gregos na segunda mão.

Warda the hell happen no minuto 53? 

A entrada de Warda no jogo foi decisiva, mas não apenas pelo golo que marcou, ao aproveitar uma segunda bola em resultado da vantagem físicas dos companheiros na bola parada, o que revela uma característica fundamental que Dimitris Limnios nunca apresentou: Comprometimento! Para além dessa característica que surpreendeu os jogadores do Benfica, já que estes estavam habituados à inércia que o PAOK apresentou durante grande parte do jogo, Warda foi fundamental na forma como conseguiu trabalhar em espaços curtos.

Resistência à pressão de Amr Warda, autor do golo forasteiro.

Esta qualidade técnica individual torna-o extremamente resistente à pressão, e ao chamar a si vários adversários, permite que a equipa explore situações de superioridade numérica noutras zonas do campo. Foi assim que o PAOK ganhou a falta que deu o golo, depois de uma iniciativa individual de Warda na esquerda, que chamou vários jogadores do Benfica para esse corredor, para depois,  e pela sua capacidade em resistir a essa pressão conseguir libertar a bola e atacar o corredor contrário (naturalmente mais débil).

Conseguirão os portugueses tornar-se imunes à inércia grega que já eliminou russos e suíços?

João Mateus

A probabilidade de o Robben cortar sempre para a esquerda quando vinha para dentro é a mesma de ele estar sempre a pensar em Futebol. Com grandes sonhos na bagagem, está a concluir o Mestrado em Engenharia e Gestão Industrial, pela Uni-Nova e procura partilhar a forma como vê o jogo com todos os que partilham a sua paixão.

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