Barcelona-Inter, Meias-finais da Liga dos Campeões de 2009/10

A 28 de abril de 2010, em Camp Nou, era a quarta vez que Barcelona e Inter se defrontavam na edição da Champions League de 2009/10. Algo tão raro na competição que quase se pode pensar que os deuses do futebol quiseram o máximo de duelos possível entre Mourinho e Guardiola naquela época (e nas que seguiriam)… E ainda bem que assim foi!

Na fase de grupos os blaugrana acabaram por sair por cima ao empatar 0-0 em Milão, ganhando depois em casa por 2-0. O Barcelona venceu o grupo com dois pontos de avanço sobre o Inter. Já nestas meias-finais, uma semana antes, o Inter venceu 3-1 no Giuseppe Meazza, chegando a Camp Nou com essa vantagem de dois golos por defender. Os golos italianos foram apontados por Sneijder, Maicon e Diego Milito. Pedro Rodríguez marcou para os catalães.

Outro aspeto que tornou a eliminatória ainda mais “picante” foi a grande novela do mercado de transferências de 2009 protagonizada pelos dois clubes. Samuel Eto’o, grande figura do Barça durante vários anos, foi “trocado” pelos catalães por Zlatan Ibrahimovic, elemento fundamental do primeiro ano de Mourinho no Inter. Além do passe do camaronês, o Barcelona ainda desembolsou mais 45 milhões de euros. Naquela meia-final, as duas estrelas eram as referências ofensivas dos respetivos conjuntos. O Barcelona tinha, ainda, nesta época o aliciante especial de poder ganhar a sua segunda Champions consecutiva em casa do maior rival, já que a final de 2010 foi jogada no Santiago Bernabéu.

Guardiola não pôde contar com os lesionados Puyol e Iniesta e fez alinhar Valdés, Dani Alves, Piqué, Touré, Milito, Busquets, Keita, Xavi, Messi, Pedro e Ibrahimovic. Para o Inter, a principal ausência foi Goran Pandev, que havia sido titular na primeira mão. Mourinho alinhou com Júlio César, Maicon, Lúcio, Samuel, Chivu, Zanetti, Cambiasso, Thiago Motta, Sneijder, Eto’o e Milito.

O jogo começou como seria de esperar: a equipa da casa a dominar e a demonstrar que precisava de recuperar da diferença de dois golos trazida da primeira mão. O Inter entrava mentalizado para aguentar e sofrer.

Logo aos 2’, Pedro Rodríguez deixou um aviso à baliza de Júlio César, ao rematar de longe sobre o lado esquerdo. Os primeiros dez minutos foram de sufoco para o Inter. O Barça ia jogando dentro do meio-campo adversário, de onde o Inter quase não conseguia sair apoiado. Nos bancos Guardiola e Mourinho sempre de pé, junto à linha lateral. O catalão mais introspectivo, o português mais agitado.

Do lado do Inter, merecem destaque Eto’o e Diego Milito, que , apesar de estarem a jogar algo desamparados na frente de ataque, iam conseguindo ganhar faltas e segurar a bola durante alguns segundos para a equipa respirar.

Aos 22’, nova oportunidade de Pedro Rodríguez, que de primeira, após centro de Dani Alves, atirou ligeiramente ao lado. Cinco minutos depois, o lance mais importante de todo o jogo: num lance disputado a meio-campo, Thiago Motta tentou proteger a bola de Sergio Busquets e acertou com a mão na cara do espanhol. O árbitro não hesitou e mostrou o cartão vermelho ao antigo jogador do Barcelona, que estava incrédulo perante algum teatro de Busquets. Mourinho riu-se ironicamente para o árbitro, enquanto Motta abandonava o relvado. Expulsão muito exagerada que viria a condicionar todo o jogo.

Aos 32’, foi a vez de Messi aparecer no encontro com um remate muito colocado e que obrigou Júlio César a uma defesa monstruosa, com a bola a passar a escassos centímetros do poste. Se já com 11 contra 11 o Inter estava a passar por grandes dificuldades, com menos um homem em campo, o jogo tomou um rumo ainda mais complicado para a equipa italiana.

A expulsão incendiou o jogo e os jogadores do Barcelona, com a ajuda do Camp Nou, tentavam condicionar a arbitragem, protestando qualquer lance na área do Inter. Era notória a ansiedade do Barça que precisava de um golo o mais rápido possível. Ainda antes do intervalo, Ibrahimovic, de livre direto fez a bola passar muito perto da baliza de Júlio César. O Inter pôde respirar. Tinha aguentado o 0-0 até ao intervalo.

A segunda parte recomeçou com a entrada de Maxwell para o lugar de Gabriel Milito, na equipa da casa. Em relação ao jogo, nada mudou com o recomeço da partida: em várias ocasiões o Inter defendia com 10 homens atrás da linha da bola, chegando a colocar seis ou sete dentro da sua grande área. Outra particularidade interessante foi o facto de, com a expulsão de Thiago Motta, Mourinho ter pedido a Milito e Eto’o (que fez a segunda parte toda como lateral esquerdo!) para fecharem os extremos do Barcelona, muitas vezes recuando até à própria grande área. Sneijder era quase sempre o homem mais adiantado na pressão do Inter.

