Benfica-Barcelona: A final e a “maldição Béla Guttman”

Foi a 31 de maio de 1961, no Wankdorf Stadium, em Berna, Suíça, que o Benfica conquistou pela primeira vez a Europa, tornando-se o primeiro clube português a ganhar a Liga dos Campeões (anteriormente denominada de Taça dos Campeões Europeus). Até ali a competição só conhecia um vencedor desde a sua criação, o Real Madrid de Puskás, Di Stéfano e companhia, que era penta campeão na altura.

Berna: a grande final

O Barcelona chegava como favorito à conquista do tão cobiçado troféu. Os Catalães, que tinham eliminado o Real Madrid nos quartos-de-final, tinham perdido apenas um jogo, na semifinal, contra o Hamburgo(2-1).

Em condições normais, o Barcelona teria goleado. Mas a história foi diferente! O Benfica, com uma equipa 100% portuguesa, conseguiu um feito impressionante frente a um Barcelona que era favoritíssimo à vitória.

Os espanhóis entraram decididos em marcar, criando sucessivas oportunidades, mas a bola não queria entrar nas redes dos encarnados. A Blaugrana colocou-se na frente do marcador aos 20’ minutos, num cabeceamento de Kocsis, uma das principais referências do Barcelona, depois de um cruzamento com conta, peso e medida por parte de Luis Suárez.

O Benfica treinado por Béla Guttman, profeta de uma maldição que dura até hoje, estava em apuros. A partir do momento do golo, o Barça limitava-se a fazer contra ataques, entregando a iniciativa ao Benfica, estratégia arriscada visto que o Barcelona não era famoso pela sua defesa, que deixava muito a desejar.

Teria de ser Coluna, «o monstro sagrado», a puxar dos galões para tirar o Benfica do calabouço. O médio português, nascido em Moçambique, num passe sensacional descobriu Cavém, que fez gato-sapato do lateral-direito do Barcelona. Ramallets, o carismático guarda-redes espanhol, até hoje considerado um dos melhores de todos os tempos, saiu em falso e permitiu a desmarcação de Águas que chegou à bola antes da defesa do Barça. Corria o minuto 28’ e o jogo estava novamente empatado.

Em apenas 4 minutos, o Benfica dá a cambalhota no resultado. Aos 32’ minutos, Ramallets voltou a meter água, desta feita um autogolo. A tarde não estava a correr bem ao guarda-redes espanhol e a vitória parecia escorregar das mãos dos catalães… O golo, esse era discutível. Águas, que estava perto do lance, festejou o golo ao invés de encostar a bola para dentro, mas ninguém reclamou. Muitos ainda hoje reivindicam que a bola não chegou a passar a linha de baliza. Bola dentro da baliza ou não, o Benfica estava na frente.

Finalmente chegados ao intervalo, o Barcelona sai de campo com um amargo de boca. Pelo futebol que produziu deveria estar a ganhar, mas no futebol não ganha quem faz o jogo mais bonito mas o jogo mais eficaz e no capítulo da eficácia o Benfica esteve impecável, em três oportunidade criadas concretizou duas, embora uma delas bastante discutível.

A águia voou mais alto

Naquele dia, os deuses do futebol, se existirem, estavam certamente a conspirar para o Benfica conquistar aquele troféu e com o correr do jogo esse desfecho era cada vez mais inevitável. O Barcelona estava a ter talvez um dos jogos mais azarados da sua história.

Com o reatar do jogo, o Barcelona mantinha-se pressionante embora sem o mesmo ímpeto e fulgor do primeiro tempo. Os espanhóis jogava um futebol que dava gosto de se ver, muito técnico, veloz e com movimentações constantes.

No entanto, foi o Benfica que marcou de novo, com um golo do outro mundo de Coluna. Cavém cruzou do lado esquerdo e o central do Barcelona aliviou para a boca da área. Coluna respondeu com um remate de primeira, sem deixar a bola bater no chão após o alívio, um remate sem hipótese de defesa.

Até ao fim, o Barcelona acertou quatro vezes na trave da baliza encarnada. A bola teimava em não entrar. Por falta de sorte ou excesso de preciosismo em muitos dos lances, não conseguiu sair de Berna com a vitória.

Só conseguiram alvejar a baliza de Costa Pereira mais uma vez, a 15’ minutos do final do encontro. Czibor fez um golo monumental, à semelhança de Coluna, com um remate com a bola a saltar, de fora de área, acertando no ângulo direito da Baliza encarnada. Costa Pereira quase conseguiu salvar o lance.

O Benfica, mesmo encostado às cordas, apoiou-se no contra ataque e na defesa sólida e também no infortúnio dos espanhóis e conseguiu o feito histórico. Feito esse que não se repetiu mantendo-se desde então a “maldição Béla Guttman”. Segundo reza a história, em 1962, depois de conquistar pela segunda vez o troféu pelo Benfica, Béla Guttman, que se diz ser o “descobridor” de Eusébio, pediu um prémio pela conquista alcançada. O Benfica não quis atender ao pedido, o que levou à saída precipitada do técnico, que profetizou – “sem mim não voltarão a ser campeões europeus nos próximos 100 anos”. Desde 1963 que o Benfica não consegue quebrar este enguiço, sendo recordista de finais europeias consecutivas perdidas (8 no total).

Béla Guttman, treinador Bi-Campeão europeu pelo Benfica

Tiago Domingos

Lourinhanense de gema, estuda gestão no ISCTE-IUL. Tem como hobbie a escrita e como paixão o futebol!

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