Lisboa anda mal habituada? Que derby foi este?

… foi um dos piores dos últimos anos. É certo que ainda estamos em Agosto, o Benfica atravessa um período de muitos jogos em poucos dias e o Sporting não conta ainda com muitos jogadores (entre reforços e titulares), mas espera-se (como nos últimos anos) sempre mais de um derby.

Equipas: À exceção da entrada de Rafa para o lugar de Zivkovic, o 11 do Benfica manteve-se o mesmo. Já o Sporting para além das ausências de Dost e Mathieu, substituídos por Montero e A.Pinto, Peseiro aposto em Raphinha.

Limitações da 1ªFase de Construção do Benfica

Algo que o Sporting procurou desbalizar logo desde o apito inicial foi a saída do Benfica desde trás, com Bruno Fernades ao lado de Montero a pressionar os centrais, estas articulavam-se de forma a evitar que Fejsa tivesse a oportunidade de receber no corredor central, tentando assim conduzir a bola para zonas laterais onde o Sporting aumentava a intensidade dessa mesma pressão com a finalidade de forçar erros, para depois sair em contra ataque.

O Benfica, e Fejsa, teve algumas oportunidades de romper essa pressão, e de aproveitar o espaço entre a linha média e avançada do Sporting, mas vieram muitas vezes ao de cima as limitações dos encarnados neste fase do jogo. Neste lance, o sérvio nunca olhou por cima do ombro, para ter a perceção do espaço que tinha para rodar, limitou-se mais uma vez a lateralizar o que acabou por resultar na sua equipa em jogar direto na frente.

Não é de estranhar a forma como o Sporting consegue o pénalti que converte no 0-1. Mais uma vez o Benfica a tentar sair, mas o facto de a circulação ser:

  1. Lenta: Principalmente pela estrutura, 4 jogadores na mesma linha vertical, que limitava a velocidade a que a bola podia andar;
  2. Previsível: Em resultado das limitações técnicas dos jogadores;

Tornava a missão do Sporting mais fácil, já que, quando a bola chegava ao lateral, já tinha o seu adversário em cima que conseguia (pela forma como corria e colocava o seu corpo ) fazer o lateral voltar a jogar no central. Este era o momento em que o Sporting procurava aumentar a intensidade da pressão e recuperar a bola, preferencialmente em zonas que em 2/3 passes conseguisse finalizar e foi o que aconteceu.

Neste primeiro momento, como podem perceber, é bastante óbvio para todos onde Jardel vai jogar a bola. Bruno Fernandes, está 3 segundos à frente do que vai acontecer, apercebe-se que Grimaldo não vai ter outra opção se não devolver em Jardel. Agora há uma coisa que BF sabe (que Montero está a movimentar-se para ficar com Fejsa ) e outra que não sabe, que é o que se está a passar no seu lado cego por isso olha para se certificar que Pizzi está ao alcance de Battaglia.

Por estarem reunidas estas condições, BF inicia em velocidade a aproximação a Jardel, dando o estímulo a toda a equipa do Sporting que é momento de pressionar.

A pressão de Bruno Fernandes é sobretudo uma pressão na tomada de decisão, obrigou o jogador do Benfica a cometer o erro. Se, vamos imaginar, BF abordasse Jardel de forma passiva, apenas procurando anular a linha de passe para Fejsa (também como fez pela forma como correu), o jogador do Benfica tinha tempo para ver e se aperceber que o passe que acaba por fazer era de alto risco.

Sporting apostou muito em explorar esta dificuldade do Benfica (que já tinha referido na minha análise do jogo com o PAOK), reagindo bem e de forma coordenada ao estímulo, acabando por capitalizar, entre outros factores, na previsibilidade dos jogadores do Benfica.

Lance que resulta na grande penalidade para o Sporting.

