Copa América 2019: Análise à fase de grupos

Os oito quarto-finalistas da Copa América estão definidos, sem grandes surpresas positivas ou negativas. Numa competição que se inicia com apenas doze participantes, dois deles da confederação asiática, o instinto diz que o mais difícil seria ficar pela fase de grupos. Será mesmo assim? Apenas uma seleção ganhou os três encontros da fase de grupos – a Colômbia, de Carlos Queiroz – e no sentido contrário, apenas a Bolívia, a seleção menos valiosa da competição, perdeu todos os jogos. Pelo meio assistimos ao apuramento dos crónicos candidatos (Brasil e Argentina, o primeiro de forma mais convincente que o segundo) e uma verdadeira luta pelos segundos e terceiros lugares.

Grupo A

Pode dizer-se que a classificação do Grupo A não deu grande prejuízo às casas de apostas, com o Brasil em primeiro lugar, Venezuela em segundo, Peru em terceiro e finalmente a Bolívia na quarta posição. O que estava verdadeiramente em causa neste grupo eram as duas posições intermédias, que bastaram para seguir à fase seguinte – com quatro pontos, o Perú foi o melhor terceiro classificado.

O Brasil iniciou a sua caminhada caseira com uma vitória incontestada frente à Bolívia, por 3-0, num jogo em que Coutinho destacou-se com dois golos.  De seguida, obteve um ingrato empate a zero com a Venezuela, uma seleção que promete, mas nesse jogo fez um quarto dos remates do Brasil e teve 31% posse de bola. O VAR teve igualmente muito trabalho, anulando (bem) dois golos do Brasil. Mesmo com o apuramento eminente, o Brasil cilindrou o Perú por 5-0 na última jornada, depois dos peruanos terem empatado com a Venezuela (0-0) e ganho à Bolívia (3-1).

A Venezuela foi a surpresa positiva do grupo A, visto não ter perdido qualquer encontro. Dois nulos comprovam de certa forma a consistência defensiva da equipa de Rafael Dudamel, até porque contra o Perú ficou reduzida a dez unidades, aos 75′. Os vinotinto seguem uma série de sete encontros oficiais sem perder, com um empate a uma bola contra a Argentina na qualificação para a Copa América. Agora reencontrar-se-ão nos quartos-de-final. Tostão satiriza na Folha de São Paulo, questionando: “Quem diria que não há favorito entre Venezuela e Argentina?”. Pode ser o coroar de uma geração vice-campeã mundial na categoria sub-20, em 2017, e a redenção de um país em conflito.

Grupo B

O segundo grupo em competição era mais duvidoso e acabou por ter uma configuração que pode parecer estranha à partida. A Colômbia arrecadou nove pontos, a Argentina quatro, Paraguai dois e Catar apenas um. A história e o plantel davam o favoritismo à Argentina neste grupo, mas é sabido que há muito tempo que a albiceleste não convence nem dentro nem fora de portas, talvez desde o Mundial 2014. Desde aí, disputou três competições internacionais e sucumbiu em duas finais da Copa América, contra o Chile de Sampaoli. A AFA decidiu então contratar o pequeno técnico argentino mas as suas ideias não resultaram, com uma eliminação precoce no Mundial 18′. Scaloni também não tem convencido.

Porém, a Argentina melhorou ligeiramente ao longo da fase de grupos. As más línguas dirão que é por causa da dificuldade decrescente dos adversários. Talvez. O que é certo é que a Colômbia venceu e convenceu na primeira jornada do Grupo B, com uma vitória por 2-0, com golos de Roger Martínez e Duvan Zapata, vergando a Argentina. Em seguida, um empate (1-1) frente ao modesto Paraguai, com menos remates mas mais posse de bola. O empate foi conseguido numa grande penalidade convertida por Messi. Finalmente, restava a seleção do Catar, campeã asiática em fevereiro, e aí a exibição argentina foi positiva, com uma vitória por 2-0. Mas a assimetria qualitativa entre o setor atacante e defensivo continua a ser um problema, e a falta de jogo interior também. Cabe a Messi galvanizar a equipa.

A Colômbia é, sem sombra de dúvidas, a sensação do torneio. Pelos números, e pela qualidade exibicional, que não é exuberante mas é muito competente e consciente dos seus pontos fortes e fracos. É isso que tem caracterizado as seleções de Carlos Queiroz, treinador cauteloso que levou o Irão aonde nunca tinha chegado. Agora que o português tem melhores jogadores à disposição, a Colômbia tem surpreendido e é considerada favorita a chegar à final do Maracanã. Depois da já referida vitória sobre a Argentina, a Colômbia sofreu para ultrapassar o Catar mas lá conseguiu com outro golo de Duvan Zapata. Vitória justa, apuramente garantido, e mais uma vitória sofrida sobre o Paraguai, mas desta vez com alguns jogadores menos utilizados. James Rodríguez tem sido a referência e tem-se mostrado aos tubarões europeus, que já sabem da incontinuidade do colombiano no Bayern.

