A era da hegemonia do City?

A saída de Alex Fergunson do Manchester United teve um impacto inédito na história do clube, mas não só. Longe no passado ficaram as épocas consecutivas de troféus destinados a um único clube e o domínio do futebol inglês, abrindo-se uma nova era na Premier League, de rotatividade entre os campeões e de novas figuras a erguerem o troféu, como o incrível Leicester City de Ranieri em 2016.

Contudo, no outro lado de Manchester, contornos de uma hegemonia começam a formar-se de novo no campeonato inglês. A era Guardiola começou de forma medíocre, nenhum troféu, uma saída precoce na Liga dos Campeões (eliminados nos dezasseis-avos de final pelo Mónaco) e um razoável terceiro lugar na Premier League.

Gradualmente, o treinador espanhol foi “filtrando” a sua equipa, retirando jogadores mais envelhecidos, ou que simplesmente não se encaixavam na sua filosofia de jogo, substituindo-os com caras novas. Estas contratações eram indispensáveis para Guardiola, pois o seu perfil tático era muito exigente dos seus atletas em todos os planos de jogo – fisíco, técnico, mas especialmente, mental.

Encontrar jogadores de qualidade, normalmente até com margem de progressão ou a entrar no seu pico neste mercado atual é muito dispendioso. Felizmente para os citizens, dinheiro não é um problema. Em 2008 o clube foi comprado pelo Sheik Mansour, garantindo fundos que não qualificaria como ilimitados, mas pouco faltará.

Assim, Guardiola pede, e o clube compra. Os números falam por si próprios – desde a chegada do treinador, o City gastou aproximadamente 650 milhões em transferências. Alguns dos casos mais notáveis são os de Rodri, 70 milhões, Riyad Mahrez, 68 milhões, Aymeric Laporte, 65 milhões, Benjamin Mendy, 58 milhões e Bernardo Silva, 50 milhões. Podem parecer valores excessivos, absurdos até… mas considerando o sucesso recente do clube e a dificuldade que é contratar jogadores de forma tão cirúrgica ao nível mais alto do futebol, talvez fosse um custo necessário e um investimento inteligente.

De facto tem sido caro sustentar um plantel aos desejos de Guardiola, mas eis o produto de satisfazer o técnico espanhol: duas Supertaças de Inglaterra, uma Taça, duas Taças da Liga, dois campeonatos (consecutivos, algo que já não acontecia desde 2008). Na época 2017/2018, o City bateu vários recordes na liga, um deles o recorde de pontos, conquistando o troféu com uns incríveis 100 pontos.

Domesticamente, têm sido épocas de excelência para o conjunto de Manchester. A filosofia radical de Guardiola baseada na posse, circulação constante e responsabilidade posicional tem sucedido de forma incrível no prisma de um campeonato quase antagónico desta forma de jogar, sendo reconhecido pelas suas raízes de fisicalidade e jogo direto. Está neste contraste a magia das vitórias desta equipa.

Frequentemente, as equipas inglesas apostam em esquemas de imposição física no meio campo, defesas de bloco baixo e velocidade no ataque, procurando expor fragilidades na defesa contrária, principalmente no contra ataque. Não é tão linear como isto, mas há sempre alguns contornos semelhantes na maioria dos clubes, especialmente no que toca à forma como defendem.

Ora, este Manchester City traz algo diferente para o jogo, ignorando a estatura dos seus médios ou a estampa física dos seus avançados, utilizando jogadores com toque de bola acima da média, com entendimento comum e capacidade de passe. Geralmente, a formação de eleição de Guardiola é o 4-3-3, com bastante liberdade dada aos dois médios mais ofensivos no trio de meio campo, e outro a posicionar-se como um pêndulo recuado, responsável pela pressão rápida na saída de bola contrária e fornecimento de linhas de passe aos seus colegas mais próximos. Acrescentando uma linha de ataque dinâmica, normalmente um ponta de lança prolífico e dois extremos com liberdade de movimentos, que procuram ou a profundidade (mais o caso de Sterling ou Sané) ou o espaço entre linhas (Mahrez e Bernardo Silva, se bem que o argelino faz um pouco de ambas).

Para além da forma como o City ataca, possuem uma natureza de pressão alta e incessante, motivada pelo desejo de ter a bola o máximo tempo possível. Equipas com menor capacidade técnica e pouca riqueza tática, são expostas pela acutilância do ataque do conjunto citizen, sem hipóteses de resistirem.

Nos confrontos com os grandes, não há uma “narrativa” fixa, como nunca há nos grandes jogos. No entanto, observo o seguinte, as equipas que tentam impor o seu próprio estilo de jogo perante o conjunto de Guardiola costumam fracassar, pelo simples facto de que nenhum treinador com ideias de jogo tão bem definidas nos últimos anos da Premier League conseguiu consolidá-las da mesma forma que o técnico espanhol. Contrastando com estes episódios, surgem as equipas que se adaptam ao estilo de Guardiola e procuram neutralizá-lo, em vez de superiorizá-lo. Mourinho conseguiu-o, Conte também, e de certa forma, mais pela natureza antagónica que o seu estilo de jogo possui em comparação ao de Guardiola, também Klopp. Como referi, não há aqui fórmulas fixas nem leis constantes, apenas tendências, pois cada jogo é um jogo.

