Quem te viu e quem te vê: Hatem Ben Arfa

No “Quem te viu e quem te vê” desta semana, olhamos para a carreira de Hatem Ben Arfa, médio criativo outrora considerado uma das maiores promessas do futebol francês que nunca conseguiu brilhar ao mais alto nível. Descubra porquê.

À semelhança de grandes futebolistas franceses como Thierry Henry, Nicolas Anelka, William Gallas, Blaise Matuidi, Kylian Mbappé ou Olivier Giroud, Hatem Ben Arfa passou por Clairefontaine, a prestigiada academia nacional da Federação Francesa de Futebol, e concluiu a sua formação no Lyon, clube pelo qual cumpriu a sua estreia profissional em 2004, com apenas 17 anos.

Nas suas primeiras três épocas, Ben Arfa não se conseguiu impor como titular, somando apenas 48 jogos ao longo dos quais só conseguiu apontar quatro golos e cinco assistências. Contudo, na temporada seguinte, o atleta mostrou tudo o que tinha para oferecer ao futebol, de bom e de mau. Dentro de campo, teve a melhor época da sua carreira até então, comprovado pelas 43 partidas realizadas e os oito golos e cinco assistências para a sua conta pessoal, bem como pela conquista do galardão de melhor jovem jogador da Ligue 1. Fora de campo, começavam a surgir os problemas. Em março de 2008, numa sessão de treinos, Ben Arfa envolveu-se numa briga com o colega de equipa Sébastien Squillaci. Este episódio conjugado com a sua ausência dos treinos acabaram por ditar a sua saída para o Marselha, a troco de doze milhões de euros, no verão do mesmo ano, abandonando assim o Lyon com quatro Campeonatos, uma Taça de França e três Supertaças ganhas.

No entanto, a mudança de clube não foi acompanhada por uma mudança de atitude. A sua primeira época no Vélodrome ficou marcada por uma elevada irregularidade (tendência que se manteve ao longo de praticamente toda a carreira) e manchada por incidentes de discussões verbais e físicas com colegas de equipa (Djibril Cissé e Modeste M’bami) e por se ter recusado a entrar em campo vindo do banco num jogo contra o PSG, alegando que estava lesionado.

Na temporada seguinte, Didier Deschamps substituiu Eric Gerets no comando técnico do Marselha e a relação entre este e o atleta nunca foi a melhor. Logo em outubro, Ben Arfa foi multado em dez mil euros por faltar a uma sessão de treinos, perdendo assim a confiança do treinador que só apostou regularmente no médio atacante na segunda metade da época. Ainda assim, o jogador conseguiu acrescentar uma Ligue 1, uma Supertaça e uma Taça da Liga ao seu palmarés no fim da mesma.

Chegando ao verão de 2010, começaram a surgir rumores do interesse do Newcastle no francês. Começou assim uma novela em que Ben Arfa tudo fez para forçar uma saída, desde declarar que nunca mais jogaria pelo emblema do sul de França, a afirmar que a sua relação com Deschamps era emendável e até a viajar para a cidade inglesa sem permissão do clube para tentar facilitar as negociações. O atleta acabou por conseguir o que queria, tendo os dois clubes acordado um empréstimo por dois milhões de euros no verão de 2010, que acabou por se tornar num vínculo permanente no mercado de inverno que se seguiu a troco de seis milhões de euros. Ao todo, em 91 jogos ao serviço do Marselha, Ben Arfa apontou 15 golos e 12 assistências.

A primeira época em Newcastle foi para esquecer para o criativo jogador. Logo na sua quarta partida, num lance disputado com Nigel de Jong do Manchester City, o francês fraturou a tíbia, ficando fora da lista de convocados para o resto do ano. Esta acabou por ser uma amostra do que viria a ser a sua passagem por Inglaterra. Ao todo, o atleta contraiu cinco lesões e falhou 59 partidas por este motivo em quatro temporadas no Newcastle. Os adeptos dos Magpies acabaram por ficar com uma sensação amarga em relação a Ben Arfa por terem vislumbrado momentos de génio que acabaram por ser interrompidos por sucessivas lesões mas também pela própria inconsistência do jogador. Foi assim que, em setembro de 2014, o médio ofensivo partiu para o Hull City a título de empréstimo, deixando para trás um registo de 14 golos e 16 assistências em 86 jogos pelo Newcastle.

