Brasil-França, Mundial 2006: A última obra-prima de Zidane

Jogos históricos são também feitos de jogadores históricos e no dia 1 de julho de 2006, em Frankfurt, Zidane assinou uma das suas melhores exibições de sempre, naquela que viria a ser a antepenúltima partida da sua carreira. O lendário francês marcou todo o Mundial 2006 com exibições soberbas e momentos para a história. Mas nem tudo se resume à mítica final do Olímpico de Berlim e ao infeliz final de carreira…

Brasil e França protagonizaram em 2006 mais um duelo que para a história dos Mundiais, depois da famosa final de 1998, que consagrou os gauleses como campeões do mundo pela primeira vez. Nessa final, Zidane apontou um dos 3 golos franceses, apesar de o melhor jogador da competição ter sido Ronaldo, o fenómeno. Curiosamente, esse jogo em Paris marcou a última derrota do Brasil em mundiais até ao jogo de Frankfurt. Eram contas que já vinham de trás…

O jogo de Frankfurt fica na memória também por ter sido jogado entre a França de um enorme Zidane e um Brasil campeão do mundo em título e que contava com uma equipa recheada de estrelas: Kaká, Ronaldinho, Roberto Carlos e Ronaldo, o fenómeno, colega de Zizou no Real Madrid e com quem o francês trocou sorrisos antes do apito inicial… Embora fosse uma seleção que inspirou grandes expectativas aos brasileiros, a verdade é que a Canarinha não entusiasmou durante 2006 e acabou por cair justamente aos pés de uma França coletivamente mais forte.

O Brasil aparecia na Alemanha com o peso de defender o título de campeão do mundo conquistado em 2002 e venceu todos os jogos até aos quartos de final sem contestação. Já a França procurava limpar as más campanhas em grandes competições de 2002 e 2004 e voltar aos momentos gloriosos de 1998 e 2000, ainda que se apresentasse com uma equipa bastante diferente, oito anos depois do triunfo mundial.

Os dois onzes que subiram ao terreno da Commerzbank Arena podiam perfeitamente ser equipas de um jogo All-Star: os gauleses, orientados por Raymond Domenech, alinharam com Barthez, Sagnol, Thuram, Gallas e Abidal; Makelele, Vieira e Zidane; Malouda, Ribéry e Henry. Já o Escrete, comandado por Carlos Alberto Parreira, apresentou Dida, Cafu, Juan, Lúcio e Roberto Carlos; Gilberto Silva, Zé Roberto, Juninho Pernambucano; Kaká, Ronaldinho e Ronaldo.

Pouco depois dos 30 segundos de jogo, Zidane começou a mostrar ao que vinha. Com um pormenor soberbo, libertou-se de Zé Roberto e empolgou os adeptos franceses, mas falhou depois o passe para a desmarcação de Henry. O jogo começou muito disputado e pouco aberto a grandes oportunidades. As primeiras situações da primeira metade surgiram pelo Brasil e quase sempre de bola parada. Primeiro Juan e depois Ronaldo atiraram por cima da baliza, na sequência de livres laterais nos primeiros 10 minutos. Apesar de o Brasil estar por cima, Zidane era destacadamente o melhor elemento dos franceses, com grandes pormenores sobre Kaká e Cafu. O jogo começava a aquecer!

A partir dos 20 minutos a França conseguiu inverter o sentido do jogo e passar a jogar mais confortavelmente no meio-campo brasileiro. A primeira oportunidade francesa surgiu também de bola parada, aos 38 minutos. Zizou, num livre sobre o lado esquerdo, colocou a bola na área e Malouda cabeceou ligeiramente por cima.

Já em cima do intervalo, Zidane voltou a tirar um coelho da cartola. Depois de driblar três brasileiros, fez um passe para a corrida de Patrick Vieira que foi derrubado por Juan antes de se poder isolar. Uma das jogadas mais brilhantes de Zidane. O génio estava à solta!

Na segunda parte, mais do mesmo: livre lateral para a França e o número 10 a fazer mais um cruzamento milimétrico que por pouco Vieira não finalizou com sucesso. Até que aos 57 minutos, em mais um livre cobrado pelo suspeito do costume, a França chega mesmo ao golo. Desta vez foi Henry que apareceu completamente sozinho ao segundo poste e só teve de encostar para o golo. Depois do jogo e da eliminação brasileira, Roberto Carlos viria a ser fortemente criticado por ter deixado o francês fugir sem marcação.

A França cresceu no jogo e aos 61 minutos esteve muito perto de ampliar a vantagem, depois de um cruzamento de Ribéry quase ter resultado num auto-golo do central Juan. Apesar da desvantagem a reação do Brasil foi tímida e dependente de alguns rasgos individuais dos seus homens da frente. Enquanto isso, Zidane continuava a dominar o jogo e a deixar no chão vários jogadores brasileiros. Receções orientadas, fintas de corpo, passes teleguiados: o francês fez um pouco de tudo… Naquele dia era ele o dono da bola e ninguém lha tirava!

Aos 81 minutos, o recém-entrado Robinho esteve perto de fazer o empate e aos 89’ foi Ronaldinho, de livre direto, que assustou Barthez, mas o resultado estava mesmo fechado. Já nos descontos, Zidane (quem mais poderia ser?) ainda assistiu Saha que podia ter sentenciado o jogo, não fosse a defesa de Dida.

Terminou assim este jogo marcante. Um jogo que para o Brasil, além da eliminação, veio a significar um fim de ciclo, já que nomes como Cafu, Roberto Carlos, Ronaldo ou Ronaldinho não voltaram a jogar um Mundial.

Já Zidane voltaria a jogar dois jogos na sua carreira: a meia-final contra Portugal e a final frente à Itália. Curiosamente, marcou de penalty em ambos os encontros, sendo que na final foi expulso depois do famoso lance com Materazzi. Esta não deve, no entanto, ser a última memória que fica do francês, ou apagar o enorme Mundial que fez Zidane – considerado, depois, o melhor jogador da competição.

Esta foi uma partida histórica principalmente por se tratar de uma das melhores exibições da carreira de um dos melhores jogadores de sempre. E isto num grande palco, contra uma grande equipa, aos 34 anos e a alguns dias de pendurar as botas… Memorável!

Em baixo, os melhores momentos do jogo e os melhores lances de Zidane:

 

https://www.youtube.com/watch?v=ZtlJSl5efGA

 

Francisco Madureira

Nascido em Lisboa, sou louco por futebol desde que me lembro. Tenho mais jeito para ver e escrever do que para jogar. Cedo aprendi que é um jogo cruel, mas é também isso que o torna belo. Atualmente a licenciar-me em Ciências da Comunicação.

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