Quem te viu e quem te vê: Adriano, o Imperador

No “Quem te viu e quem te vê” desta semana, recordamos a peculiar carreira do ponta-de-lança brasileiro Adriano, em tempos apontado como o sucessor de Ronaldo, o Fenómeno, mas cuja falta de ética acabou por contrariar o trajeto ascendente da sua carreira.

Adriano nasceu (1982) e cresceu na Vila Cruzeiro, uma das favelas mais problemáticas do Rio de Janeiro. Foi justamente no Flamengo, emblema desta cidade, que o jogador cumpriu a sua formação e se estreou no futebol profissional em 2000, poucas semanas antes de completar 18 anos, isto depois de ter conquistado um Mundial sub-17 pelo Brasil.

O avançado esteve em destaque na sua época inaugural, apontando oito golos em 27 jogos e conquistando assim a sua primeira presença numa convocatória da “canarinha” no final da mesma. O potencial demonstrado pelo jogador bem como a sua velocidade, potência e precisão de remate, domínio físico e capacidade de drible convenceram o Inter de Milão a investir na sua aquisição apenas um ano e meio depois de este se estrear.

O brasileiro ainda passou a primeira metade da época 2001/02 na capital da moda. Contudo, devido à elevada concorrência e qualidade no plantel do Inter na altura, Adriano não teve muitos minutos de jogo, registando apenas um golo. Assim, a solução mais adequada foi a do empréstimo. Até ao final da temporada, o brasileiro representou as cores da Fiorentina, onde somou seis golos em quinze jogos. Posteriormente, seguiu-se um empréstimo de ano e meio ao Parma. Neste emblema, a sua veia goleadora esteve bastante ativa uma vez que fez as redes adversárias abanar por 27 ocasiões em 44 jogos. Com mais experiência e provas dadas em Itália, havia chegado a altura de regressar ao colosso italiano.

Assim, a meio da época 2003/04, Adriano voltou para o Inter e manteve a boa forma demonstrada na primeira metade da mesma, tal como é verificado pelos doze tentos somados ao longo de 18 partidas. Foi neste contexto que surgiu a alcunha de “Imperador”, referência a um antigo governante romano que partilhava o nome com o brasileiro.

As boas exibições levadas a cabo pelo jogador valeram-lhe não só a titularidade no conjunto italiano, como também na seleção brasileira que disputou a Copa América no verão de 2004. Nesta, o Brasil não só levou o “caneco” para casa, como também teve o melhor marcador e jogador da competição, ambos na pessoa de Adriano. No entanto, após uma das maiores alegrias da sua vida, veio uma das suas maiores tristezas.

Em agosto de 2004, o pai de Adriano faleceu aos 45 anos vítima de ataque cardíaco. Desde então, nada na vida do brasileiro foi o mesmo. Apesar de na época seguinte o avançado ainda ter conseguido manter um notável registo de 32 golos (melhor da sua carreira) e de ter conquistado a Taça da Confederações pelo Brasil em 2005 ( na qual foi o melhor jogador), a nível pessoal a sua vida estava a deteriorar-se, mergulhando numa depressão e num vício alcoólico.

Os problemas pessoais começaram a ter consequências a nível profissional. Nas duas épocas que se seguiram (2005/06  e 2006/07), o rendimento desportivo do atacante desceu a pique. Em 79 jogos, o atleta apontou somente 26 golos, ficando bem abaixo dos números que havia conseguido anteriormente. No Mundial de 2006, no qual o Brasil foi eliminado nos quartos de final, Adriano foi alvo de duras críticas por parte da imprensa brasileira devido às suas exibições.

Na temporada 2007/08, Roberto Mancini, treinador dos nerazzuri, nem sequer inscreveu o avançado na Liga dos Campeões. A acrescentar a tudo isto, existia ainda o facto de o atleta ter dificuldades em manter o peso ideal para um atleta de alta competição.

Mais tarde foi o próprio brasileiro a desabafar acerca desta fase da sua vida: “Só eu sei aquilo que sofri. A morte do meu pai deixou um enorme vazio na minha vida. Sentia-me muito sozinho. Depois da sua morte tudo ficou pior, porque senti que estava totalmente isolado. Estava sozinho em Itália, triste, deprimido, e comecei a beber. Só estava feliz quando bebia e fazia isso todas as noites. Bebia tudo aquilo que colocava nas mãos: vinho, uísque, vodka, cerveja. Não parava de beber e no final tive que deixar o Inter. Não sabia como esconder, chegava bêbado aos treinos. Ia sempre, mesmo que estivesse totalmente bêbado e depois era levado pelos médicos para a enfermaria. O Inter dizia para a imprensa que tinha problemas musculares”.

