Como jogam os adversários nacionais na Europa? Nº8: FC Lokomotiv

O Futbolniy Klub Lokomotiv viveu na última época um conto de fadas que lhe permitiu não só disputar a Liga dos Campeões como o fazer através do Pote 1, ao lado de emblemas como Real Madrid CF, Barcelona FC ou Manchester City FC.

Esse posicionamento, junto dos maiores emblemas europeus, dava ao conjunto russo uma vantagem tremenda para o sorteio, que os comandados de Yuri Semin não souberam capitalizar.

Para reforçar o 4-2-3-1, chegaram à capital Rússia vários nomes bem conhecidos de todos: Benedikt Höwedes, Krychowiak e Fedor Smolov. Apesar de tudo, o grande nome continua a falar português. Manuel Fernandes jogou todos os minutos, de todos os jogos da equipa. A nível doméstico, já leva dois golos e continua a ser a peça mais importante para Semin.

O momento

O conto de fadas, de que falei no início, chocou fortemente com a realidade neste inicio de época. No primeiro jogo da Liga milionária, os russos deslocaram-se até à Turquia, mudaram para uma estrutura defensiva de cinco homens e sairam goleados. Depois, regressaram a casa, para enfrentar um Schalke em crise de resultados, e acabaram por perder já perto do final do jogo.

Ultimamente a equipa evoluiu positivamente, e está mesmo no melhor momento da época. Venceu o CSKA fora e o Rostov no RZD Arena (terceiro classificado).

Pela sua forma de jogar, acredito que é mais perigoso enfrentar o Lokomotiv em “nossa casa”. Isto porque é uma equipa fortemente baseada na solidez defensiva e na exploração do contra-ataque. Uma estatística da época passada, que ilustra na perfeição este comportamento, é o facto de terem marcado apenas e só 15 golos nos 15 jogos que realizaram em casa para a Premier League Russa.

Uma média de um golo marcado por jogo, que lhes permitiu alcançar o título. A única forma de tornar essa estatística mais interessante é revelar que 5 desses 15, foram alcançados através de bolas paradas.

Equipa e estrutura

Apesar da tentativa de implementar o 5-4-1, o Lokomotiv permanece fiel ao 4-2-3-1, que lhes deu o título na época passada. Com Farfán e Smolov de fora, fica a dúvida sobre quem vai ocupar a posição de ponta de lança, se Aleksey Miranchuk ou Éder.

Também na defesa existem alguns pontos de interrogação. Howedes tem atuado como lateral esquerdo, cedendo o lugar ao lado de Kvirkvelia a Córluka. Provavelmente será essa a aposta de Semin, até porque, apesar dos 32 anos, Corluka tem feito exibições consistentes. Assumindo que Rybus, o melhor lateral, mas que está sem competir à muito tempo (apesar de já ter voltado a treinar com a equipa) ainda não está em condições para responder à exigência de um jogo Champions League.

Organização Defensiva

Sem bola raramente pressionam o adversário em zonas altas. Pretendem manter-se em um bloco compacto, obrigado o adversário a subir para depois explorar o espaço nas costas para o contra-ataque.

Em Organização defensiva são muito bons, e sentem-se confortáveis em dar a bola ao adversário, tal é a confiança que sentem na sua estrutura defensiva.

Mesmo no momento do contra-ataque, há sempre uma preocupação com a defesa, ou seja, apenas se envolvem 4/5 homens. Normalmente, Manuel Fernandes, Miranchuk, Krychowiak e o ponta de lança.

Com a lesão de Farfán (na imagem em cima como MCO), Yuri Semin vez avançar Krychowiak para a posição mais próxima do PL e fez entrar Barinov para o meio campo. Esta alteração, curiosamente, correspondeu ao momento em que o Lokomotiv começou  a melhor significativamente os seus resultados.

