Real Madrid 2-6 Barcelona: a afirmação de uma das melhores equipas da história

No dia 2 de maio de 2009, poucos dos 80000 adeptos presentes no Santiago Bernabéu imaginariam que estavam a assistir ao jogo que viria a confirmar o Barça de Guardiola como uma das melhores equipas de todos os tempos.

É importante recuar até ao início da época 2008/09, para se entender o contexto em que se jogava um dos mais marcantes Clásicos deste século: o Real Madrid era bi-campeão e dominador no contexto nacional e o Barcelona procurava recuperar a hegemonia do futebol espanhol. Para isso, o clube assumiu uma aposta de risco: promoveu Pep Guardiola, então treinador da equipa B, a técnico principal. O treinador catalão, na altura com 37 anos, não teve um arranque fácil no campeonato, com um empate e uma derrota nas duas primeiras jornadas. Chegou a existir alguma contestação, mas o Barcelona “entrou nos eixos” e revelou-se uma equipa dominadora e com melhorias em relação às equipas anteriores de Frank Rijkaard.

Já o clube da capital viveu também uma época conturbada, chegando a trocar de treinador em dezembro, com Juande Ramos a substituir o alemão Bernd Schuster. A nível interno a equipa melhorou os resultados com esta troca e chegou a este jogo depois de uma série de 18 jogos sem perder, com apenas um empate. A última derrota dos merengues para o campeonato havia sido, curiosamente, em Camp Nou, em dezembro, jogo em que Eto’o e Messi marcaram os golos do Barcelona.

Apesar de uma época sólida até então, Guardiola deslocava-se a Madrid pressionado, depois de ter empatado frente ao Valência na jornada anterior. Perdendo o jogo, o Barça manteria a liderança do campeonato, mas passaria (em dois jogos) de seis para apenas um ponto de vantagem sobre o Real, faltando quatro jornadas para o fim do campeonato.

Perante todo este cenário, é fácil entender que este jogo definiria muito do que seria a época para as duas equipas, sobretudo para o Real Madrid, que perdendo ficaria praticamente afastado da luta pelo título.

 

O jogo

 

E foi assim que se iniciou o tão esperado duelo, naquela tarde de sol em Madrid. A equipa da casa fez alinhar, num 4-4-2: Casillas; Ramos; Cannavaro; Metzelder; Heinze; Diarra; Gago; Robben; Marcelo; Raúl e Higuaín. Já Guardiola apostou na sua formação habitual naquela época, jogando em 4-3-3: Valdés; Alves; Piqué; Puyol; Abidal; Touré; Xavi; Iniesta; Messi; Henry; Eto’o.

 

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Os primeiros minutos do El Clásico foram de grande intensidade, com Xavi a assustar Casillas ainda nos primeiros segundos da partida. Desde cedo o Barcelona dominou o jogo a meio do terreno onde apresentava sempre situações de superioridade numérica. Ainda assim, foi o Real a inaugurar o marcador aos 14’ por Higuaín, que cabeceou sozinho depois de um cruzamento de Sergio Ramos.

Este golo não afetou a equipa catalã que continuou a ditar o ritmo do jogo, pacientemente, esperando pelo momento certo para explorar os a largura oferecida pelo seu trio atacante. Foi assim que, pouco mais de um minuto depois do golo sofrido, Henry se libertou de Ramos e cruzou com perigo para Eto’o, que chegou atrasado por centímetros. Estava dado o aviso.

Foi mesmo o francês que aos 18’ assinou o empate, depois de fugir nas costas de Sergio Ramos e receber um passe milimétrico de Messi a rasgar a defesa blanca. Henry finalizou com classe, desviando a bola de Casillas. Pouco mais de um minuto depois da igualdade, foi novamente Thierry Henry que assumiu protagonismo. Aproveitando uma subida de Sergio Ramos e o seu consequente desposicionamento, o francês bateu o seu compatriota Lass Diarra, tendo sido travado em falta à entrada da área por Cannavaro. Livre para Xavi, que colocou a bola ao segundo poste, onde Puyol, de cabeça, devolveu a liderança ao Barcelona.