Alguns dos protagonistas deste sucesso recente já presentes no plantel antes da chegada do treinador são: Agüero, De Bruyne, David Silva, Sterling e Fernandinho. Atletas revigorados ao serviço do técnico espanhol, com alguns dos seus melhores anos de carreira ao seu serviço. As contratações estratégicas de jogadores como Kyle Walker, Bernardo Silva, Aymeric Laporte, garantem qualidade e opções certas no onze inicial. Outras como John Stones, Leroy Sané e Gabriel Jesus, são apostas com menor certeza sobre a sua qualidade no momento da contratação, no entanto, a margem de progressão destes atletas é assustadora, sendo já evidente a sua evolução. Para não falar do caso de Phil Foden, dos poucos jogadores formados no clube com espaço no plantel principal, mas com muita confiança por parte do treinador, considerando-o o jogador mais talentoso com quem já trabalhou.

Evidentemente, os jogadores que chegam ao City têm sempre um propósito, independentemente do seu preço, sendo frequentemente rentabilizados de melhor forma possível.

Basta olharmos para o mercado atual como prova da perspicácia nas contratações feitas pelo clube. A chegada de Rodri é, no momento de escrita, a maior contratação da temporada, 70 milhões. Tem feito a pré-temporada a titular no lugar de pivô de meio campo, o médio defensivo que Guardiola necessita entre os criativos da frente e a linha defensiva. O valor pode parecer alarmante, mas considerando a importância da posição em causa e a idade do seu antigo dono, Fernandinho, já com 34 anos, talvez não seja um abuso o que o clube gastou no médio espanhol. Olhando para a sua rápida progressão, foi transferido na época anterior para o Atlético de Madrid e conquistou rapidamente um lugar no onze inicial de Simeone. Pela sua jovem idade, 23 anos, é provável que o City tenha aqui uma opção de classe mundial durante os próximos anos… pelo menos nos jogos que fez até agora é isso que dá a entender.

Outro caso de análise interessante é o de João Cancelo. O clube de Manchester tem feito avanços significativos nas negociações com a Juventus, de acordo com as informações da imprensa, procurando contratar o lateral português. Assim, o City preenche uma posição importante com um atleta que dê garantias durante várias temporadas, concorrendo com o atual titular do clube, Kyle Walker (29 anos), que deve encerrar o seu pico de carreira nos próximos anos. Verifica-se assim a continuação de negócios ponderados pela parte do clube, especialmente considerando que esta compra de Cancelo custaria apenas 30 milhões, mais o passe de Danilo, sendo novamente a fonte destes valores a especulação mediática. Negócio que a confirmar-se seria excelente para os citizens.

Manter um plantel deste nível não é fácil mas o Manchester City tem tomado as decisões corretas para assegurar a sua estabilidade a nível nacional e procurar algo mais nas competições europeias. Tem sido complicado chegar às fases finais destas competições, o máximo na era Guardiola são os quartos de final, sendo claramente obrigatório chegar mais longe com o nível de investimento do clube no seu plantel. É muito complicado gerir três competições domésticas e uma europeia, com exigências elevadas em todas, mas o City tem que fazer melhor. Falta de qualidade não é o problema, mas o mesmo não se pode dizer do treinador, sendo frequentemente acusado de não conseguir preparar a sua equipa para confrontos europeus, revelando-se assim o ponto fraco da gestão de Guardiola. Falta a tal adaptabilidade às circunstâncias do jogo, o espírito combativo e pragmático para ultrapassar as melhores equipas da Europa num conjunto de duas mãos. A ideologia tem limites, mas será um homem moldado pela sua visão utópica do jogo capaz de abdicar disso mesmo? Para triunfar novamente na maior competição de clubes, terá que o fazer.

Fica assim a imagem de um clube cada vez mais consolidado no topo do futebol inglês, com o tipo de gestão correta para continuar assim durante anos, sendo a palavra hegemonia adequada à situação do City. Porém, o futebol não acaba nas fronteiras de um país, e o sucesso internacional é a maior prova da relevância e do tamanho de um clube. Enquanto o Manchester City não demonstrar a sua força entre os outros tubarões europeus, Inglaterra continuará a ser o tamanho do seu reino, por mais absoluto que este seja.

José Horta

Não nasci a gostar de futebol, mas quando comecei nunca mais quis outra coisa. Algarvio de nascença mas adepto do futebol para além daquele que se joga na praia. Sempre atento aos contornos e novidades do "Desporto Rei", "Beautiful Game" ou lhe quiserem chamar. Aluno universitário de Ciências da Comunicação na FCSH.

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