Opinião: Portugal (também é) dos pequeninos

Recentemente foi-me dada a conhecer uma notícia, na qual se afirmava que a “Liga Portuguesa é a 18ª melhor do Mundo (…)”. Provavelmente muitos dos leitores não tinham conhecimento da mesma e muitos poderão, inclusive, considerar tal facto chocante, principalmente ao constatar-se que nos encontramos atrás de campeonatos como o da Roménia (10º lugar) ou até o do Paraguai (11º). Muitos perguntarão “como?”, mas eu pergunto “como não?”. Para um país no qual, dos 18 clubes na primeira liga, apenas três têm tempo de antena digno de registo, até me surpreende não estarmos mais abaixo nesta tabela.

Mesmo não contando com os três ditos “grandes”, nota-se um padrão algo interessante na nossa Liga. Além dos principais centros urbanos (Lisboa e Porto), a larga maioria dos clubes do campeonato português está situada no centro e norte litoral ou junto das maiores cidades do país, exceção feita ao CD Tondela, ao Portimonense SC e aos dois atuais representantes das ilhas (CD Santa Clara e CS Marítimo). Uma estatística que reflete bem o mapa geopolítico de Portugal, onde vemos um abandono progressivo das terras do interior e do sul. Logicamente que estes factos se refletem também nas capacidades, financeiras e não só, dos respetivos clubes, onde equipas que fogem à realidade das grandes urbes acabam, mais cedo ou mais tarde, por apresentar claras dificuldades na manutenção do seu posto na primeira divisão, sendo também raras as exceções a esta regra.

Culpemos o governo, culpemos as autarquias, culpemos a federação, culpemos os próprios clubes…poderia ficar aqui a atribuir culpas a meio mundo, mas hoje venho falar daquele que, na minha opinião, é o principal culpado de tal desnivelamento no nosso campeonato: o adepto.

Já vão largos os anos desde a última vez em que se via com regularidade um estádio em Portugal a “rebentar pelas costuras” num jogo que não envolvesse Sporting, Porto ou Benfica. Hoje em dia, tirando estes, apenas o Vitória SC parece ser dos poucos capaz de fugir a esta estatística. Quero com isto dizer, muito diretamente, que, ao contrário do que sucede em grande parte das restantes ligas europeias, no nosso país não existe, de maneira alguma, uma cultura de apoiar o clube local. “If you can’t beat them, join them”, reza o ditado britânico, e parece que, neste cantinho à beira mar, o mesmo se tornou o credo dos adeptos do futebol. A conclusão que eu posso tirar disto é que os portugueses não têm orgulho nas suas origens, desportivamente falando, pelo menos.

Sempre existiu a velha desculpa “apoio um dos grandes porque os outros não ganham nada”, mas já alguém pensou, porventura, que talvez os ditos “outros” não ganhem nada porque ninguém os apoia? Toda e cada cidade, vila, aldeia, localidade tem a sua história e são essas origens que cada clube carrega no símbolo que os jogadores levam ao peito, mas parece que o mais importante nos dias de hoje é poder ir celebrar para os Aliados ou para o Marquês num domingo à noite em Maio.

Se os madeirenses soubessem que foi na freguesia da Camacha que pela primeira vez se jogou futebol em Portugal, talvez os clubes insulares tivessem mais adeptos. Se as gentes de Viana do Castelo soubessem que o Sport Clube Vianense é o clube mais antigo do país ainda no ativo, talvez este emblema não militasse nos campeonatos distritais de momento.

Não sou ingénuo, atenção. Obviamente que não basta a um clube ter adeptos para alcançar o sucesso desejado, mas o mesmo se pode dizer do ténis de corrida: não preciso deles para correr uma maratona, mas são, garantidamente, uma ajuda preciosa. Com isto, tenho a certeza de que, se os clubes “pequenos” recebessem a mesma atenção que recebem os “grandes”, a nossa liga seria um campeonato muito mais interessante do ponto de vista da competitividade.

Eu posso parecer hipócrita a escrever sobre este tema enquanto sportinguista, mas enquanto lisboeta, geograficamente falando, não me via nem me vejo a apoiar outro clube senão este. É o meu clube, pois é a minha cidade. Oxalá todos pensassem do mesmo modo…

Duarte Rosa

"Alfacinha" de gema, sportinguista de coração. Desde o clube à seleção nacional, o amor pela bola está presente desde cedo. A licenciar-se em Ciências da Comunicação, na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa, esta paixão pela escrita e pelo futebol forma uma dupla interessante, que espera vir a agradar aos seus leitores.