Portugal-Inglaterra, Euro 2000: A afirmação de uma geração

12 de junho de 2000, Eindhoven. Começava o Europeu para a seleção portuguesa. Depois de uma fase de qualificação tranquila em que Portugal se apurou em segundo lugar no seu grupo, a expectativa era grande à volta da seleção. Mas o sorteio não foi nada simpático para as aspirações portuguesas.

Além de uma Inglaterra que apenas se apurou no play-off, Portugal enfrentava a Roménia que tinha ficado à sua frente na fase de qualificação e a sempre difícil Alemanha. Era uma missão espinhosa para as aspirações de uma seleção que no último Europeu tinha caído nos quartos-de-final frente à República Checa, mas que entretanto tinha voltado a falhar a presença numa grande competição, o Mundial de 1998.

Era então uma equipa com muito a provar, comandada por Humberto Coelho, que entrava em campo no Philips Stadion, para defrontar uma Inglaterra com mais experiência em grandes competições e com jogadores de craveira mundial. Numa entrevista anos mais tarde, Humberto Coelho revela o que pediu aos seus jogadores: “Havia duas situações fundamentais: uma era os espaços serem reduzidos; outra era a segunda bola. Os ingleses eram exímios a recuperar a bola e isso era um fator determinante”.

De facto, a seleção de Kevin Keegan impunha respeito, para entender isso basta olhar para a equipa inicial: David Seaman, Gary Neville, Tony Adams, Sol Campbell, Phil Neville, Paul Ince, Paul Scholes, David Beckham, Steve McManaman, Alan Shearer e Michael Owen.

A equipa escolhida por Humberto Coelho não deixava, no entanto, de ser impressionante a nível de qualidade individual: Vítor Baía, Abel Xavier, Jorge Costa, Fernando Couto, Dimas, Vidigal, Paulo Bento, Rui Costa, Figo, João Pinto e Nuno Gomes. Sem dúvida uma das melhores (há quem diga que é mesmo a melhor) seleções portuguesas de todos os tempos. E foi isso que se viu em Eindhoven.

O jogo começou com Portugal instalado no meio-campo inglês e a trocar a bola com confiança. Numa das primeiras vezes que passou do meio-campo, a Inglaterra procurou esticar o jogo e aproveitar o espaço nas costas da defesa portuguesa. Depois de um cruzamento largo de Phil Neville, a bola sobrou para Beckham no lado direito do ataque inglês. O extremo do Manchester United teve todo o espaço do mundo para pensar e executar um cruzamento mesmo à medida da cabeça de Paul Scholes, que apareceu sozinho no coração da área, e aproveitando a desorganização da equipa portuguesa, colocou a Inglaterra em vantagem. Estavam decorridos 3 minutos de jogo.

Depois do golo inglês Portgual não abanou e o jogo seguiu na mesma toada: Inglaterra a defender com um bloco baixo e Portugal a trocar a bola entre os médios e a aproveitar o envolvimento e os movimentos interiores de João Pinto e Figo. A Inglaterra procurava sempre apostar na profundidade e o seu jogo assentava sobretudo em colocar bolas longas nas costas de Abel Xavier e Dimas.

Foi cedo no jogo que se começou a revelar aquele que foi, de longe, o melhor jogador em campo: Rui Costa. O jogo de Portugal passava sempre pelos pés do Maestro, que fazia sempre o passe certo, sempre a perceber as movimentações dos colegas e a ler o jogo da melhor maneira.

Foi precisamente Rui Costa que criou a primeira situação de Portugal, ao cruzar junto à linha de fundo sobre a direita, para João Vieira Pinto aproveitar uma falha na saída de David Seaman e aparecer ao segundo poste a cabecear de cima para baixo, com a bola a passar muito perto da baliza inglesa. Estava dado o primeiro aviso português, aos 12 minutos de jogo.

Aos 15′, novamente o 10 português a rematar de longe e a obrigar Seaman a defesa apertada para canto. Portugal continuava sempre perto da área inglesa, mas aos 18′, de forma totalmente inesperada, a Inglaterra aumentou a vantagem. De um lançamento lateral longo, Michael Owen recebeu a bola e temporizou, soltando para Beckham que fugiu a Dimas e cruzou para o segundo poste onde Steve McManaman apareceu sozinho e bateu Vítor Baía. 0-2 para Inglaterra aos 18 minutos num jogo em que Portugal estava a ser largamente superior.

Seria de esperar que a seleção portuguesa baixasse os braços e a Inglaterra conseguisse ampliar a vantagem. Seria de esperar com uma equipa normal, pelo menos… Nada mais errado!

Quatro minutos depois do golo inglês, Portugal consegue finalmente materializar todo o seu domínio no jogo pelos pés de Figo. O 7 português recebeu a bola sozinho no grande círculo e progrediu até cerca de 30 metros da baliza, de onde puxou a culatra atrás. Para sorte do lado português, a bola desviou na perna de Tony Adams e subiu ainda mais entrando mesmo no ângulo superior da baliza de um David Seaman sem hipóteses. Golaço, bola rapidamente debaixo do braço de Figo e estava iniciada a recuperação!