O Paraguai apurou-se para a fase seguinte mediante dois empates, frente a Argentina e Catar. A seleção de Óscar Cardozo teve uma fase de grupos positiva, ficando a lamentar apenas o empate inaugural contra o Catar a duas bolas. Esteve a ganhar à Argentina, fazendo mais remates, e sofrendo apenas de penalti. Já com a Colômbia, perdeu pela primeira vez mas pela margem mínima. Resta o Catar, seleção convidada e organizadora do Mundial 2022. Deu sinais de uma equipa bem organizada, trabalho do espanhol Félix Sánchez, que levou o Catar ao primeiro título de campeão asiático em 2019. Um bom estágio pré-mundial.

Grupo C

Neste grupo as assimetrias notaram-se claramente, com Uruguai e Chile com sete e seis pontos, respetivamente, sendo as únicas seleções do grupo a seguir em frente. O Japão, com dois pontos e uma diferença de golos de -4, foi o pior terceiro classificado da fase de grupos e atravessará o Pacífico mais cedo. Já o Equador foi talvez a maior deceção da competição.

O Uruguai é uma das três seleções mais capazes de levantar o “caneco”, em tudo similar à equipa que eliminou Portugal no Mundial da Rússia, nos oitavos-de-final. Na Copa América começaram por cilindrar o Equador por 4-0, que ficou reduzido a dez elementos aos 25′. Na segunda jornada concederam um ponto ao Japão, empatando 2-2. Tiveram que correr atrás do resultado por duas vezes, mas Cavani e Giménez resolveram. A cereja no topo do bolo foi uma vitória por 1-0 sobre o Chile, um encontro digo de final, que acabou com mais um tento de Cavani. Nesta fase descendente de Suárez, é o avançado do PSG que tem sido a figura dos charrua.

O Chile, segundo classificado, fez quase tudo bem. Bateu o Japão categoricamente por 4-0, depois venceu o Equador por 2-1. A equipa de Reinaldo Rueda experimentou uma tática com três defesas-centrais frente ao Uruguai, na última jornada, lembrando a formação usada por Sampaoli no Chile. Tiveram mais posse que a equipa de Tabárez, mas acabaram por perder 1-0. Eduardo Vargas e Alexis Sánchez partilham o mesmo número de golos, dois, e têm sido preponderantes no percurso do bicampeão americano. Esta é talvez a última Copa América da “geração de ouro” chilena, com elementos como Aranguiz, Vidal, Isla, Medel e Beausejour na casa dos trinta.

O Japão é uma seleção baseada em elementos criativos como Nakajima, Shibasaki ou Kubo mas acabou por faltar um maior desejo de vencer a competição, que não é do seu continente. Começaram da pior maneira a fase de grupos, goleados pelo Uruguai. Em seguida, arrancaram um empate frente ao poderoso Uruguai, mas outro empate frente ao Equador, num jogo eletrizante, determinou má sorte ao Japão… e ao Equador, pois quem ganhasse passava à próxima fase. O polémico técnico do Equador, Hernán Gomez, tornou António Valencia suplente e mandou Renato Ibarra embora da comitiva pois duvidou que o trinco estivesse lesionado. Depois da eliminação, Hernán já disse ele que não é “o problema” da seleção equatoriana.

Os quartos-de-final

Amanhã começam os quartos-de-final, com um embate entusiasmante no Maracanã entre Venezuela e Argentina – uma seleção com à vontade para defender, e outra com dificuldades em atacar – e o Brasil vs Paraguai, com um claro favorito à vitória. A jornada de sábado tem início marcado no Arena Fonte Nova, Uruguai face ao Peru, com Tabárez a espreitar as meias-finais. O duelo mais interessante é o último – Colômbia contra Chile, uma final antecipada entre duas das mais fortes seleções em prova. A sensação contra o bicampeão. Chega a ser ingrato mandar uma destas seleções embora.

 

 

David Silva

Contar a minha história é falar de futebol. Primeiro, a paixão. Depois, a prática. Em seguida, uma deslocação de 71km entre a Lourinhã e a NOVA/FCSH, onde concluí o curso de Ciências da Comunicação, em 2019. Pelo meio, nove meses de estágio memoráveis no Canal 11, na Cidade do Futebol. E por fim, a paixão. Sempre.

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