Os Diabos não podem ser tão santinhos

Na noite passada o United recebeu em sua casa o Tottenham, e perdeu por uns esclarecedores 0-3. Este resultado, extremamente negativo, vem na sequência de um outro não menos desapontante na segunda jornada, quando o Manchester United foi a Brighton perder por 3-2.
O que pode explicar este sequência negativa? Terá ela um fim à vista?
Mourinho fez alinhar um 3-5-2 (3-5-1-1), com Jesse Lingard (JS) atrás de Lukaku (RL). A grande surpresa foi Ander Herrera (AH) na linha de 3 defesas ao lado de Chris Smalling (CS) pelo lado direito.

Ressaca de Bailly

Não sendo Brighton o jogo em questão, quero apenas para falar de um dos grandes problemas que o United demonstrou a nível ofensivo, nessa partida: o envolvimentos dos laterais no processo ofensivo, sempre passivos, pouco agressivos com um maior foco em tentar equilibrar os erros que os centrais iam somando. Em particular do terrível jogo que o melhor central (na minha opinião) do United, Eric Bailly (EB), teve.
O costa-marfinense precisa de se adaptar à força física dos avançados em Inglaterra, a velocidade não é tudo. Agora, a velocidade que Eric Bailly apresenta é muito importante na cobertura dos espaços e nas dobras e a sua ausência foi muito visível neste jogo, em especial na reacção à perda da bola, e o United perdeu muitas, e na velocidade de Lucas a partir do corredor central com os defesas em contra pé.

Lindelof a “filmar” a jogada. Esta é a diferença entre ter Bailly e não ter. A falta de velocidade do sueco, acaba por transformar Smalling em um fácil obstáculo para Lucas Moura.
Mourinho não foi Mourinho

A mudança para 3 centrais, para espelhar o mesmo 3-5-2 do Tottenham, teve como objectivo dar à equipa mais confiança, em particular a uma defesa debilitada. Uma linha de 3 homens significava que Mourinho ia ter teoricamente superioridade numérica face aos avançados dos Spurs na primeira fase de construção, o que permitia alocar apenas Matic a essa fase, libertado Fred e Pogba para posições mais avançadas, preferencialmente dentro da organização do Tottenham, onde podiam estar à disposição de bolas verticais, mas a equipa nunca foi estruturalmente competente para permitir isso.

O United entrou bem no jogo, com uma mentalidade atacante e de risco, que não é muito normal em Mourinho. Seja com o posicionamento agressivos dos alas laterais sem bola, quase em linha com Lukaku (que acabou por forçar Rose a uma passe para o GR intersectado por Lukaku), seja com colocação de Ander Herrera na posição de Defesa Central pela Direita, foi importante para isso, já que era o único central que o United tinha com a capacidade de assumir a progressão com bola e invadir o meio campo contrário, aproveitando o espaço criado depois da rotação do centro do jogo.

Mauricio Pochettino acabou por reconhecer rapidamente essa situação e deu indicações para a marcação quase individual a AH na saída de bola e a Danny Rose e Keiran Trippier (laterais) para não subirem tanto. O que transformou o esquema do Londrinos em algo semelhante a um 4-3-1-2. O conservadorismo dos laterais, deu ao meio campo dos Spurs maior capacidade de ganhar a bola e controlar o jogo, atacando posteriormente desde esse corredor e não através dos laterais.

Gradualmente essa colocação dos laterais retirou espaço a Valência e Shaw, e também retirou espaço entre central-ala lateral que existe no 3-5-2, que Lukaku e Jesse são exímios a explorar.

O United acabou assim, e com o avançar do jogo, por não potencializar os seus laterais (agora em defesa a 3), já que o conservadorismo de Rose e Trippier impediu o United de dar a largura que Mourinho pretendia. Não podendo explorar os corredores, o United foi obrigado a um jogo mais pelo corredor central, onde o espaço estava sobrecarregado de jogadores.

Indepêndencia não é Interdepêndencia

Neste lance, De Gea ilude a pressão de Lucas Moura e faz a bola chegar a Jones. Jones coseguer fazer um passe com quase todos os defeitos possiveis, lento, com a bola aos saltos, previsivel e torto, obrigando Matic a ajustar a sua posição inicial para responder a todas estas caracteristicas. Isto deixa-o susceptivel à pressão de Alli pelo seu lado cego, ainda por cima porque o Sérvio têm de se preocupar com o adversário que o vai pressionar de frente e em se ajustar para receber o passe, tudo isto em um curto espaço de tempo.

O Tottenham reage bem ao estímulo iniciar a pressão, o adversário receber de costas para baliza adversária, e quando isto acontece é vital a equipa ter uma estrutura de apoio em volta desse homem e que funcione. Se isso acontece até podemos transformar essa pressão do adversário a nosso favor.

Vamos imaginar que Smalling se aproximava mais de Matic para recebe a bola de frente do sérvio, se isso acontecer (como estamos a ver no Chelsea, quando Jorginho intencionalmente recebe de costas) o central fica de frente para o jogo e em um posição privilegiada para usar a verticalidade de forma a encontrar Fred e Pogba atrás dessa linha de pressão.

Conclusão

O United abordou muito bem o jogo, Fred, Jesse e Lukaku articularam-se bem para pressionar o Tottenham que demorou um pouco para se ajustar, mas os Spurs não jogaram com a pressão que estava nos ombros do Man United, e situações de perda de bola (como a que mostro na última imagem) foram gradualmente colocando dúvidas na cabeça dos jogadores de Mourinho e o primeiro golo teve um efeito dominó na equipa.

Nota-se entre os  jogadores alguma independência, o que é mau, o que se pretende é interdependência.

Mourinho vai conseguir ultrapassar mais este desafio?

 

João Mateus

A probabilidade de o Robben cortar sempre para a esquerda quando vinha para dentro é a mesma de ele estar sempre a pensar em Futebol. Com grandes sonhos na bagagem, está a concluir o Mestrado em Engenharia e Gestão Industrial, pela Uni-Nova e procura partilhar a forma como vê o jogo com todos os que partilham a sua paixão.

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