Históricos: Moreirense e a Taça da Liga

São escassos os clubes além dos “três grandes” que conseguiram, até hoje, escrever o seu nome na lista de vencedores dos principais troféus nacionais de futebol deste país. Com isto, e por mais que custe admitir aos derrotados, sabe sempre bem ver um underdog subir ao pódio, principalmente em Portugal, pelo que hoje o Ambidestro apresenta mais uma partida que marcou a história do nosso desporto. A rúbrica desta semana fala então da final da Taça da Liga de 2017, encontro que ditaria um novo vencedor, oriundo de uma pequena vila do concelho de Guimarães chamada Moreira de Cónegos.

Com uma população que nem os 5000 habitantes atinge (4853), a pequena terra “agigantou-se”, graças ao Moreirense FC. Depois de ter subido pela terceira vez na história à primeira Liga em 2014 e de lá não ter saído mais, o modesto clube minhoto viria a desenhar a mais bonita página da sua história, desta feita na Taça da Liga. Após bater o Estoril-Praia pela margem mínima na segunda fase de qualificação (1-0) e de sair vencedor de um grupo onde constavam Belenenses, Feirense e o gigante FC Porto (equipa que derrotaram por 1-0, na derradeira jornada), o Moreirense conseguia um apuramento histórico para as eliminatórias da competição, onde continuaria a surpreender tudo e todos, vencendo o Benfica nas meias finais por uns expressivos 3-1 (a primeira vitória de sempre frente aos encarnados em jogos oficiais, até à data).

Chegavam então à tão ambicionada final. Após baterem os grandes da “invicta” e da capital, era a vez do SC Braga fazer frente a um Moreirense que parecia imparável na disputa pelo título de campeão de inverno.

Em pleno estádio do Algarve, os cerca de 7000 adeptos que compareceram constituíam um número um pouco aquém do que seria digno de uma final. No entanto, foi mesmo na bancada que se proporcionou espetáculo, já que, dentro de campo, a exibição foi algo pobre. Com Jorge Simão no comando dos arsenalistas, o Braga apresentou um jogo muito defensivo, tática mais do que assumida pelo técnico, mas que proporcionava um jogo longe de entusiasmar. Assim, com uma linha de centrais muito baixa e dois médios (Xeka e Battaglia) também muito juntos, os bracarenses fixavam-se no seu meio campo, jogando claramente em busca do erro do adversário.

O Moreirense, por sua vez, e embora não pudesse, com isto, explorar os espaços nas costas da defesa (como haveria feito diante do Benfica), não fez disso um drama, causando sérios calafrios aos rivais minhotos ao longo de praticamente todo o jogo. O avançado Roberto foi o primeiro a deixar o aviso, logo aos 5 minutos, com um remate sem muito perigo, mas que mostrava bem que os cónegos não vinham ao sul do país para passar férias. Ao quarto de hora foi a vez de Francisco Geraldes tentar a sua sorte de bola parada, mas, num livre praticamente frontal à baliza de Matheus, a bola acabaria por desviar na barreira, perdendo força e terminando nas mão do guardião, que a agarrou sem grande esforço.

Aos 38 minutos, o Braga parecia dar sinais de vida, acabando mesmo por introduzir a bola na baliza por meio de Stojilkovic, mas o lance seria anulado (e bem) por Artur Soares Dias. Faltava brilho ao jogo de parte a parte, com um Braga encostado às cordas, por um lado, e um Moreirense desinspirado na finalização, por outro.

Não obstante, seria no decorrer do derradeiro minuto da primeira parte que surgiria o lance decisivo do jogo. Numa das raras vezes em que os cónegos conseguiram de facto rasgar a linha defensiva bracarense, Francisco Geraldes chega atrasado apenas por uma unha negra a um passe milimétrico de Dramé, que termina intercetado por Matheus, mas o guarda redes acaba por efetuar uma abordagem algo descuidada ao lance, derrubando o jovem médio português pelo joelho com a sola da chuteira direita, embora já com a bola entre as mãos. Deste modo, e escapando ainda assim a uma possível sanção disciplinar, o guardião arsenalista causava uma grande penalidade no cair do pano. O médio Cauê, por sua vez, não vacilou, enviando o esférico para o fundo das redes, fazendo delirar os cerca de 1000 adeptos moreirenses presentes em Faro. Estava aberto o ativo e os cónegos davam assim um importantíssimo passo rumo a um sonho que parecera não passar disso mesmo, até então. Era, aliás, o primeiro golo na história do clube em finais nacionais.