Foi assim que, no início de 2008, Adriano regressou ao seu país para representar o São Paulo a título de empréstimo de seis meses com o objetivo de voltar aos eixos. O canhoto conseguiu apresentar prestações satisfatórias, terminando a sua estadia no clube Paulista com um interessante registo de 17 golos em 28 jogos.

Assim, em Itália, voltou a haver esperança no talento do jogador. Porém, regressado ao Inter, o atleta só conseguiu colocar a bola nas balizas adversárias por sete vezes em toda a época 2008/09 e, em abril de 2009, este abandonou os treinos da equipa e viajou para o Brasil sem autorização do clube, causando assim a rescisão do seu contrato. Apesar do melhor ou pior rendimento, Adriano abandonou o histórico italiano com quatro Ligas Italianas, duas Taças de Itália e três Supertaças conquistadas e ainda um total de 74 golos em 177 jogos.

Um mês depois da sua despedida de Milão, Adriano regressou a casa, ou seja, ao Flamengo e, no seu primeiro ano de volta ao Rio de Janeiro, voltou a ter sucesso. A nível coletivo, os rubro negros venceram o Campeonato Carioca e o Campeonato Brasileiro. Nesta competição, o avançado foi o melhor marcador a par de Diego Tardelli com 19 golos e ainda o melhor jogador.

Porém, em 2010, o cenário inverteu-se. Apesar de o brasileiro ter assinado um razoável registo de quinze golos, os adeptos do Flamengo descarregaram a frustração de o clube ter tido um mau desempenho nas diferentes competições nos ombros de Adriano devido ao facto de este ser a estrela da equipa, mas também pelas polémicas em que este se envolveu na altura – ida a festas depois de jogos, conflitos públicos com a sua mulher, recaídas no vício do álcool, envolvimento com traficantes de droga e divulgação de fotos em que o jogador segurava armas de fogo.

Apesar de tudo o que se passava à sua volta, Adriano retornou a Itália em junho de 2010 para assinar um contrato de três anos com a Roma. O jogador tinha assim mais uma oportunidade para vingar no futebol europeu. Contudo, esta acabou por ser desperdiçada. A sua passagem pela capital italiana foi desastrosa, tendo o ponta-de-lança entrado em campo por apenas oito vezes (sem nunca fazer as redes abanar) antes de o clube ter rescindido contrato com o mesmo por comportamentos inadequados fora de campo em março de 2011.

Poucas semanas depois da última rescisão, Adriano assinou pelo Corinthians mas, quer devido a uma grave lesão no tendão de Aquiles, quer por opção de Tite, então treinador do Timão, o canhoto teve poucas oportunidades de jogo, tendo o Imperador sido visto em campo por somente sete ocasiões (marcou dois golos). Uma vez mais, o brasileiro viu o seu vínculo rescindido por motivos indisciplinares em março de 2012.

Posteriormente, seguiu-se uma terceira passagem pelo Fluminense. Nesta, Adriano não fez um único jogo pelo clube dado que este se voltou a envolver em polémicas (saídas ilegais, excesso de peso, ausência de treinos) e viu o seu contrato ser cancelado.

Após estar dois anos sem jogar, o brasileiro voltou a entrar em campo em 2014 com o emblema do Atlético Paranaense no peito. Numa ligação que durou apenas dois meses, (o jogador voltou a faltar aos treinos e, por isso, foi despedido) o atleta fez quatro partidas, nas quais ainda registou um tento.

A última aventura futebolística de Adriano antes de se reformar definitivamente foi em 2016 no estrangeiro, mais precisamente nos EUA, ao serviço do Miami United, clube da quarta divisão deste país. Neste, o Imperador marcou um golo em dois jogos.

Adriano, o Imperador é assim um exemplo clássico de um jogador com imenso potencial e talento que não conseguiu chegar ao nível que prometia devido ao aspeto mental do desporto, ou seja, à sua falta de profissionalismo, empenho e foco. Atualmente, Adriano é diretor de vendas da Adidas no Brasil.

 

 

Fonte da Imagem: Getty Images

Simão Vitorino

Nasci e cresci em Vila Franca de Xira e estou atualmente a tirar uma licenciatura em Ciências da Comunicação na faculdade NOVA FCSH com o objetivo de me tornar jornalista desportivo no futuro, profissão que une duas grandes paixões minhas - o futebol e a escrita.