Uma final nada estranha ao Maracanã

Brasil e Peru defrontam-se este domingo na final da Copa América. Um encontro pouco esperado, não pelo lado do Brasil que desde cedo assumiu o favoritismo, ainda maior jogando em casa. Mas poucos previam que no meio de seleções como a Argentina, a Colombia, o Chile e o Uruguai, fosse o Peru a ocupar o tão desejado lugar. Os comandados de Careca estão a um triunfo de repetir o feito de 1939 e 1975 em que se sagraram campeões da competição. Os cariocas, por sua vez, somam um total de oito títulos, sendo que venceu todas as que decorreram no próprio país. A teoria diz-nos que só há um vencedor possível, mas a prática foi exatamente o que levou os peruanos à final, após terem eliminado o Uruguai e o Chile. De acordo com um index da ESPN, o Brasil tem cerca de 95% de chance de levantar o troféu e o Perú apenas 5%. É caso para dizer que se fossem jogadas 100 finais, o Brasil sairia vitorioso 95 vezes. Mas quem sabe se o desfecho da final de domingo não será um dos cinco jogos que o Peru venceria.

Deixemo-nos de probabilidades. O percurso das duas equipas tem sido distinto. Curiosamente ficaram no mesmo grupo, com o Brasil a sair em primeiro e o Peru a integrar-se no grupo dos melhores terceiros classificados. O jogo entre ambos não é certamente um bom indicativo para os peruanos. A partida da última jornada da fase de grupos terminou com uma goleada por 5-0 da equipa da casa, num jogo de sentido único e que deu para tudo. A seleção de Tite despontou para a fase eliminar, mas desiludiu nos quartos, só ultrapassando o Paraguai nas grandes penalidades. O Peru seguiu o mesmo caminho e eliminou com grande surpresa o Uruguai também nos penaltis. Começava aqui a surpresa. Surpresa essa que foi apanágio da época que passou, nomeadamente na Liga dos Campeões, em que grande parte das vezes David venceu Golias. O futebol sul-americano não quis ficar de fora. Chegaram as meias e, para algumas pessoas, a final já estava escrita. O Brasil fez a sua parte no Mineirão e venceu uma Argentina pobre tecnicamente, mas forte na raça. O 2-0 embarrou na falta de sorte e discernimento alviceleste e foi um perfeito espelho da eficácia e pragmatismo da canarinha. Na outra meia-final, La Blanquirroja tramou os que já se preparavam para uma final Brasil x Chile. Foi a vez do Peru “cozinhar” e com grande tempero despachou o bicampeão Chile por uns meritórios 3-0. A enorme primeira parte da equipa de Ricardo Careca foi decisiva para levar a melhor frente a um Chile desinspirado e desesperado.

Os últimos onzes

De uma lado uma equipa milionária, do outro uma guerrera, à imagem do seu capitão. Os pontos fortes do Brasil já não são grande novidade. Ao primeiro olhar, ficamos maravilhados com a frente ofensiva carioca que, de facto, é de imensa qualidade. Porém, é na defesa que a seleção de Tite parece fazer a diferença. Isto porque ainda não sofreu qualquer golo na atual edição da Copa América. Aliás, desde que o atual selecionador chegou à canarinha que o Brasil sofre muito pouco, dez golos em cerca de 40 jogos. O motor está no meio-campo. Casemiro é o “carregador de piano”, Arthur é determinante na transição ofensiva através do passe e Coutinho é Coutinho.

No Peru a história é outra. São só 930 milhões de diferenças. Mas no futebol, como na vida, há outros valores mais importantes. O trajeto de Ricardo Careca, selecionador argentino, não é indiferente. Em 2015, levou a seleção ao terceiro posto na Copa América, ficando no ano seguinte pelos quartos-de-final. Em 2018, qualificou o Peru para o Mundial, 36 anos depois, e agora volta a realizar novo feito. O Peru apoia muito o seu jogo nas alas, constituídas por autênticas flechas, Flores e o bem conhecido Carrillo. Na frente, tem o matador e líder Guerrero, o jogador tal e qual como o vinho. O grande problema está na defesa. A equipa peruana permite muitas oportunidades aos seus adversários: 15 frente ao Uruguai e 18 frente ao Chile. Um Brasil eficaz não terá grande dificuldade para colocar a bola na baliza. Isto se não enfrentar um super Gallese, enorme na vitória frente ao Chile. É de resto um jogador que cresceu imenso na competição depois do erro infantil precisamente contra o Brasil.

O mítico Maracanã aguarda. Arena essa que já foi palco de três confrontos entre estes dois países. Os três caíram para o lado dos cariocas. Em toda a história, Brasil e Peru enfrentaram-se 44 vezes, 31 vitórias brasileiras, nove empates e apenas quatro vitórias para os peruanos. Uma delas bastante caricata em 1975 e que acabou por dar o título à suposta melhor geração da seleção. Depois da meia-final ter ficada empatada no conjunto das duas mãos, o regulamento apontava para a realização de um sorteio para decidir o vencedor e assim o foi.

Brasil e Peru defrontam-se este domingo, dia 7, às 21:00.

Ricardo Oliveira

Oriundo da mesma terra do melhor jogador do mundo, a paixão pelo futebol não podia ser maior. Licenciado em Ciências da Comunicação na FCSH, gosta de escrever e está sempre de braços abertos a novos projetos.

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