O Barcelona ia tentando furar a muralha de camisolas brancas à frente da área, até por vezes através da meia distância, mas sempre sem sucesso. Aos 63’, Guardiola esgotou as alterações, lançando Jeffrén e Bojan para substituir Ibrahimovic e Busquets. Poucos minutos depois, Mourinho respondeu substituindo um esgotado Sneijder pela frescura física de Muntari.

A maior prova do enorme trabalho defensivo do Inter era a falta de oportunidades claras de golo por parte do Barça, que esteve mais de 60 minutos com mais um. Os blaugrana tinham a bola em zonas de perigo, mas os espaços estavam sempre tapados. Todos os jogadores do Inter fizeram um jogo de enorme sacrifício, mas sempre com uma disciplina e um rigor táctico a roçar a perfeição.

Aos 80’, Mourinho colocou Córdoba em campo por Diego Milito. Instantes depois, surge uma grande oportunidade para o Barça, naquele que foi talvez o único lance em que o Inter estava mal posicionado. Messi centrou da esquerda e Bojan apareceu sozinho na área, cabeceando muito perto do poste. Júlio César estava batido.

Nesta altura o Inter jogava numa espécie de 6-2-1 e Piqué era a referência ofensiva do Barcelona. Pode ser desespero colocar um central na área adversária, mas a verdade é que neste caso, acabou por resultar. Piqué colocou o Barça em vantagem aos 84’, depois de receber um passe de Xavi e rodar sobre Córdoba num grande gesto técnico. Faltava um golo ao Barça, mas Camp Nou acreditava.

O Inter sofria mais do que nunca e logo a seguir ao golo, Mourinho colocou Mariga no lugar de Eto’o. Nos minutos que se seguiram, Júlio César continuava a mostrar-se muito seguro, travando remates de longe de Xavi e Messi. Grande exibição do guarda-redes brasileiro!

Já nos descontos, Bojan ainda colocou a bola no fundo das redes. O estádio veio abaixo, mas o lance já tinha sido anulado por mão de Touré. Guardiola estava furioso, mas Mourinho podia respirar de alívio… Aos 94’ Frank De Bleeckere apitou pela última vez e estava feito. O Inter tinha conseguido o impensável: 38 anos depois, o histórico clube de Milão estava numa final da principal prova de clubes europeus. Momento inesquecível para os adeptos e também para um eufórico José Mourinho…

No final do encontro, o técnico protagonizou um dos momentos mais icónicos da sua carreira: a famosa corrida ao longo do relvado de Camp Nou com o dedo indicador em riste, que Victor Valdés tentou parar, por considerar uma provocação aos adeptos blaugrana. Em resposta, o Barcelona ligou a rega do relvado, ainda com os jogadores do Inter a festejar o triunfo.

Não pode ser ignorado, apesar da festa no final, que os neroazzurri só passaram a eliminatória devido a um excelente jogo na primeira mão em que a equipa conseguiu apanhar o Barcelona desprevenido e marcar por três vezes. É por isso muito importante realçar a diferença entre defender o resultado sem bola no segundo jogo de uma eliminatória estando em vantagem e fazê-lo por sistema.

Em Camp Nou, Mourinho deu um recital de organização defensiva em bloco baixo e uma verdadeira aula sobre como defender com 10 homens. No entanto, este jogo não pode ser isolado e só conta metade da história, já que na primeira mão, o Inter mereceu a vitória e demonstrou outras capacidades coletivas além da organização defensiva. Ou não fosse esta equipa um dos melhores trabalhos da carreira do treinador português…

É também verdade que o Barcelona fez uma exibição longe do seu melhor, com os jogadores claramente ansiosos e com menos critério do que é habitual. No entanto, como diz a velha máxima: “uma equipa joga aquilo que a outra deixa”. Muito mérito para o Inter.

Como seria de esperar, depois de passar esta eliminatória, o Inter venceu o Bayern por 2-0 na final de Madrid. Na época seguinte, Mourinho rumou precisamente a Madrid, com a difícil tarefa de travar a máquina de Guardiola. Ninguém sabia o que ainda estava para vir…

Inter e Barcelona protagonizaram um jogo e uma eliminatória memoráveis por marcarem o confronto máximo entre duas ideias e visões sobre o futebol totalmente opostas representadas por duas das melhores equipas da década e dois dos melhores treinadores da história do jogo.

Em baixo, alguns dos melhores momentos do jogo:

https://www.youtube.com/watch?v=-6fHiCyLRoI

Francisco Madureira

Nascido em Lisboa, sou louco por futebol desde que me lembro. Tenho mais jeito para ver e escrever do que para jogar. Cedo aprendi que é um jogo cruel, mas é também isso que o torna belo. Atualmente a licenciar-me em Ciências da Comunicação.

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