Euro Sub-21: A esperança romena, duas décadas depois

A seleção romena é uma das sensações do Europeu Sub-21 realizado na Itália. Os tricolori têm causado impacto na comunicação social do país transilvânico, e o primeiro lugar no grupo partilhado com a França, Inglaterra e Croácia alertou a imprensa internacional para este talentoso underdog. Antes de morder os calcanhares aos grandes, já na fase de qualificação os romenos tinham surpreendido – foram imbatíveis e sofreram apenas quatro golos em oito jogos, no grupo de Portugal. Na génese deste sucesso estão duas gerações do apelido mais marcante do futebol romeno: Hagi.

Bons jogadores sem bons líderes dificilmente formam boas equipas. Mirel Radoi é um treinador com uma seleção à sua imagem: jovem e irreverente. Aos 38 anos, é o treinador mais jovem de sempre a chegar às meias-finais do europeu sub-21, e com nove anos de diferença. Leva apenas nove jogos ao comando da seleção, depois de ter sido diretor técnico dos sub-21. Em 2015 orientou o Steua Bucareste por 29 jogos, quando tinha apenas 34 anos. De resto, foi um emblemático trinco do clube da capital romena.

As camisolas amarelas são berrantes. Se já é difícil não dar conta de um jogador romeno normalmente, nesta equipa é impossível: os comandados de Radoi percorrem todo o campo de forma eletrizante, com bola e sem bola. É uma equipa claramente virada para o ataque, desde já no momento defensivo: um bloco muito alto, com uma pressão altíssima no portador da bola e boas coberturas. Variando entre o 4-4-2 e o 4-2-3-1, a formação tática de Radoi torna-se quase impercetível dada a preocupação dos romenos na marcação cerrada de cada oponente. Vimos, no entanto, um recuo considerável da equipa na segunda parte contra a França, num 4-4-2 mais marcado, de modo a segurar o primeiro lugar no grupo.

No ataque, existe muita mobilidade por parte de Hagi, Coman, Puscas ou Man. Puscas é o homem mais fixo enquanto os restantes são espíritos livres. É comum também chegada rápida dos médios interiores como Cicaldau. De forma vertical e simples, os romenos procuram balançar as redes adversárias, sempre com muitos homens no ataque.

Esperança nacional, passados 20 anos

Se estes jovens entusiasmam estrangeiros, imagine-se os adeptos romenos, sedentos de maiores feitos futebolísticos desde a Taça dos Campeões Europeus ganha pelo Steua Bucareste em 1986, e a final perdida de 1989. Liderados por Gheorghe Hagi, os anos 90′ foram os de maior sucesso para a seleção romena, atingindo os quartos-de-final do Mundial 94′, os dezasseis-avos do Mundial 98′, e os quartos-de-final do Euro 00′. Desde aí, este país de 20 milhões de habitantes tem tido participações intermitentes em fases finais de torneios, ficando-se sempre pelas fases de grupos.  Também no capítulo socioeconómico é o país menos abonado da competição (3º pior PIB per capita da União Europeia) numa altura em que o governo socialista romeno vai ganhando outra vez contornos populistas.

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A atual seleção de esperanças romena é um dos maiores motivos de orgulho nacional em vinte anos, e isso vê-se na afluência aos estádios italianos. Em Cesena, as bancadas estavam pintadas de amarelo quando se esperava uma maior afluência de adeptos franceses, vizinhos da Itália. Mas este apoio tem sido recorrente e o próprio Mirel Radoi disse depois do apito final que neste europeu “independemente do resultado, parece que há um estádio inteiro a apoiar-nos“. Curiosamente, se medíssemos o tempo dispensado nos cânticos, ouve-se quase tanto o nome de um só jogador quanto o do país, e será fácil adivinhar quem é o herói precoce: Ianis Hagi, filho do melhor futebolista romeno de sempre, Gheorghe Hagi.

