A Libertadores de Riquelme

Juan Román Riquelme é, inquestionavelmente, um símbolo do Boca Juniors e da seleção argentina. Apesar dos 15 títulos conquistados ao longo da sua carreira, a Libertadores de 2007 foi, sem dúvida, uma das mais importantes e sentidas no seu percurso como jogador. Na rubrica desta semana, vamos analisar a final “histórica” que meteu frente a frente os brasileiros do Grêmio e os argentinos do Boca Juniors e que contou com Riquelme como o seu principal protagonista. 

O futebol argentino, para mim, sempre teve um encanto diferente; a forma como era sentido apaixonava-me e apaixona-me. Estádios cheios, jogadores locais que, se fosse necessário, morreriam em campo para defender os seus interesses e adeptos que, com cânticos, bandeiras e confetes embelezavam a festa do futebol.

A prova do uso dos jogadores locais é mesmo o Boca, que nas duas mãos em que foi disputada a final da Libertadores, (sim, porque antigamente as finais da prova sul-americana eram realizadas em duas mãos) apresentou apenas dois jogadores nas suas convocatórias que não nasceram em solo argentino. O Boca chegou à final após eliminar o Cúcuta Deportivo e o Grêmio após deitar por terra os compatriotas do Santos.

A primeira mão foi realizada na La Bombonera, aquele que, para mim, é o palco principal do futebol sul-americano.  Lá, a 14 de junho de 2007, 40 mil pessoas encheram a casa do Boca, em Buenos Aires. Mal o árbitro uruguaio Jorge Larrionda apitou para o início da partida, os Xeneizes intensificaram logo a pressão feita aos brasileiros.

Embalados por jogarem em casa frente aos seus adeptos, o Boca abriu o marcador aos 18 minutos; Riquelme, dono e senhor dos livres da equipa argentina, bateu a bola para o segundo poste onde apareceu Palermo, que ajeitou a bola com a canhota para o poste contrário, onde estava Rodrigo Palacio, que apesar da sua tenra idade já apresentava o seu icónico tereré, para enconstar de pé esquerdo para o fundo das redes do histórico brasileiro.

O jogo continuou e o Grêmio equilibrou a partida, apesar de não ter conseguido marcar. Até que aos 28 minutos da segunda parte, ele, sempre ele, Juan Riquelme, de bola parada, após um pequeno toque de calcanhar para o lado de Ledesma, a barreira desmontou-se e Riquelme encheu aquele pé direito e, num remate tenso e colocado fez o 2-0. Após um abraço coletivo da equipa, Riquelme abriu os braços e deu um par de voltas sobre si para receber os aplausos do eufórico público da Bombonera. O astro argentino tinha 40 mil pessoas rendidas ao seu talento.

Para acabar a partida, aos 89 minutos, Riquelme, em mais um lance de génio, tira dois jogadores da frente de forma categórica e atira forte para o poste da baliza do Grêmio; após o remate, a bola sobrou na linha lateral para Palermo, que tirou um cruzamento para a pequena área, onde, após uma série de ressaltos, Patrício teve a infelicidade de colocar a bola no fundo da sua própria baliza; 3-0 numa vitória caseira que dava alguma tranquilidade aos argentinos para a segunda mão no Brasil.

A segunda mão foi realizada a 21 de junho, no Olímpico Monumental, em Porto Alegre. 60 mil brasileiros prometiam um clima hostil na receção aos argentinos, mas isso não assustou Riquelme, pelo contrário, ainda lhe deu mais força. Foi a estrela da segunda mão, da final e da competição.

No Brasil, os da casa começaram melhor e previa-se que a qualquer momento iriam reduzir a vantagem dos argentinos e que iríamos ter uma final renhida e emocionante, mas o que é facto é que, novamente, os tricolores não conseguiram marcar. Como diz o ditado, quem não marca sofre, e foi o que aconteceu.

Riquelme, mais descaido para a direita, à entrada da área, recebe com o pé esquerdo, roda e fuzila, novamente de pé direito, mete a bola de forma indefensável na baliza de Saja; faz o 1-0 e mata a final, aos 70 minutos, o Boca já tinha uma vantagem de 4 golos, mas não iria ficar por aí.

Aos 80 minutos, num contra ataque, Riquelme (está em todas, não está?), conduz a bola num 3 para 2 a favorecer os argentinos, toca a bola para a direita para Palacios rematar, mas a bola é defendida pelo guardião do Grêmio. Contudo, sobra para a frente onde aparece o predestinado, Juan Riquelme para, sem oposição, fazer o 2-0 no jogo e o 5-0 no conjunto das duas mãos e pôr, agora sim, um ponto final na história da eliminatória.

Os argentinos chegaram a casa e, com os seus adeptos, em sua casa, fizeram a festa. Foi apenas mais uma prova da qualidade inegável de Riquelme, um jogador impar, predestinado a grandes feitos e amado por todos os que amam o futebol. Os argentinos, em especial os adeptos do Boca, que metem o futebol acima de tudo, tinham agora um imortal para venerarem, para muitos, um autêntico Deus na Terra. Juan Riquelme, um predestinado.

Alexandre Ribeiro

Nascido e criado na ilha Terceira, nascido e criado para o futebol. Desde cedo aprendi, vivi e vibrei com o desporto rei. A licenciar-me em Ciências da Comunicação na FCSH da Universidade Nova de Lisboa. Com o futebol e a escrita espero proporcionar um espectáculo fora das 4 linhas para todos aqueles que partilhem o gosto pela bola e pelos seus artistas.