Bastou um tímido dinamismo do Benfica, para os espaços aparecerem

O Benfica sempre nos foi habituando ao dinamismo da sua asa esquerda, em especial dos envolvimentos do duo Cervi-Grimaldo, com um terceiro homem (particularmente Pizzi). Sempre que os encarnados exploraram essa arma, os buracos e espaços na defesa do Sporting apareciam. Alguns desses erros, como o facto da equipa não ajustar à saída do central da linha para pressionar o seu homem, como aqui com Coates, já tinham acontecido nas duas primeiras jornadas e continuaram neste jogo. Mesmo sabendo que André Pinto não está tão articulado com Coastes como Mathieu.

Arrastamento de Coates para fora de posição, que depois fica na dúvida porque tem um homem livre nas suas costas; Inteligência de Grimaldo em atacar a profundidade, obrigando o LD a escolher se vai com ele e deixa os colegas em uma situação de inferioridade numérica grave, ou se fica e arrisca-se a deixar Grimaldo isolado. Este comportamento do espanhol sem bola, de estar constantemente a colocar dúvidas aos adversários, com os seus movimentos, será fundamental na Grécia.

Tímido? Porquê?

Continuando neste lance aos 31 minutos, Pizzi, da mesma forma que Bruno Fernandes deu um estímulo à equipa para fazer algo, no lance que já abordei do 1º golo, também o jogador do Benfica indica aos companheiros, através do passe curto seguindo do movimento sem bola em direção á baliza, que é o momento de aumentar o ritmo e atacar a baliza.

A bola quando sai dos pés de Pizzi, o ritmo da jogada aumentou automaticamente e o objetivo é que, no mínimo, fique assim para aproveitarem a vantagem numérica na zona do campo onde estão. O que Rafa faz a seguir é a pior reposta possível ao estímulo que recebe do colega, não jogou a um toque (nem a dois), e quebrou o ritmo da jogada.

Mesmo com essa opção de Rafa, o espaço que Cervi ocupa deixa Coates em uma posição de tal forma comprometedora que o não jogar a um toque não deitou fora a posição de vantagem que o Benfica tinha, mas a colocação dos apoios de Cervi sim. Daquela forma, apenas era possível (rapidamente) jogar em Grimaldo para este cruzar. Certamente que uns defenderam que Rafa tentou ir de encontro a Coates para o tentar chamar, libertado em Cervi, mas esse comportamento acaba (como aconteceu) por dar tempo ao lateral direito de ocupar o espaço sem cobertura.

Com a imagem corrida podemos ver tudo isto em ação e também ver algo que faltou ao Benfica em muitos momentos: inferioridade numérica em zona das finalização, daí eu defender que a opção cruzamento não era a melhor. Curiosamente, ou não, é o facto da entrada de João Félix resultar precisamente na colocação de mais jogadores do Benfica nessa zona de finalização, acabando ele mesmo por fazer o golo (belo golo) do empate.

Dinamismo do Benfica no espaço entre corredores.

Notas finais

  • Impossível não falar, e não é preciso falar muito, de Salin, esteve brilhante.
  • Pizzi, mais uma grande exibição, que não teve mais impacto porque neste momento os colegas estão a um nível diferente.
  • João Félix. O Benfica teve sempre mais bola, criou mais perigo. Particularmente depois do golo do Sporting, os encarnados chegaram a atingir valores de 70% de posse de bola, com muito futebol ofensivo, mas a verdade é que parecia que o Sporting ia levar os 3 pontos. Até que a entrada de Félix (e Seferovic) mudou o jogo, o Sporting deixou de tentar sair em contra ataque, os laterais era forçados a posições cada vez mais interiores. A organização defensiva do Sporting tornou-se gradualmente mais compacta (Petrovic acabou por entrar), mas esse tipo de organização,  sem colocar pressão na bola é muito perigosa. O Benfica finalmente colocou mais corpos em zonas de finalização e chegou ao golo.

 

 

João Mateus

A probabilidade de o Robben cortar sempre para a esquerda quando vinha para dentro é a mesma de ele estar sempre a pensar em Futebol. Com grandes sonhos na bagagem, está a concluir o Mestrado em Engenharia e Gestão Industrial, pela Uni-Nova e procura partilhar a forma como vê o jogo com todos os que partilham a sua paixão.

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