As equipas recolhiam deste modo aos balneários e, apesar do mau comportamento dos adeptos do Braga, arremessando artefactos pirotécnicos aos jogadores verdes e brancos aquando das celebrações do golo (dois necessitaram mesmo de assistência médica), tais ocorrências não pareceram abalar o otimismo do Moreirense para a segunda parte. Ainda assim, foram os vermelhos e brancos que deixaram o primeiro aviso do segundo tempo, com um remate de Pedro Santos a sair ao lado da baliza do georgiano Makaridze, logos aos 48 minutos.

Os arsenalistas tentavam, mas a organização defensiva dos cónegos estava irrepreensível nessa noite, juntando-se esta a algumas desconcentrações bracarenses na construção de jogo. A partida continuava, assim, a carecer de oportunidades, com nova chance a surgir apenas no minuto 70, de novo por meio do sérvio Stojilkovic, respondendo quase de forma perfeita a um cruzamento de Rui Fonte, do lado direito do ataque dos arcebispos, mas com um cabeceamento a sair ligeiramente ao lado do poste direito da baliza dos vimaranenses.

A resposta não se fez tardar, com Daniel Podence, dois minutos depois e servido por Boateng, a ficar na cara do golo, mas a permitir uma excelente intervenção a Matheus, que mais uma vez se antecipou à bola, desta vez de forma perfeitamente legal. Tal jogada, ao que pareceu, fez despertar o ataque moreirense, com nova situação de perigo a ser desperdiçada por Francisco Geraldes, aos 77 minutos. Pouco depois, a oito minutos dos 90, foi a vez de Makaridze brilhar entre os postes, com uma intervenção soberba a um remate “à queima roupa” do suplente Rodrigo Pinho, naquela que foi a melhor oportunidade do Braga em toda a partida.

Terminando o tempo regulamentar, o quarto árbitro anunciou que se jogariam mais 5 minutos de futebol, tempo que se demonstrou mais do que suficiente para ainda se assistir a uma chance de cada lado. Aos 93 foram os cónegos que, após uma saída arriscadíssima de Matheus de entre os postes, poderiam ter sentenciado a partida, mas valeu ao Braga a falta de pontaria de Podence, que acabaria por falhar o alvo, embora a uma distância ainda considerável da baliza. Já para lá do tempo extra concedido pelo juiz da partida, foi o Braga quem ainda dispôs de um último esforço, mas valeu uma dupla intervenção do guardião georgiano, com Artur Soares Dias a apitar logo de seguida para o fim da partida, encerrando da melhor forma possível o conto de fadas dos vimaranenses. O troféu viajava assim de volta para Moreira de Cónegos como o primeiro grande título na história do clube verde e branco axadrezado.

17 anos depois, Augusto Inácio regressava aos títulos

Foi assim, pelas mãos do técnico Augusto Inácio, que o Moreirense inscreveu o seu nome na não muito extensa lista de clubes titulados em Portugal, terminando a prova com o melhor ataque (11 golos), sem qualquer derrota e passando a ser o primeiro clube de uma pequena freguesia a conquistar uma taça a nível nacional no futebol português. Com recordes atrás de recordes, pequena…só mesmo a vila.

Duarte Rosa

"Alfacinha" de gema, sportinguista de coração. Desde o clube à seleção nacional, o amor pela bola está presente desde cedo. A licenciar-se em Ciências da Comunicação, na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa, esta paixão pela escrita e pelo futebol forma uma dupla interessante, que espera vir a agradar aos seus leitores.