A caminhada histórica que resultou no cantinho do Morais

Morais, de canto direto, apontou o golo da vitória dos leões na, agora extinta, Taça das Taças. Após a conquista da Taça de Portugal em 1963, os leões fizeram uma caminhada inesquecível rumo à final da prova que juntava os vencedores das taças internas de cada país, e só pararam quando o caneco aterrou em Portugal.

Decorria o época de 1962/63 e o Sporting chegava ao Jamor para, na final da taça, defrontar a formação do Vitória de Guimarães. O resultado foi um pouco desnivelado e o Sporting acabou por vencer tranquilamente por 4-0 e assim o guarda redes Carvalho , bem no topo da tribuna do Jamor, erguia a sexta Taça de Portugal da história do clube.

Taça de Portugal conquistada era sinónimo de passaporte garantido para a Taça das Taças. A epopeia teve início a 4 de setembro de 1963 e não começou da melhor forma, o Sporting defrontou o vencedor da Taça de Itália na primeira eliminatória da prova, o Atalanta, e na primeira mão, em solo italiano, os leões perderam por 2-0. Contudo, um mês depois, no reino do leão, os verde e brancos venceram por 3-1. Com o empate nas duas mãos (3-3), a eliminatória foi levada para o terceiro e derradeiro jogo, em campo neutro (ainda não existia a vantagem dos golos fora como forma de desempate). O jogo que ditava qual a equipa que passava à seguinte eliminatória foi realizado em Barcelona e a turma de Alvalade iria repetir o resultado de Lisboa. 3-1.

Nos oitavos de final da Taça das Taças, o Sporting jogou frente o Apoel de Nicósia, vencedor da Taça do Chipre. Devido à instabilidade política no Chipre e aos problemas financeiros do clube, as duas mãos foram realizadas em Alvalade. Na primeira mão, os da casa meteram toda a artilharia em campo e fuzilaram o adversário. 16-1 e o recorde de maior goleada de sempre numa prova realizada pela UEFA. Na segunda mão, a pontaria desafinou e os leões “apenas” venceram por 2-0.

Quartos de final da prova e calha ao Sporting Clube de Portugal a equipa mais temida da Europa, o Manchester United de Nobby Stiles,  Denis Law (Bola de Ouro de 1964), George Best (Bola de Ouro em 1968) e Bobby Charlton (Bola de Ouro de 1966). A primeira volta foi em Old Trafford e aconteceu o que estava previsto, os leões foram banalizados pelos diabos ingleses, que venceram confortavelmente a partida por 4-1. Resultado impossível de reverter em Lisboa. Impossível? Talvez para os mortais sim, mas para estes senhores não. Com o Alvalade a rebentar pelas costuras, os jogadores leoninos escreveram aquela que é, sem dúvida, uma das páginas mais bonitas da história do clube. 5-0 frente ao todo poderoso de Inglaterra. Até hoje, é a maior derrota de sempre do clube inglês nas competições europeias. No dia seguinte, os jornais ingleses afirmavam que tinha passado um furacão em Alvalade e não estavam errados. Caiu por terra o maior favorito à conquista da prova e o Sporting começavam a imaginar a hipótese da conquista da mesma.

Meias finais. Vencedor da Taça de França. Olympique Lyonnais. O 0-0 em França na primeira mão fazia com que os leões tivessem um pé na final que iria ser realizada na Bélgica. Contudo, 1-1 em Alvalade fez com que o segundo pé demorasse mais a aterrar na Bélgica e obrigou as duas equipas a irem ao terceiro jogo. Um golo solitário de Osvaldo Silva no terceiro jogo, confirmou a presença dos leões na grande final da competição.

A final frente aos húngaros do MTK de Budapeste começou mal mesmo antes do arbitro ter dado o apito inicial. No jogo antes, frente ao Vitória de Setúbal, Hilário parte uma perna e fica impedido de jogar o tão desejado jogo. Sem Hilário, o Sporting empatou a final em Heysel por 3-3 o que levou, uma vez mais, a um jogo de desempate.

Morais, que não seria convocado caso Hilário estivesse em condições, afirma que acordou no dia da finalíssima e disse para Carvalho “Sabes uma coisa? Sonhei que nós tinhamos ganho o jogo 1-0… Marquei um canto direto e nós ganhamos 1-0…“, ao que Carvalho ripostou, dizendo “Oh, estás é a mentir!“, surpreendido. Morais responde “Sabes que eu não sou aldrabão nem gosto de mentir!“. Se é verdade ou se foi só dito para dar brilhantismo à história, ninguém sabe, mas o que é facto é que aconteceu.  Na derradeira final, ao minuto 19, Artur Agostinho relata: “Morais tem a bola no quarto circulo, prepara-se para bater na direção da baliza de Kovalick. A bola vai partir, partiu, com boa conta, para a baliza… Golo! Golo! Golo!” Momento imortal. Bastou um golo, de Morais, de canto direto, para a conquista da Taça. Momento que ficará para sempre na história de um clube e de uma nação.

Alexandre Ribeiro

Nascido e criado na ilha Terceira, nascido e criado para o futebol. Desde cedo aprendi, vivi e vibrei com o desporto rei. A licenciar-me em Ciências da Comunicação na FCSH da Universidade Nova de Lisboa. Com o futebol e a escrita espero proporcionar um espectáculo fora das 4 linhas para todos aqueles que partilhem o gosto pela bola e pelos seus artistas.