Que grande Gallo. Um olhar para o Marítimo – Chaves

A terceira jornada do nosso campeonato abriu com um confronto entre duas equipas, com sonhos europeus. Sabemos que qualquer Marítimo – Chaves é sempre um jogo interessante e equilibrado, contudo este era especial pois marcava o regresso de Daniel Ramos ao Estádio dos Barreiros, agora aos comandos da equipa de Trás-dos-Montes.

Primeira parte fechada a 3 Chaves

Gosto de olhar para o Chaves como um 4-2-3-1, com Bressan na frente de Eustáquio e Gallo formando uma estrutura em triângulo que se articula muito bem. Nos corredores, Perdigão sobre o lado direito converge muito para dentro para permitir a invasão do corredor lateral por Paulinho, lateral extremamente agressivo que consegue tirar cruzamentos muito perigosos. Na esquerda, o comportamento é ligeiramente diferente, Avto procura dar largura e Djavan não avança tanto (também porque tinha Bebeto pela frente). Em geral Avto e Djavan partilham ao mesmo tempo o corredor esquerdo, o que dá abre espaço na zona entre esse corredor lateral e o central, para Eustáquio poder “trabalhar”.

O posicionamento de Eustáquio é o ponto fundamental, ocupa uma zona que coloca muita indecisão nos jogadores do Marítimo, atraindo adversários cuja principal missão é ocupar o corredor central. Depois usa a sua qualidade de distribuição de curta e média distância, para fazer chegar a bola ao corredor direito antes de esses jogadores adversários (previamente atraídos para junto de si), onde Paulinho já está preparado para agredir o adversário. Quando o advesário consegue evitar essa distribuição do #8, entra em ação Marcão, que apresenta uma capacidade ao nível do passe bastante boa para um defesa central.

Marítimo levou com um grande Gallo

Os insulares tiveram sempre muitas dificuldades em estabelecer uma estrutura (já vou falar sobre isso) que lhes permitisse progredir em posse. Como o treinador do Marítimo abordou na Flash, a estratégia da sua equipa iniciava-se com a colocação dos laterais em posições mais recuadas, não apenas para ter mais estabilidade nesse primeiro momento (com uma linha de 4 atrás), mas para chamar os extremos adversários para zonas mais laterais, assim Danny e Correa podiam ocupar a zona nas costas desses homens.

Podia ser uma estratégia interessante, mas não funcionou da melhor forma por dois motivos (na minha ótica):

  1. Má (lenta) circulação de bola ao longo da linha defensiva, também o facto de serem 4 homens não ajuda. Assim, essa lentidão, dava tempo ao Chaves para rodar e ajustar posições e quando os laterais recebiam já tinham o extremo muito perto.
  2. Gallo. Rubricou uma exibição de grande qualidade. É verdade que as movimentações dos jogadores do Marítimo foram sempre muito previsíveis sem bola, apesar disso este sempre muito bem na forma como lia as jogadas, ocupava o espaço, dava coberturas e garantia o equilíbrio. Foi particularmente eficaz na forma como pressionada a partir do lado cego do adversário, com a agressividade certa o que permitiu algumas recuperações em zonas importantes do terreno.

Gallo esteve também a um nível muito elevado em termos ofensivos, impressionou pela sua qualidade técnica na forma como jogava a um toque em espaços curtos, o que permitiu em várias situações ao Chaves retirar a bola de zonas de pressão com facilidade através de combinações curtas. O facto de o conseguir fazer a um toque, é importante, porque permite manter (até acelerar) o ritmo da jogada dificuldade a recuperação de bola imediata do adversário.

No Marítimo, a vantagem numérica na primeira fase, resultou em desvantagem posicional. Como?

Até para termos um termo de comparação, o triângulo do Chaves: Gallo – Eustáquio – Bressan, apresentou constantemente vantagem posicional já que a forma como se articulavam permitia que se estabelececem linhas de passe e conexões muito favoráveis à progressão da bola. Isso não aconteceu do lado do Marítimo.

Os comandandos de Claúdio Braga, cometeram em várias (muitas) ocasiões erros na forma como os jogadores sem bola se posicionavam e se movimentavam.

  1. Posicionalmente: Jean Cléber e Fabrício, na tentativa de construir desde trás, ocupavam muitas vezes as mesmas posições, no mesmo eixo vertical ou horizontal. Os ângulos de passe eram limitados e assim também seriam as probabilidades de progredir.
  2. Movimentos: Os jogadores do Marítimo estavam algo descoordenados, já que fazia movimentos iguais, ou seja, os dois jogadores, ao mesmo tempo, a se aproximarem do portador para receberem o passe.

Assumo que os pontos que referi em cima podem em parte ser resultado da estratégia de saída com os laterais que já falei, por isso, o maior problema na minha ótima foi a incapacidade de assumir riscos na tomada de decisão. Não estou a falar de ter os centrais a fazerem passes diagonais por entre meia equipa adversária, nem fintar 1vs1 lá atrás, apenas simples passes para as costas da 1ª linha de pressão do Chaves.

Danny

Nunca deixou a equipa ficar totalmente fora do jogo. A ineficácia de Jean Cléber e de Maurício em contribuir para a progressão da bola, obrigou Danny a baixar a zonas muito recuadas para pegar no jogo. Porque ele? Risco.

Era o único jogador do Marítimo que tinha a capacidade de assumir o risco quer aquele necessário a fazer passes para dentro da organização adversária, dando imediatamente o apoio ao recetor, que em progredir com a bola, aguentando a pressão dos marcadores e ir “para cima deles”. A sua mobilidade também foi importante para arrastar adversários.

Para o#10 ter espaço de aparecer, e assumindo a título de exemplo o lado direito, o médio abria no corredor (na posição recuada previamente ocupada por Bebeto, na mecânica que já abordei no inicio) procurando atrair Bressan ligeiramente para si. Quando Danny recebia, procurava sempre rodar e ficar de frente para o jogo. Aí tinha duas opções, avelocidade de Bebeto ao longo do corredor ou capacidade de desequilíbrio e progressão sobre pressão de Correa.

Concluindo, foi um resultado que não espelha o que se passou em campo. Apesar do Marítimo ter melhorado muito na segunda parte, nunca foi melhor que o Chaves.

Creio que as bolas paradas foram determinantes para o Marítimo, já que foram tendo cada vez mais livres para a área e cantos, à medida que o jogo se aproximava do fim, isso acabou por sobrecarregar e colocar muito pressão na defesa do Chaves e pode explicar em parte os golos que sofreu em 4 minutos.

João Mateus

A probabilidade de o Robben cortar sempre para a esquerda quando vinha para dentro é a mesma de ele estar sempre a pensar em Futebol. Com grandes sonhos na bagagem, está a concluir o Mestrado em Engenharia e Gestão Industrial, pela Uni-Nova e procura partilhar a forma como vê o jogo com todos os que partilham a sua paixão.

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