A equipa portuguesa continuava a jogar fiel aos seus princípios e trocava a bola como se estivesse 0-0 no marcador. Humberto Coelho revela que mesmo a perder 0-2 nunca deixou de acreditar pela forma como a equipa estava a jogar. O golo de Figo, segundo o seleccionador, foi fundamental para a reviravolta, pelo momento do jogo em que aconteceu: “sentia que a equipa estava com uma boa atitude e a controlar o jogo. Era preciso marcar e o golo do Figo aconteceu no momento certo”.

A Inglaterra procurava a aproximação à baliza portuguesa e Paul Scholes ameaçou voltar a marcar com um remate de fora de área. Portugal continuava com o mesmo estilo de jogo: um ataque muito dinâmico, baseado em triangulações e com todos os jogadores a trocarem sucessivamente de posição.

Não existiram muitas oportunidades de relevo até àquele que é, provavelmente, o momento do jogo. Aos 37 minutos, depois de quase um minuto seguido com a bola nos pés e sucessivas movimentações do ataque português, Rui Costa, sobre o lado direito, cruzou em arco e João Pinto apareceu com a cabeça onde Sol Campbell foi com o pé. O avançado português antecipou-se ao central e num voo baixo cabeceou a bola a fugir de Seaman. O esférico ainda bateu no segundo poste, mas acabou por entrar. Golo milimétrico e espectacular! Empate na partida perto do intervalo. “Foi um momento alto do nosso futebol que traduziu o jogo coletivo que apresentámos nesse jogo!”, explicou Humberto Coelho.

Ao intervalo, Kevin Keegan fez entrar Emile Heskey por Michael Owen, o que significava um aumento do poder físico e de presença na área portuguesa. Mas foi de Portugal a primeira oportunidade da segunda parte: João Pinto voltou a criar perigo na sequência de um canto apontado por Figo.

Na segunda parte a seleção portuguesa continuou a exibir um futebol de nível altíssimo. Figo, João Pinto e Rui Costa tratavam a bola como jogadores de classe mundial. Já a Inglaterra continuava a apostar num 4-4-2 clássico, com pouco jogo interior e muitas bolas longas a explorar o “um contra um” dos extremos sobre os laterais portugueses, que foram o ponto fraco da seleção nacional.

Novo momento relevante aos 58: Steve McManaman saiu por lesão e, para o seu lugar, entrou Dennis Wise. Um minuto depois desta alteração, Rui Costa recebeu a bola a meio do meio-campo inglês e com algum espaço fez um passe a “rasgar” a defesa contrária para a desmarcação de Nuno Gomes. O avançado português conseguiu dominar a bola e enquadrar-se com a baliza, para depois, na cara de David Seaman, fuzilar as redes adversárias com o pé direito. Estava consumada a reviravolta no marcador, mas havia ainda mais de 30 minutos para jogar.

O jogo continuou a não ser fértil em oportunidades, mas depois de se encontrar a perder, a Inglaterra subiu as linhas e tornou-se mais perigosa. Apesar disso, Portugal conseguiu sempre ter bola e ser perigoso. Nuno Gomes voltou a pôr a bola na baliza inglesa aos 73′, mas desta vez foi apanhado em fora-de-jogo. Aos 75′, Humberto Coelho tirou João Pinto e colocou em campo Sérgio Conceição.

As melhores oportunidades da Inglaterra depois do 3-2 foram dois remates de Paul Scholes dentro da área, bloqueados pela defesa portuguesa. Aos 77′, Shearer de cabeça voltou a causar calafrios aos portugueses e um minuto depois, Figo, de fora da área, esteve muito perto de assinar mais um golaço. Nesta fase da partida já se notava algum cansaço de parte a parte e Kevin Keegan esgotou as alterações ao substituir Tony Adams por Martin Keown. Os ingleses tentavam o “chuveirinho” para a área portuguesa e Humberto respondeu lançando Beto para o lugar de Rui Costa. Até ao fim Portugal só teve de segurar o resultado, com Capucho ainda a ser lançado para o lugar de Nuno Gomes. Mesmo nesta fase, a Inglaterra nunca deu a sensação de ser uma equipa muito perigosa e não voltou a criar oportunidades de perigo. Resultado justíssimo!

Estava assim carimbada a primeira vitória de Portugal no Euro: jogo épico de uma grande equipa que beneficiou de um Rui Costa estratosférico. Este jogo representa o auge de uma das melhores gerações da história do futebol português, que só caiu de forma cruel aos pés da França de Zidane que viria a sagrar-se campeã da Europa. Um conjunto de jogadores talentosos que se entendiam de olhos fechados e que ficaram na história pelas memórias e sonhos que criaram a todos os portugueses, mais do que por qualquer resultado. Porque o futebol é muito mais do que isso!

 

( Fonte da Imagem: Uefa.com )

Francisco Madureira

Nascido em Lisboa, sou louco por futebol desde que me lembro. Tenho mais jeito para ver e escrever do que para jogar. Cedo aprendi que é um jogo cruel, mas é também isso que o torna belo. Atualmente a licenciar-me em Ciências da Comunicação.

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