Quem te viu e quem te vê – Bojan Krkic

Fez a sua estreia recordista na equipa sénior do Barcelona em 2007 com apenas 17 anos e 19 dias, produto da La Masia, comparado desde cedo ao seu colega de equipa, que era o antigo detentor do recorde da estreia mais jovem do clube, Lionel Messi.

O jovem espanhol, Bojan Krkic tinha um caminho dourado pela frente, começando a sua carreira profissional de futebol no clube que reinava o futebol europeu, conquistou a Champions em 2009 e 2011 (Bojan integrou ambos estes plantéis) e sucessivamente campeão em Espanha. Colega de equipa de jogadores como Messi, Iniesta, Xavi, Henry, Eto´o e muitas outras estrelas. Para não falar do facto que foi lançado por Rijkaard e treinado durante anos por Guardiola.

Que mais faltava a um jogador de tremendo talento? A aposta foi forte desde cedo. Na sua época de estreia, 2007/2008, disputou 49 partidas (o maior número de sempre na sua carreira, com uma média de 46 minutos por jogo). No ano seguinte, do triplete na estreia de Guardiola a comando do clube, disputou 39 partidas, média de 43 minutos por jogo.

Um jogador promissor, que contribuía para uns 15-20 golos por época, mas frequentemente suplente e jogador de rotação. Um avançado móvel, utilizado em quase todas as posições do ataque, preferindo um papel mais móvel no corredor central, um segundo avançado à imagem de Messi.

Foram assim os seus anos no Barcelona, sem cumprir o seu verdadeiro potencial, apenas conquistando troféus a partir do banco. Em 2011, após conquistar a Champions e a LaLiga, começa a sua jornada para além do gigante catalão, vendido por 12 milhões à AS Roma.

Bojan disputou 37 partidas pelos italianos, sendo emprestado na época seguinte aos rivais do AC Milan, pelos quais disputou 27 partidas. Em 2013, o Barcelona recompra-o por 13 milhões de euros, uma clausula já definida na sua venda inicial à Roma (caso o clube não quisesse comprá-lo por 40 milhões seria vendido de volta por um milhão extra) e empresta-o ao Ajax, clube que representou 32 vezes.

Os números de jogos mantinham-se altos, mas poucas vezes rendia aquilo que prometia no início da carreira. Bojan é vendido um ano depois, de forma surpreendente, por 1,8 milhões ao Stoke City.

Ao serviço do Stoke, Bojan disputou 60 partidas em 2 anos e meio, partindo de novo em empréstimo para o Mainz no mercado de janeiro de 2017. Cumpriu o resto da temporada na Alemanha, jogando 11 vezes.

Iniciou a temporada 2017/2018 com o Stoke (jogou duas vezes), porém, no último dia do mercado de verão, foi emprestado ao Alavés, que representou na totalidade dessa época, 15 jogos.

Cumpriu a sua última temporada ao serviço do Stoke em 2018/2019, jogando 23 vezes, partindo para os América do Norte no verão, rumo ao Montreal Impact, a custo zero.

No restante da época da MLS de 2019, jogou 10 vezes, marcando três golos, continuando a pertencer aos quadros do clube do Canadá.

Uma das maiores promessas da La Masia após a geração de ouro de Messi, Xavi, Iniesta, Busquets e Piqué, que nunca cumpriu o seu verdadeiro potencial, por mais troféus que fosse acumulando e oportunidades que tivesse no clube que lhe deu a sua primeira oportunidade.

Bojan recentemente foi entrevistado pelo “The Guardian”, refletindo sobre a velocidade com que a sua carreira de alto nível no futebol começou e a intensidade da pressão a que foi sujeito. “Aos 17 anos, a minha vida mudou por completo. Fui para o Mundial sub-17 em julho e ninguém me conhecia, quando regressei nem podia andar na rua. Poucos dias depois fiz a minha estreia frente ao Osasuna, alguns dias depois joguei a Liga dos Campeões e mais tarde marquei frente ao Villarreal. Depois fui chamado à seleção. Tudo corria bem, mas a cabeça vai enchendo até o corpo dizer ‘pára’.”

Após a sua época de estreia, Luis Aragonés estava pronto para convocar o jovem talento para o Euro 2008, contudo, Bojan não conseguia lidar com a ansiedade que sentia e teve que recusar a oportunidade, “Quando chegou a altura, decidi que não podia ir ao Euro, que tinha de me isolar. Todos na federação sabiam o que se passava: Luis Aragonés [selecionador] e Fernando Hierro [diretor desportivo]. Um dia antes de anunciarem a convocatória, ligaram-me a dizer que ia ser chamado. Respondi: ‘Dói dizer isto, mas não posso’. Cheguei ao centro de treinos do Barcelona e Puyol disse-me que estaria sempre ao meu lado. Respondi: ‘Não posso, estou a tomar medicação. Estou no limite.”

Bojan sentiu-se traído pela imprensa quando saiu a manchete “Espanha chama Bojan, mas Bojan diz não”, “Esse título matou-me. Lembro-me de ser insultado em Murcia, as pessoas julgavam que era eu que não queria jogar. Foi duro, ainda que nessa altura não me importava com o que diziam as pessoas. O que magoa é que, alegadamente, esse título veio da federação. Como se falaram comigo no dia antes, sabiam o estado em que me encontrava, e depois sai aquele título? Senti-me muito sozinho. Ainda hoje me perguntam porque não fui ao Euro.”  Bojan recorda, “Passados dez anos, olho para trás e a reação não me surpreende. As pessoas sentem dificuldade em admitir que as coisas não estão bem e, no futebol, o que interessa é quando estás OK. E é esquecer o assunto.”

Atualmente, diz-se contente no Montreal Impact, aos 29 anos, fazendo aquilo que mais gosta, “Amo o futebol, é a minha vida”, mas nunca deixando para trás aquilo que aconteceu: “A cicatriz ainda está lá. Não abre, mas por vezes ainda a sentes, como uma lembrança.”

Ficou talvez uma carreira incrível por acontecer, contudo o caso de Bojan é especial. A conjuntura em torno da carreira do jogador espanhol levanta questões éticas e pertinentes sobre a atualidade do desporto e o bem-estar, especificamente psicológico, dos atletas que o praticam. No “Quem te viu e Quem te vê” olhamos para jogadores que prometeram o mundo, mas não conseguiram cumprir. São vários os fatores que trazem os jogadores a esta rubrica, más escolhas profissionais, problemas de atitude, lesões ou até más influências. Bojan Krkic levanta uma questão que o futebol em geral talvez tenha que ter mais em conta. A gestão mental dos jogadores, especialmente nas suas fases mais precoces da carreira, e os perigos que negligenciá-los podem criar.

 

José Horta

Não nasci a gostar de futebol, mas quando comecei nunca mais quis outra coisa. Algarvio de nascença mas adepto do futebol para além daquele que se joga na praia. Sempre atento aos contornos e novidades do "Desporto Rei", "Beautifull Game" ou lhe quiserem chamar. Aluno universitário de Ciências da Comunicação na FCSH.