O seu período em Kingston upon Hull acabou por ser uma das piores fases da carreira de Ben Arfa. Após ter registado somente nove presenças em campo na primeira metade da época 2014/15, o francês saiu inesperadamente do país tendo inclusivamente o próprio técnico do Hull City (Steve Bruce) afirmado não saber do paradeiro do jogador. O atleta acabou por ser devolvido ao Newcastle e, pouco tempo depois, rescindiu contrato com o clube. Ben Arfa abandonava assim um clube de forma polémica uma vez mais.

Após quatro anos e meio em que nunca conseguiu jogar consistentemente com um bom rendimento, Ben Arfa entendeu que um regresso ao país-natal seria a melhor opção e assinou um contrato de um ano com o Nice em janeiro de 2015. Porém, como havia feito uma presença pelos sub-23 do Newcastle antes de rumar ao Hull, os regulamentos da FIFA não autorizaram que o jogador alinhasse pelo Nice nessa época uma vez que só é permitido representar um máximo de dois clubes por temporada.

Assim sendo, o atleta teve de aguardar até agosto para fazer a sua estreia. A espera acabou por compensar. A temporada 2015/16 foi, sem dúvida, a melhor da carreira de Ben Arfa. O jogador conseguiu finalmente alcançar a regularidade que procurava e manteve-se livre de lesões, tendo feito as redes adversárias abanar por 18 ocasiões e fornecido sete passes para golo para os seus companheiros ao longo de 37 jogos. Premiando as suas excelentes exibições, foi eleito para o onze do ano da Ligue 1.

Depois do impressionante registo em Nice, surgiu em Paris a crença de que o francês estava apto para subir de patamar. Foi neste contexto que o Paris Saint-Germain ofereceu ao jogador um contrato de dois anos na capital francesa. Este era o maior desafio da carreira de Ben Arfa e, novamente, acabou por ser uma desilusão. Fruto da elevada competitividade no plantel e de uma lesão que o pôs fora das quatro linhas durante quase quatro meses, o médio só completou dez jogos a titular (32 ao todo) e apontou uns modestos quatro golos e sete assistências. A nível coletivo, o PSG conquistou uma Supertaça, uma Taça de França e uma Taça da Liga.

Na janela de transferências do verão de 2017, o PSG tentou vender o passe do francês. Contudo, o jogador recusou as ofertas apresentadas e, como forma de punição mas também de o pressionar para sair do clube, foi afastado das escolhas de Unai Emery durante a época 2017/18 inteira, não tendo entrado em campo uma única vez. Começou inclusivamente uma batalha judicial entre atleta e clube na qual os representantes do francês exigem uma indemnização ao emblema da capital pela forma como foi tratado.

Ultrapassado mais um período negro na sua carreira, Ben Arfa assinou novo contrato de um ano, desta vez com o Rennes. Neste clube, o médio ofensivo teve uma campanha interessante com nove golos e seis assistências em 41 jogos. Para além deste bom registo, Ben Arfa teve ainda o prazer de derrotar a sua anterior equipa na final Taça de França, jogo no qual o francês cobrou um dos penaltis que ajudaram a levar a sua equipa à vitória. Bem à sua maneira, o jogador comemorou a conquista com festejos e afirmações provocatórias.

Apesar de na temporada transata se ter apresentado a bom nível, Ben Arfa esteve até agora sem clube. No entanto, num dos últimos dias da janela de transferências de inverno que agora encerrou, o Real Valladolid anunciou a sua contratação. Aos 32 anos, esta poderá ser uma das últimas oportunidades para o francês demonstrar todo o seu talento.

Na cerimónia de apresentação no seu novo clube, foi lhe pedido que desse toques de cabeça, mas, tal como pode ver no vídeo abaixo, o jogador recusou fazê-lo para não se despentear. Este momento resume a carreira de Hatem Ben Arfa. Jogador com enormíssimo e inegável talento, capaz de driblar e humilhar defesas inteiras, com uma velocidade e capacidade técnica muito acima da média, detentor de notável meia-distância, enfim, o francês embeleza um jogo de futebol e vê-lo jogar num “dia sim” vale o bilhete do jogo. No entanto, os “dias sim” não surgiram com a devida frequência, por vezes por lesões de que foi vítima, mas muitas mais vezes por falta de profissionalismo, esforço e mau temperamento. Quem sabe o que teria sido deste jogador se tivesse outra atitude…

 

Observe alguns dos melhores momentos de Hatem Ben Arfa:

 

Fonte da Imagem: Getty Images

Simão Vitorino

Nasci e cresci em Vila Franca de Xira e estou atualmente a tirar uma licenciatura em Ciências da Comunicação na faculdade NOVA FCSH com o objetivo de me tornar jornalista desportivo no futuro, profissão que une duas grandes paixões minhas - o futebol e a escrita.