Análise Tática: Bem-vindos a Bergamo, onde só gostam dos rebeldes!

Na passada semana estive em Itália para viver o início do “Calcio”, naquela que promete ser uma das melhores épocas dos últimos anos, a fazer lembrar os velhos tempos de glória da Série A.

Tive a oportunidade de assistir a um jogo ao vivo, de uma equipa que consegue espelhar na perfeição o comportamento dos adeptos em campo: a Atalanta! Uma equipa rebelde e sem medo de arriscar (tal e qual os seus adeptos), que assim luta contra a diferença ao nível de recursos em comparação com as restantes equipas da Serie A.

Nesta análise proponho olhar para os dois últimos jogos europeus dos comandados de Gasperini, um dos quais vi ao vivo, procurando assim explicar como jogam e porque razão são uma das equipas das mais apaixonantes para ver em Itália e na Europa.

El Allenatore

Gian Piero Gasperini. Este foi o nome que mais ouvi falar nas bancadas quando lá estive, talvez por não perceber grande coisa de italiano, mas suspeito que não. Já com 60 anos, Gasperini é um nome conhecido em Itália, principalmente com o trabalho que fez no Génova, tendo depois passado por um período menos bom (comandou sem sucesso o Inter) mas encontrou em Bérgamo o local perfeito para implementar as suas ideias.

Esta época a Atalanta, como nas últimas, apresentará o seu 3-4-3. Apesar das saídas de jogadores importantes como Caldara, Cristante, Petagna e Spinazzola.

11 Provável para 18-19

As ideias de GPG alteraram pouco ou nada desde os tempo do Génova. Na frente dos 3 centrais estão dois homens que articulam-se bem para dar proteção à defesa. Depois, falar de rebeldia e dinamismo nesta equipa, sem falar dos dois alas laterais (Hateboer e Gosens) é impensável. Na frente variabilidade é o que não falta, GPG oscila muito entre um #9 mais clássico (hoje Zapata, ontem Petagna) e um mais móvel (Barrow), mas de quem não abdica é de Papu Goméz!. Finalmente do lado oposto a Gómez, o apoio ao PL é dado por um jogador com um perfil mais versátil, que consegue variar a sua posição entre o corredor central e as alas conforme as necessidades da equipa (Cristante era que fazia esse papel na última época).

Em Bergamo, é mano a mano

Se fosse obrigado a escolher a maior característica desta equipa, era sem dúvida a forma agressiva como marcam homem a homem em praticamente todo o campo! Como podemos observar na imagem em baixo (em especial pelo comportamento de Gomez) este tipo de pressão é extremamente exigente para os jogadores.

É fácil chegar à conclusão que não existe uma estrutura base quando a Atalanta defende, a forma como pressionam é tão frenética e agressiva que é praticamente impossível conseguir identificar uma estrutura clara. Há jogos em que podemos ver Masiello perseguir o PL contrário até ao meio campo! Contudo é uma forma de pressionar de alto risco, na medida em que basta um jogador falhar na sua missão, que inicia-se o efeito dominó, mas é precisamente para minorar esse risco que a equipa pressiona tão alto, para os erros ao ocorrerem acontecerem o mais longe da baliza possível.

Esta pressão alta é particularmente eficaz contra equipas que gostam de controlar os ritmos de jogo e iniciar a sua construção desde trás, uma vez que força muito ao jogo direto, despoletando um jogo caótico, caos esse que coloca os adversário em posições desconfortáveis  (o que é perfeito para os “rebeldes” de GPG)

Para quem ainda possa estar pensar que estou a falar de uma forma de pressionar “louca”, “sem critério”… não o pense. É uma estratégia que se baseia em três pontos fundamentais para ser tão efectiva como é: agressividade, posicionamento corporal e timming! O exemplo em baixo é do jogo de ontem, onde o Copenhaga sentiu muitas dificuldades para lidar com esta agressividade na pressão.

Agressividade na bola para pressionar a tomada de decisão, com a marcação individual das possíveis opções de passe.
Estrutura em posse 

Todos os jogadores apresentam qualidade de passe, ou seja, a bola raramente perde velocidade quando a Atalanta está a fazer a circulação da mesma e nos momentos em que procura construir desde trás. Apesar de abusarem um pouco da circulação horizontal, mas a verdade é que muitas vezes conseguem cansar o adversário e encontram janelas de oportunidade para colocar bolas diagonais para o interior da estrutura adversária.

A forma organizada e simples como os jogadores se dispõem em posse oferece uma estrutura forte para a criação de oportunidades de golo. Nessa forma organizada, ilustrada em cima, o objetivo é encontrar Gomez e Pasalic (assumindo que é ele que joga pela direita) nos espaços entre o corredor central e lateral, para estes poderem rodar e avançar para a baliza, mesmo quando não recebem a bola, conseguem chamar a sim o lateral, libertado o corredor para os alas laterais explorarem com tempo e espaço.

São também uma formação flexível, na medida em que muitas vezes os adversários encurtam as linhas, procurando ficar muito compactos verticalmente, tudo para oferecer o mínimo espaço possível a homens como Gomez em zonas interiores. Quando isso acontece, a equipa está preparada para jogar longo e com qualidade e articulação de movimentos sem bola explorar o espaço criado pela subida da linha defensiva adversária.

A pressão na bola é uma forma de evitar que a Atalanta tenha espaço para explorar essas zonas nas costas, mas é dicil ter acesso constante à bola quando a Atalanta a circula rapidamente (voltamos ao tema do à vontade em posse de todos os jogadores).

Romper por dentro para chamar e acelerar por fora

No clip seguinte gostava que tivessem atenção à forma como os alas laterais se mantêm sempre com amplitude máxima e são um ponto que os companheiros procuram, mal têm a posse de bola. Aqui por duas vezes, em curtíssimo espaço de tempo, primeiro com uma bola a explorar a largura e  depois com outra diagonal para dentro da grande área induzindo o 1vs1 contra o adversário numa zona muito próxima da baliza.

Quando a Atalanta consegue colocar os seus alas laterais com tempo e espaço nos corredores, é frequente vermos estes a fazer cruzamentos tensos e rasteiros para a zona de penalti, a pedir a entrada ao segundo poste do ala lateral contrário, ou passes atrasados para a infiltração dos médios.

 

Ficou muito por dizer, mas para não tornar este artigo demasiado extenso guardarei o que faltou para uma próxima.

Deixo apenas uma foto, que ilustra o ambiente que se vive nas bancadas dos Orobici!

 

 

João Mateus

A probabilidade de o Robben cortar sempre para a esquerda quando vinha para dentro é a mesma de ele estar sempre a pensar em Futebol. Com grandes sonhos na bagagem, está a concluir o Mestrado em Engenharia e Gestão Industrial, pela Uni-Nova e procura partilhar a forma como vê o jogo com todos os que partilham a sua paixão.

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