Aos 20’, o Barcelona já tinha dado a volta ao jogo, 6 minutos depois de ter sofrido o primeiro golo. Apesar de duas boas oportunidades do Real imediatamente a seguir ao golo de Puyol, estava iniciada a demonstração da superioridade blaugrana. Sempre que o Barça conseguia superar a primeira linha de pressão do Real, rapidamente conseguia colocar a bola num dos três da frente e criar situações de superioridade numérica no último terço. Messi quase fez o 1-3, aos 24’ e Eto’o aos 27’ obrigou Casillas a uma defesa apertada.

Nesta fase o Barça jogava como queria, instalado no meio-campo do Real e com uma impressionante capacidade de pressão. A equipa da casa estava a ser completamente “abafada” e pouco podia fazer. Aos 30’, se o resultado fosse 2-4 não seria surpreendente, tendo em conta o número de oportunidades. O jogo associativo de Xavi, Iniesta e Messi desfazia a defesa do Real e se não fosse Casillas o resultado seria bem mais volumoso nesta altura.

 

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Aos 36’, é Lass Diarra a perder uma bola para Xavi na sequência de um pontapé de baliza, deixando Messi na cara do golo para ampliar o marcador. 1-3. O cenário estava muito negro para o Real. Nos minutos que se seguiram, os comandados de Pep ficaram ainda mais confiantes, chegando a controlar a posse de bola em vários períodos durante mais de 30 segundos seguidos.

A juntar a isto, o Real ia perdendo frescura física com o passar dos minutos e a chegar ao intervalo, a capacidade de pressão dos merengues era quase inexistente. Diarra e Gago estavam constantemente expostos perante os triângulos da equipa do Barça e, com cada vez mais espaço para sair a jogar, os homens de Guardiola ficavam ainda mais confortáveis.

Perto dos 40’, dizia o comentador da televisão espanhola “O Barça está não só a dominar, como a dar um verdadeiro banho!”. Antes do intervalo, Casillas ainda teve de salvar mais uma vez o Real, desta vez defendendo um livre frontal de Dani Alves. O guardião espanhol levava 6 defesas decisivas ao intervalo! Foi desta forma que chegou o tempo de descanso: um verdadeiro banho de bola e a sensação de que o Barça, com um pouco mais de eficácia, já podia ter feito 5 golos ou mais, só nos primeiros 45 minutos!

O segundo tempo começou como acabou o primeiro: Iniesta a rematar de fora de área, com a bola a passar muito perto do poste, depois de quase 50 segundos ininterruptos de circulação blaugrana, com a bola a passar por todos os jogadores de campo.

Contra a corrente do jogo, e depois de mais uma jogada impressionante de Messi, Sergio Ramos, devolveu alguma réstia de esperança aos madridistas aos 56’, quando fez o 3-2 de cabeça, depois de um livre de Robben. No entanto, e mantendo mais uma tendência da primeira parte, o Barça voltou a marcar logo a seguir a sofrer, mais uma vez com Henry a explorar o (muito) espaço nas costas de Sergio Ramos e a aproveitar uma saída falhada de Casillas para fazer o 2-4. Desta vez coube ao intratável Xavi Hernández somar mais uma assistência soberba.

Depois deste golo, Juande Ramos tirou Marcelo e colocou em campo Huntelaar, mas os problemas continuavam a residir no meio-campo e o técnico espanhol nunca foi capaz de fazer nada para os contrariar. Aos 60’ foi a vez de Guardiola mexer na equipa, tirando Henry (que exibição monstruosa!) para colocar o médio Seydou Keita, passando Iniesta a jogar aberto na esquerda.

Estas alterações não só não favoreceram o Real, como acentuaram a capacidade do Barcelona de dominar o meio-campo, sendo que a partir dos 65’ a equipa do Real se partiu definitivamente e o Barça foi capaz de simplesmente gerir o resultado e trocar a bola sempre no seu meio-campo ofensivo. Aos 71’, Juande Ramos tirou Sergio Ramos e colocou o holandês Van der Vaart, recuando Lass Diarra para defesa direito. No entanto, era já demasiado tarde para quaisquer melhorias para o Real.

