Quem te viu e quem te vê: Rúben Amorim

Na memória de todos os adeptos de futebol ficam os grandes craques de todas as equipas. Os desequilibradores, que fazem golos, assistências e carregam qualquer equipa. Depois, existem os jogadores que representam o oposto de tudo isto: os jogadores de equilíbrios, estáveis e discretos, “invisíveis” para o comum adepto, mas adorados por qualquer treinador. Jogadores que têm como principal característica a inteligência e tudo o que isso representa dentro

Dentro desta segunda categoria, um dos casos de maior sucesso no futebol português dos últimos anos dá pelo nome de Rúben Filipe Marques Amorim. Nascido em Lisboa em 1985, Rúben Amorim começou a jogar no CAC da Pontinha. Deu o salto para o Benfica com idade de juvenil e, já como júnior, seguiu para o Restelo para representar o Belenenses.

Com a cruz de Cristo ao peito, Amorim estreou-se como sénior na Primeira Liga na época 2003/04. A partir daí foi-se afirmando nos azuis do Restelo e ganhando preponderância a cada época, enquanto se tornava presença habitual nas seleções jovens.

Foi em 2006 que chegou ao clube o treinador que mais decisivamente marcaria a carreira do médio, tal como o próprio reconheceu em várias entrevistas. Jorge Jesus tinha em Amorim (com apenas 21 anos na altura) uma peça chave do seu Belenenses, num meio-campo que também contava com Zé Pedro e Silas. Nesta época o Belenenses conseguiu o quinto lugar no campeonato português e a final da Taça de Portugal, perdida para o Sporting.

Em 2008 surge a grande mudança na carreira do jogador: em fim de contrato com o Belenenses, Rúben Amorim muda-se para o Benfica, clube do seu coração. Na primeira época de encarnado foi muito utilizado por Quique Flores, participando em 34 jogos. O Benfica terminou em terceiro, o que significou uma mudança no comando técnico. Foi nesse momento que se deu o reencontro com Jorge Jesus.

Com o treinador português, Rúben voltou a ser um elemento determinante no título do Benfica em 2009/10. Nessa época não foi titular absoluto, mas funcionava como o 12º jogador da equipa, jogando sempre de forma regular. Esta boa época valeu-lhe a chamada à seleção para o Mundial de 2010, quando rendeu o lesionado Nani na equipa de Carlos Queiroz.

Na época seguinte teve menos espaço no plantel e começou a atravessar um longo historial de lesões nos joelhos. Com cada vez menos influência no Benfica de Jesus, o polivalente foi emprestado ao Braga em janeiro de 2012. A primeira época não foi positiva, mas Amorim voltou a encontrar-se nos arsenalistas durante 2012/13, aquela que foi a temporada com mais golos da sua carreira (cinco).

Perante este bom desempenho, o jogador acabou por voltar à casa-mãe, mesmo tendo afirmado que não queria voltar a trabalhar com Jorge Jesus. Na época 2013/14 voltou a ter um papel muito importante no Benfica, que foi à final da Liga Europa, venceu Taça e Taça da Liga e voltou a ser campeão quatro anos depois. O padrão repete-se em relação a 2010: a boa época no Benfica e o título de campeão nacional culminam com a chamada de Paulo Bento para o Mundial do Brasil. Foi titular na única vitória da seleção neste Mundial, frente ao Gana.

Regressado ao Benfica, o azar voltou a bater à porta do médio. Ainda em agosto de 2014, quando procurava afirmar-se definitivamente como titular no Benfica, foi o relvado sintético do Estádio do Bessa que atraiçoou o português. Amorim fez uma rotura dos ligamentos cruzados a que se seguiram seis longos meses de paragem. Quando regressou à competição ainda chegou a fazer jogos na equipa B do Benfica, deixando Benfica em 2015, com o seu terceiro título de campeão.

Não estando nos planos do treinador Rui Vitória, Rúben Amorim rumou ao Qatar por empréstimo do Benfica. No Al-Wakrah participou apenas em 14 jogos, colocando um ponto final na sua carreira de jogador no ano de 2017, com apenas 32 anos, depois de rescindir contrato com os encarnados.

Depois disso, seguiu-se uma pausa breve, tendo o ex-jogador voltado ao futebol para uma carreira de treinador. Começou no Casa Pia e passou em seguida para o Braga B, recusando os sub-23 do Benfica. Com apenas 34 anos, o ex-jogador já tirou o curso na Faculdade de Motricidade Humana, bem como o grau I de treinador.

Conhecendo o que foi Rúben Amorim como jogador é legítimo pensar que o sucesso como treinador é uma forte possibilidade. Trata-se de um conhecedor de futebol, inteligente, bom comunicador e que foi treinado por técnicos de qualidade durante a sua (relativamente curta) carreira. Agora, resta ver se o antigo internacional é capaz de ter enquanto treinador o sucesso que teve enquanto jogador…

 

Francisco Madureira

Nascido em Lisboa, sou louco por futebol desde que me lembro. Tenho mais jeito para ver e escrever do que para jogar. Cedo aprendi que é um jogo cruel, mas é também isso que o torna belo. Atualmente a licenciar-me em Ciências da Comunicação.