Julian Weigl – a nova estrela do Benfica

A contratação mais sonante do mercado de inverno, até ao momento, em Portugal trouxe Julian Weigl do Dortmund para o Benfica a troco de 20 milhões. O craque alemão já representou a seleção A alemã por cinco vezes, estreando-se em 2016. Weigl representou o colosso alemão por 171 jogos ao longo de quatro temporadas e meia, marcando quatro golos.

Contratado a troco de 2,5 milhões ao 1860 Munique, o médio alemão jogou duas épocas sob o comando de Thomas Tuchel, onde teve, provavelmente, o seu melhor rendimento pelo clube, seguido de uma época razoável treinado por Peter Bosz, onde se lesionou na fase final da temporada. O seu último ano e meio ao serviço do clube foi marcado pela perda de espaço na equipa, sendo a terceira opção para o setor recuado do meio-campo, atrás da dupla Witsel e Delaney, preferidos claramente por Lucien Favre.

Experiente, claro, mas com margem de progressão. Aos 24 anos de idade Julian Weigl tem anos de jogos ao mais alto nível do futebol europeu, entre Liga dos Campeões e Bundesliga. Contudo, as suas valências em campo, mesmo que variadas e notáveis em alguns aspetos, ainda podem melhorar. Veremos se Bruno Lage será capaz de orientá-lo para isso e recuperar a melhor forma do jogador.

 

Eis aquilo que o médio traz ao jogo do Benfica:

Polivalência

Certamente uma das maiores mais-valias num jogador moderno de meio-campo é a sua adaptabilidade e capacidade de ajudar a sua equipa em variadas funções. Em papel, Weigl faz três posições, sendo médio defensivo a sua escolha principal, mas também rendendo otimamente a médio centro e a central. A sua inteligência tática torna-o um jogador valioso em qualquer setor que desempenhe, especialmente no lado defensivo, compensando a sua falta de imponência física com astúcia e bom posicionamento.

Olhando para o seu tempo no Dortmund, Weigl disputou três partidas a médio-centro, 21 a central e 147 a médio-defensivo. O Benfica contratou-o para jogar na parelha habitual de meio-campo que Bruno Lage utiliza no seu 4-4-2, dando algum equilíbrio pelas suas competências defensivas e capacidade de quebrar linhas com os seus passes. Todavia, é útil saber que em caso de lesões, Weigl pode descer para central para ajudar a equipa, talvez algo que também deu ao clube o conforto de poder libertar Conti, restando três centrais puros.

Defender, bem, no meio-campo

Taarabt corre como nunca nas tarefas defensivas, Florentino recorda Kanté com a quantidade absurda de interceções que acumula jogo após jogo, mas Weigl traz ao Benfica uma qualidade defensiva sem precedentes talvez desde o pico de Fejsa, ou dos tempos de Matic. Sem dúvida que há boas opções para o meio-campo em termos defensivos, como já se referiu, Florentino dá ótimos sinais nesse departamento e a agressividade de Samaris é sempre uma boa opção. Contudo, Weigl, entrando neste lote de médios mais defensivos, ao contrário de Gabriel e Taarabt, traz ao miolo do Benfica uma grande inteligência defensiva e contenção impressionante.

Vejamos as estatísticas relativas à época 16/17, provavelmente a sua melhor no Dortmund, e a mais significativa de análise, pois jogou 30 vezes no campeonato, em média 80 minutos por jogo e exclusivamente na sua posição preferencial: 2.3 interceções, 2.2 desarmes e 1.2 cortes por jogo, fazendo apenas 1.1 faltas. Os números falam por si próprios, no seu melhor, Weigl contribui imenso para a solidez defensiva do Benfica, sem agressividade excessiva, número reduzido de faltas por jogo e raramente se encontra fora de posição para conter a oposição. Façamos o paralelo com Gabriel, de momento o mais defensivo da parelha Gabriel-Taarabt, o médio brasileiro apresenta: 1.8 interceções, 2.4 desarmes e 0.8 cortes por jogo, fazendo 1.7 faltas. Números bons, diga-se de passagem, mas inferiores aos do médio alemão.

Distribuição e presença na circulação 

Um médio-defensivo longe do tradicional “6”, talvez a maior arma de Weigl é a sua qualidade de passe. Bruno Lage privilegia uma boa circulação proveniente das suas unidades centrais, desde os defesas aos médios, ambos aos pares. Médios como Fejsa e Florentino ficam para trás na corrida pela titularidade, pela sua insuficiência na capacidade de passe, após a recuperação de bola (o caso do sérvio tem outras agravantes mas ele será vendido quase certamente, enquanto o jovem português é uma aposta a longo-prazo do clube).

Quebrar linhas e encontrar unidades criativas no último terço é uma das principais funções dos médios-centro de Lage, olhando para o exemplo de Taarabt, que frequentemente utiliza o drible e os passes tensos para o fazer, à semelhança de Gabriel que dá mais primazia aos passes, especialmente aos de maior distância, como as suas frequentes aberturas de jogo.

