A emoção no último golo relatado por Jorge Perestrelo

O mítico Jorge Perestrelo apresentou-se pela última vez ao serviço para relatar a passagem histórica do Sporting à final da Taça UEFA em 2005, conquistada em solo holandês, frente ao AZ Alkmaar.

Se é um habitual ouvinte de relatos desportivos, então certamente conhece o incontornável relatador angolano; detentor de expressões que se tornaram históricas no mundo do futebol como “ripa na rapaqueca” e “essa até eu marco com a minha barriguinha!”, Jorge Perestrelo mostrou ao mundo como relatar um golo também pode ser uma arte.

Jorge começou desde cedo a trabalhar na rádio; primeiramente no seu país de origem, a Angola, depois passou uns anos pelo Brasil, até que chegou a Portugal. Em terras lusas, passou pela Rádio Comercial, teve uma longa passagem pela SIC onde estava em tudo o que metia bola ao barulho, mas o sítio em que se tornou um imortal foi na TSF, onde se limitava a fazer o que mais gostava, relatar jogos de futebol.

Infelizmente, teve um fim antes do previsto, uma doença cardiovascular tirou-nos demasiado cedo aquele que é considerado um dos melhores relatadores do futebol português de todos os tempos.

O último jogo foi, curiosamente, uma partida do “seu” Sporting. Os leões disputavam a 2ª mão da meia-final da Taça UEFA (agora denominada de Liga Europa). Jogavam o derradeiro confronto na Holanda, em casa do AZ Alkmaar, após terem vencido a primeira mão, em Alvalade, por 2-1.

Os adeptos ainda não estavam todos sentados e o AZ já tinha feito o primeiro; aos 5 minutos, Kenneth Pérez, avançado dinamarquês, empurrou a bola para o fundo das redes de Ricardo. Neste momento, a equipa de Alvalade estava fora da competição, por isso necessitava de um golo, e foi o que aconteceu, em cima do intervalo, Liedson, o eterno 31, marca e restabelece a igualdade na partida e dá vantagem aos leões na eliminatória. Só restava aos holandeses arregaçar as mangas e “ir para cima” do Sporting, em busca de um golo que empatasse por completo a eliminatória, dito e feito, aos 78 minutos o AZ marcou e “atirou” a partida para prolongamento. Os holandeses, não tiraram o pé do acelerador e aos 109 minutos fizeram o 3-1, que lhes dava o bilhete para a final.

Os holandeses já preparavam os foguetes para atirar, quando o juiz Claus Bo Larsen indica um pontapé de canto para o Sporting. Miguel Garcia, de cabeça após o canto, já em tempo de descontos faz o 3-2, o Sporting fica em vantagem na eliminatória devido aos golos fora e ganha o acesso inédito à final que iria ser disputada em sua casa. “Último minuto da partida. Último minuto Sporting… Vai ser levantado o pontapé de canto lá pela esquerda. Pontapé de canto vai ser levantado. Coração da área… Golo, golo, golo, (…), golo… Eu te amo, eu te amo Sporting, eu te amo Sporting… Que bonito é…”. E assim foi. Estas foram das últimas palavras pronunciadas por Jorge Perestrelo. Um dia após este extravasar de emoções, Jorge faleceu.  O mais importante para o relatador, o futebol e o Sporting, deram o remate final no seu jogo da vida.

Admirado por todos, idolatrado por alguns e alcançado por nenhum, Jorge Perestrelo alcançou um patamar único e nunca antes visto na arte de relatar o desporto rei. Com o relato deste golo histórico, o mesmo eternizou-se. Esteja onde estiver, Jorge certamente está a relatar futebol, sempre bem disposto e inovador. Obrigado por me teres inspirado a mim e a milhares de outras pessoas que também sonham vibrar e fazer os outros vibrarem com o que nos faz feliz, o futebol. Obrigado e até um dia, Jorge Perestrelo.

Alexandre Ribeiro

Nascido e criado na ilha Terceira, nascido e criado para o futebol. Desde cedo aprendi, vivi e vibrei com o desporto rei. A licenciar-me em Ciências da Comunicação na FCSH da Universidade Nova de Lisboa. Com o futebol e a escrita espero proporcionar um espectáculo fora das 4 linhas para todos aqueles que partilhem o gosto pela bola e pelos seus artistas.