Opinião: A nova Serie A

Nos últimos anos (praticamente na última década), o campeonato italiano tem sido dominado pela “Vechia Signora”, em termos mais comuns, a Juventus. Oito (!) campeonatos consecutivos, praticamente todos conquistados sem grande dificuldade e um constante investimento significativo de modo a manter o plantel cada vez melhor. Algo inédito nos grandes campeonatos europeus.

O tombo dos antigos gigantes da Serie A, AC Milan e Inter, certamente facilitou. Dois candidatos de peso saíram da corrida assim que começa o domínio do colosso de Turim, passando grandes dificuldades a nível interno, em termos de gestão e financiamento. A Roma não era campeã desde 2001, o Nápoles ficava constantemente abaixo daquilo que se exige de um campeão e a Lazio não apresenta nenhum verdadeiro desafio ao título desde algumas décadas.

A chegada de Ronaldo na época passada serviu tanto como um reforço a nível futebolístico, como a nível mental. Ao contratar um dos melhores jogadores de sempre, após ter conquistado mais uma Champions, é uma declaração de poder aos seus concorrentes e aos seus jogadores, afirmando as ambições e o nível do clube. De facto, não houve grande dificuldade na conquista do título italiano para a Juventus, e Ronaldo conquistou o prémio de melhor jogador da época em Itália.

Chegada a época 2019/2020, o panorama poderia ser o mesmo, mas eis as diferenças face a anos anteriores que justificam crer que a Serie A está a tornar-se cada vez mais relevante e cativante:

  • A Juventus não está sozinha na corrida para o título. Os favoritos do costume têm a companhia do Inter e do Nápoles na luta pelo campeonato esta época. Estes três clubes estão marcadamente à frente dos outros emblemas, sendo que o Nápoles tradicionalmente tem sido o segundo melhor em Itália, mas reforçou-se de forma astuta com Manolas, Lozano e Meret a destacarem-se entre as transferências. Mesmo a contratação de Llorente a custo zero tem sido muito positiva pela boa forma que o avançado espanhol tem apresentado. Ancelotti lidera uma equipa muito capaz e experiente, e poderá ter uma palavra a dizer na discussão do topo. Por Milão, o Inter reforçou-se em vários departamentos, principalmente no seu novo treinador, Antonio Conte. O típico esquema do treinador italiano, o 3-5-2, tem mostrado grandes resultados até ao momento, com um início perfeito no campeonato, cinco vitórias em cinco jogos, colocando-os no topo da liga, dois pontos à frente da Juventus. A chegada de jogadores como Godín e Lukaku simboliza a vontade dos nerazzurri de se reerguerem.
  • A luta pela Europa está ao rubro. Descendo um pouco na tabela podemos ver uma luta caótica que se tem passado nos últimos anos pelos lugares europeus. Na época passada foi até ao último segundo da última jornada que ficaram quatro lugares de qualificação europeia por decidir. Seja pela boa forma que têm demonstrado ou pela qualidade dos seus plantéis, podemos contar com pelo menos seis clubes a disputar a possibilidade de jogar pela Europa fora: Roma, Atalanta, Lazio, Milan, Torino e talvez o Cagliari, que se encontra na quinta posição do campeonato. Cada uma destas equipas tem argumentos para chegarem aos lugares da cima da tabela, uns mais para a Champions e outros para Liga Europa, mas a disputa será certamente muito entusiasmante de ver.
  • Jovens estrelas por todo o campeonato. O campeonato italiano tem produzido jovens talentos a um nível muito consistente e admirável nos últimos anos. Alguns dos casos mais notáveis são o de Donnaruma, Barella, Chiesa, Calabria, Diawara e muitos mais. Espalhados pelos clubes do campeonato são vários os jovens atletas que atraem as atenções dos colossos europeus enquanto espalham magia a cada jogo que fazem. Um exemplo preponderante disto mesmo é o caso de Sandro Tonali, médio defensivo do recentemente promovido Brescia, que já na segunda divisão começou a atrair o interesse de clubes como o Manchester United, Ajax, Borussia Dortmund… Há muitos mais como ele, formados nos próprios clubes italianos ou contratados a outros mercados, como De Ligt, provavelmente a maior promessa em termos de defesas-centrais da atualidade e optou por assinar pela Juventus esta temporada. Nota especial também para os jovens médios contratados pelo Inter, Barella e Sensi, ambos jogadores de grande qualidade e com muito potencial, já jogando regularmente às ordens de Conte.
  • Os jogadores “clássicos”. Sabia que o melhor marcador do campeonato na época anterior foi Fabio Quagliarella, nos seus 36 anos de idade, com 26 golos (e oito assistências)? Da mesma forma que a liga é relevante pela juventude, também o é pela qualidade e valor icónico que alguns dos seus atletas mais veteranos possuem. Franck Ribéry escolheu a Fiorentina como próximo clube após fazer história no Bayern, Buffon regressou a casa, representando as cores da Juventus após um ano no PSG. Ronaldo já pode entrar nesta consideração, mantendo um nível de excelência aos 34 anos, como já lhe é costume.

Os anos de glória do campeonato italiano residem confortavelmente na nostalgia dos adeptos que seguiam o desporto na altura. Talvez faltem décadas para voltarmos a ver os clubes italianos no topo da Europa, a disputar grandes finais regularmente, mas há motivos para voltarmos a pôr os olhos em Itália e ganhar entusiasmo com o que vemos. Os dérbis de Milão e de Roma ainda fervem, os estádios continuam majestosos como sempre e o futebol está promissor e entusiasmante como não estava há algum tempo.

José Horta

Não nasci a gostar de futebol, mas quando comecei nunca mais quis outra coisa. Algarvio de nascença mas adepto do futebol para além daquele que se joga na praia. Sempre atento aos contornos e novidades do "Desporto Rei", "Beautiful Game" ou lhe quiserem chamar. Aluno universitário de Ciências da Comunicação na FCSH.

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