Apesar de ter um bom toque de bola e capacidade reação rápida com a posse, Weigl opera acima de tudo à base do passe. Tenta ser uma opção constante para os seus colegas nas proximidades e beneficia de uma excelente visão de jogo para projetar a equipa ofensivamente. Seguindo a análise da época 16/17, eis os números interessantes: 80.1 toques, 0.2 passes decisivos, 33.5 passes eficazes no próprio meio-campo (94% eficácia), 27.0 passes eficazes no campo adversário (84%) e 2.7 bolas longas por jogo (55%). É importante referir que na passada meia época, houve uma evolução notória na última estatística, onde registou 5.5 por jogo com 77% de eficácia.

A sua presença no jogo é evidente. Recuperando a sua melhor forma dos tempos do Dortmund, especialmente com mais liberdade que o nosso campeonato certamente lhe irá garantir no meio-campo, Weigl pode demonstrar toda a sua capacidade de influenciar a construção de jogo ofensiva ao serviço dos encarnados.

Para método de comparação, vejamos os números desta época de Taarabt no campeonato, a unidade mais criativa do Benfica no seio do meio-campo: 60.8 toques, 0.8 passes decisivos, 19.2 passes no próprio meio-campo (94%), 23.2 passes no meio-campo adversário (81%), 3.1 bolas longas por jogo (77%). Claramente há uma distinção entre os dois, no que toca ao raio de ação que ocupam no campo, a diferença no número de passes decisivos evidencia isso mesmo, com o marroquino a ocupar áreas mais ofensivas do campo e Weigl mais recuadas, tal como Taarabt utilizar imenso o dribble na sua capacidade de construção, enquanto que para Weigl é algo mais secundário. Contudo, as estatísticas mostram a presença que o alemão consegue ter na construção de jogo.

 

Weigl, contudo, não é perfeito. Equilibrado e polivalente, claro. Porém, o seu jogo precisa de afinações, como foi referido anteriormente, e isso reflete-se principalmente nos duelos. A sua inteligência permite-lhe evitar o confronto físico e as disputas de bola, mas quando chega a altura de o fazer, o atleta não está na sua zona de conforto, como mostram os 3.4 duelos por jogo ganhos por jogo (60% ganhos). Não é necessariamente uma fraqueza, mas certamente um aspeto a melhorar, especialmente considerando a capacidade de “batalhar” dos médios de Lage.

Uma contratação destas, com 20 milhões associados e um furor quase sem precedentes nas redes sociais, significa que Weigl tem que chegar, ver e vencer (para bem dos benfiquistas, ao contrário de Raúl de Tomás). Pode haver um período de adaptação, mas com base naquilo que já mostrou num clube de topo e na experiência que tem, Weigl deverá encaixar-se neste Benfica como uma luva.

Aos olhos de Bruno Lage, Weigl garante mais equilíbrio defensivo que Taarabt e Gabriel, ao mesmo tempo que dá mais qualidade de passe que Florentino e Samaris. Seguindo os últimos jogos como o registo das suas preferências no meio-campo, Weigl deverá ser o homem que ocupa um papel ligeiramente mais defensivo na dupla, garantindo um pouco mais de liberdade a Gabriel ou a Taarabt.

Mediante as preferências do treinador, Weigl tanto pode fazer parceria com Taarabt, soltando o marroquino nas suas incursões ofensivas, talvez mais apropriado para partidas onde o Benfica tem mais bola, tal como com Gabriel, onde a circulação ganha maior critério e paciência, preferível em jogos mais disputados e equilibrados.

Em suma, Weigl é uma contratação, em teoria, acertada, pela forma como encaixa perfeitamente no meio do espetro ofensivo-defensivo dos médios ao dispor de Bruno Lage (Taarabt como o mais ofensivo, seguido de Gabriel, Samaris e Florentino como o mais defensivo). A sua solidez defensiva e qualidade de passe garantem que o Benfica consegue manter o nível de criação de oportunidades sem sacrificar a consistência defensiva, pois ao mesmo tempo que um dos criativos (Taarabt ou Gabriel) terá que sair para dar lugar ao alemão, o que ficar terá uma maior liberdade para definir jogadas aliada aos excelentes passes de Weigl.

A contratação parece acertada na teoria, por um valor surpreendente considerando a qualidade e experiência do jogador. Com a suspensão de Taarabt para o próximo jogo das águias diante do CD Aves, talvez esteja iminente a oportunidade de ver Julian Weigl jogar pelos encarnados e perceber o calibre do jogador alemão.

 

Fique com alguns dos melhores momentos de Julian Weigl:

José Horta

Não nasci a gostar de futebol, mas quando comecei nunca mais quis outra coisa. Algarvio de nascença mas adepto do futebol para além daquele que se joga na praia. Sempre atento aos contornos e novidades do "Desporto Rei", "Beautifull Game" ou lhe quiserem chamar. Aluno universitário de Ciências da Comunicação na FCSH.