Aos 75’, Messi ampliou para 2-5 depois de mais uma assistência magistral de Xavi. Antes ficou ainda um penalty por assinalar de Lass Diarra sobre Iniesta. A humilhação já não estava só na relva, mas agora também se refletia no marcador. Cabia ao Real somente minimizar os danos e tentar evitar mais golos. Para tal, e em desespero evidente, Juande Ramos tirou Robben e colocou Javi García. No entanto, nem isto evitou que três minutos depois, Piqué, entusiasmado, se incorporasse no ataque e desse a machadada final no seu rival. 2-6. Humilhação histórica.

 

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Até ao final, Guardiola tirou Iniesta e Touré e colocou em jogo os canteranos Bojan e Busquets. O Barça já não queria marcar mais e limitava-se a trocar a bola, descansando os seus jogadores. É importante recordar que quatro dias mais tarde os catalães disputariam a segunda mão das meias-finais da Champions, em Stamford Bridge.

Toda a equipa do Barcelona esteve sublime mas, destacando um jogador, a exibição de Xavi é talvez uma das melhores exibições assinadas por um médio nos últimos anos do futebol. Três assistências e participação em quatro golos, além de ter sido o fio condutor de todo o jogo ofensivo do Barça, que humilhou o seu rival eterno fora de casa, num jogo decisivo na luta pelo título.

O próprio Xavi, anos mais tarde em entrevista ao Daily Mail, revelou aquela que considera ter sido a chave da goleada no Bernabéu: “Foi quando Guardiola pôs o Messi como falso nove. Ele sabia que os centrais do Real não sairiam ao Messi quando ele jogasse no meio, o que significava que eu, ele e o Iniesta faríamos três contra dois contra o meio-campo deles”. E foi mesmo isto!

 

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Consequências

 

Quando Undiano Mallenco apitou pela última vez, pôs um ponto final não só numa épica partida de futebol, como num campeonato disputado entre as duas equipas. O Real ficava a 7 pontos e não recuperaria psicologicamente de tal golpe, já que não voltou sequer a pontuar no restante campeonato (quatro derrotas em quatro jogos). Curiosamente, o Barcelona também não voltou a vencer na Liga (dois empates e duas derrotas). Nos anos seguintes o Real Madrid não se conseguiu reerguer perante o domínio catalão, tendo Juande Ramos sido afastado do clube e sucedido por Manuel Pellegrini. Contudo, o Real só voltaria a ganhar a Liga em 2012, já na segunda época de Mourinho.

Assim, o Barça terminou campeão com 9 pontos de vantagem e ao campeonato ainda juntou Champions e Taça do Rei, conseguindo assim o primeiro triplete da história do futebol espanhol. Tudo isto na primeira época de Guardiola à frente do clube.

Este jogo, mais do que uma goleada em casa do rival, marcou o início de uma era. Nos dois anos que se seguiram, Guardiola venceu dois campeonatos aos quais juntou mais uma Champions. Mas mais do que os troféus e títulos, Guardiola representou uma ideia, uma filosofia que trouxe sucesso para os blaugrana como nenhum outro treinador em toda a sua história.

O Barcelona destas três épocas ficou para a história do jogo, não só por tudo o que ganhou mas principalmente pela forma como o fez. O dia 2 de maio de 2009 marcou o início de uma viragem em todo o panorama do futebol mundial. Muito estava em jogo naquele dia. Assim como muito estava por chegar…

 

Os golos e melhores momentos deste jogo histórico:

https://www.youtube.com/watch?v=bUQk8fF2-F0

 

 

 

 

 

 

 

 

Francisco Madureira

Nascido em Lisboa, sou louco por futebol desde que me lembro. Tenho mais jeito para ver e escrever do que para jogar. Cedo aprendi que é um jogo cruel, mas é também isso que o torna belo. Atualmente a licenciar-me em Ciências da Comunicação.

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