Krychowiak, como MC, não dá à equipa a estabilidade defensiva que Semin pretende. Aventurava-se muito nas transições e nos contra-ataques e deixava muitas vezes Denisov sozinho, quando a equipa perdia a bola. Isto porque o Lokomotiv não está preparado, pelo menos parece não ter nada planeado,  para recuperar a bola imediatamente após a perda, o que deixava os elementos que não acompanhavam o ataque (Defesas e Denisov) vulneráveis.

Organização Ofensiva

Um problema. Quando são forçados a assumir o jogo, a atacar de forma organizada, sentem muitas dificuldades. Para se ter uma ideia da dificuldade e inabilidade em transformar a posse de bola em algo de valor, nos cinco últimos jogos da época passada (quando lutava pelo título) em casa, o Lokomotiv empatou a zero com o Ufa, Terek e Spartak, vencendo pela margem mínima o Rostov e o Zenit (golo aos 87 minutos).

Outra estatística que mostra o cariz defensivo da equipa são o número de remates por jogos. Esta época, o Lokomotiv têm, em média, 13.7 remates por jogo, ou seja, apenas a sétima melhor do campeonato. Contudo se contabilizarmos apenas os jogos em casa, nesta estatística, o Lokomotiv desce para o décimo lugar, atrás de emblemas como FK Akhmat (9º lugar do campeonato) e Samara (13º lugar do campeonato).

Denisov muito fixo, sem liberdade. Lateral sem permissão para fazer sobreposição ou vir para dentro. Não há uma estrutura para, de forma consistente, permitir à equipa construir jogadas contra defesas organizadas.

Na liga Russa, onde a qualidade individual dos jogadores é baixa, o Lokomotiv ainda consegue ultrapassar estes problemas estruturais através da exploração de situações de 1vs1 com Manuel Fernandes, Farfán ou Miranchuk. Na Liga dos campeões, isso não acontece, e não é estranho a equipa ainda não ter conseguido marcar qualquer golo.

E se o marcar, muito provavelmente, será através de situações de bola parada.

Perigo Ofensivo: Bola parada.

É sem sombra de dúvidas o momento em que o Lokomotiv pode criar mais perigo. E é um ponto a favor da colocação no onze de Kvirkvelia, Howedes e Corluka. Trabalham muito bem este tipo de lances.

Sem o número de golos que marcaram na época passada, através deste tipo de situações, não seriam campeões.

Situações a explorar 

  1. Transição Defensiva.
  2. Caso não jogue Denisov e Barinov no centro do meio campo, explorar a falta de entendimento entre Denisov e Krychowiak.
  3. Explorar a falta de comprometimento de Manuel Fernandes, na fase defensiva. Muitas vezes anda a um ritmo mais baixo da restante equipa, quando ela se procura ajustar à movimentação da bola, e abre espaços.
  4. Dificuldade de Ignatjev em lidar com situações de 1vs1. (Carrega Brahimi).

Situações a ter em consideração

  1. Não deixar demasiado espaço, particularmente entre a linha defensiva e os médios, para os contra-ataques russos.
  2. Bolas paradas ofensivas do Lokomotiv.
  3. Impacto de Manuel Fernandes na fase ofensiva da equipa.

 

Curiosamente, o jogo no Dragão é aquele que, no meu ponto de vista, oferece mais perigo ao FC Porto. Apesar de tudo o FC Porto está, no mínimo, um degrau acima desta equipa Russa. Um Lokomotiv com uma média de idades muito elevada, que vai ter muitas dificuldades em lidar com a qualidade individual e coletiva dos dragões.

João Mateus

A probabilidade de o Robben cortar sempre para a esquerda quando vinha para dentro é a mesma de ele estar sempre a pensar em Futebol. Com grandes sonhos na bagagem, está a concluir o Mestrado em Engenharia e Gestão Industrial, pela Uni-Nova e procura partilhar a forma como vê o jogo com todos os que partilham a sua paixão.

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