Duas gerações de Hagi’s com a camisola 10

É apenas a segunda vez que os jovens romenos têm uma oportunidade de disputar este prestigiado torneio, 21 anos depois. Nessa altura, despontava Cosmin Contra, atual treinador da seleção AA. Imbatíveis na qualificação, os romenos foram a equipa com menos golos sofridos (quatro em oito partidas), criando expetativa no seu país. No Grupo C foram peremptórios e bateram os ingleses por 4-2 e croatas por 4-1. O empate a zeros na última jornada serviu tanto a romenos como a franceses.

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Para além do papel preponderante enquanto futebolista (e pai), o cunho de Hagi está marcado nesta seleção também como treinador. Onze dos 23 selecionados passaram pelo Viitorul Constanta, clube fundado e treinado pelo visionário ex-futebolista. Segundo Hagi, o seu propósito atual é o de “ajudar os outros a alcançar os seus sonhos, no futebol e na vida“. Para isso, criou o Viitorul em 2009, clube que em oito anos tornou-se o campeão nacional com a menor média de idades da Europa (23,4), em 2017. Este clube foi inspirado nas academias holandesas, tendo Cruyff como referência. “Futuro”, é isso que Viitorul quer dizer em romeno.

Segue-se a Alemanha nas meias-finais do Euro, campeões em título e talvez a seleção mais forte em prova. E no verão de 2020, os romenos têm lugar garantido nos Jogos Olímpicos de Tóquio. Onde quer que chegue esta seleção no Europeu Sub-21, os romenos têm uma garantia de futuro. Além das figuras principais desta equipa, outros atletas como Dennis Man, Razman Marin, Baluta, Rotariu são tidos como de grande potencial. E se nos próximos anos virmos Radoi ou Hagi a orientar a seleção AA romena, e assim colher os frutos deste apurado trabalho de formação, não será motivo de admiração.

Cinco figuras

Ionut Radu

Guarda-redes e capitão da seleção, é um dos guardiões mais fiáveis em competição. Atua em Itália desde 2013, altura em que o Inter de Milão o recrutou. Depois de seis anos de ligação aos neroazzuri e vários empréstimos, fixou-se no Génova na época passada e por oito de milhões de euros fará definitivamente parte dos quadros do clube em 19/20.

Cristian Manea

Internacional AA aos 16 anos, esteve a um passo do Chelsea em 2014. Aos 21 anos, o atleta do Cluj tem mais de 120 jogos no currículo. Veloz, resistente, e competente a atacar mas sobretudo a defender. Precisa ainda de controlar alguns ímpetos de agressividade.

Florinel Coman

Muito rápido, habilidoso com a bola e pressionante sem a redondinha. Adequa-se perfeitamente à ideia do treinador, pelo índice de trabalho elevado e a rapidez com que executa. O atleta do Steua Bucareste tem 21 anos e já foi campeão romeno, tendo despontado no Viitorul. Marcou dois golos em cinco minutos contra a Inglaterra.

George Puscas

Ponta-de-lança alto (1,87m), muito móvel e trabalhador. Está sempre à procura de dar linhas de passes, e com isso servir de referência. Marcou sete golos na fase qualificação, mas para além dos dotes de finalizador, é um avançado que apoia muito bem os colegas. Ex-Inter de Milão, é titular no Palermo, da Serie B, e um goleador de serviço na seleção AA.

Ianis Hagi

O nome é meio caminho andado, o talento preenche o resto. Aos 20 anos tem o seu nome cantado em todos os jogos da seleção sub-21, e também pelos adeptos do Vittorul, visto ser capitão de equipa. Ambidestro, é um prodígio do drible e da condução do esférico. Alia isso a uma grande velocidade e entrega ao jogo. Camisola 10 e um típico ídolo das multidões.

 

David Silva

Contar a minha história é falar de futebol. Primeiro, a paixão. Depois, a prática. Em seguida, uma deslocação de 71km entre a Lourinhã e a NOVA/FCSH, onde concluí o curso de Ciências da Comunicação, em 2019. Pelo meio, nove meses de estágio memoráveis no Canal 11, na Cidade do Futebol. E por fim, a paixão. Sempre.

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