Opinião: Análise ao 4-4-2 de Jorge Jesus

Na semana passada, quando analisei o melhor 11 português da liga, referi que o ia analisar como se estivesse a pensar na tática de Jorge Jesus. Volto a frizar que sou um fã incontornável do JJ e do seu modelo em campo.  Também achei que seria interessante escrever realmente sobre futebol e por isso que tanto esta semana como a semana passada, foram dois artigos que se baseiam sobre o que acontece no jogo.

O atual treinador do Flamengo, utiliza um 4-4-2 ou um 4-4-1-1 muito clássico com várias dinâmicas específicas. Vou dar a minha opinião sobre a mesma, indicando quais são as “chaves” para o sucesso que vão verificar que é a pressão e os apoios continuados. Para ajudar a compreensão vou referenciar várias vezes os casos de Benfica e Sporting, para que se recordem de como os trofeús cá em Portugal foram ganhos.

Começamos pela defesa. A equipa defende-se formando duas linhas de 4 (defesas e meio-campo) quase compactas ou lineares, contudo, Jesus gosta que a sua equipa defenda o que é chamado homem-a-homem, não ficando presa à sua tática e encaixando no ataque adversário. Todas as linhas de passe curto ficam bloqueadas para que o jogador da equipa adversária fique sem capacidade de progredir no terreno e muitas vezes é obrigado a jogar para trás porque a equipa não consegue desmarcar-se.

Aqui temos um exemplo disso. Escolhi um contra-ataque para que ainda seja mais definido. Normalmente, num contra-ataque, se for bem executado, a equipa que o está a sofrer tem dificuldades porque está exposta e não regularizou a tua tática ainda. Contudo, como podemos ver neste exemplo do Flamengo contra o Santos na 34ª jornada do Brasileirão de 2019, os jogadores continuam a fazer marcação individual para que as linhas de passe não sejam as melhores.

Outra das características da forma de defender do ex-treinador do Benfica e Sporting é a pressão. É muito importante que a equipa defenda com superioridade numérica. Claro que origina um maior desgaste, mas todos defendem e torna-se assim mais fácil. As equipas de JJ gostam, assim, de pressionar logo no início da jogada para fazer com que o detendor da bola cometa erros.

Neste jogo com o Fluminense, vemos os dois atacantes a pressionar, em vantagem numérica, o defesa do Fluminense. Assim, o jogador não tem outra opção que jogar para o lado ou para trás, para o seu guarda-redes em vez de conseguir progredir com a bola. Um passe no meio dos jogadores do Flamengo seria uma opção arriscada, pois, se conseguissem cortar esse passe, estariam em posição prelivigiada a atacar.

Como dito anteriormente, Jorge Jesus gosta que a sua equipa respeite mais o adversário do que a tática. Na imagem em baixo, podemos reparar que o defesa abandonou a linha defensiva e subiu no terreno para pressionar o atacante que foi obrigado a jogar de costas para a baliza e como tal, a passar para trás.


É importante indicar que a tática altera-se bastante durante o jogo. Por exemplo, quando a equipa está em vantagem no marcador. um dos avançados recua para o meio campo e um dos homens do meio campo recua em relação aos outros fazendo a ligação entre as duas linhas. Isto permite um maior alargamento das linhas e um maior apoio quer à esquerda, quer à direita, fazendo sempre a marcação em superioridade numérica. Claro que só é possível se existirem jogadores com características mais defensivas. Cá em Portugal, Jorge Jesus, nas equipas teve sempre esses jogadores. No Benfica contou com Javi Garcia e Matic e no Sporting com William Carvalho.

Contudo, não há defesas perfeitas. Esta tem dois problemas. Um dos maiores problemas é a mudança de flanco de um lado para o outro do campo. Se por um lado origina uma dificuldade bastante grande para os espaços curtos, por outro com os jogadores todos concentrados num espaço pequeno para tentarem impedir a jogada, o outro lado pode ficar descoberto e se a transição para o outro flanco não for rápida, pode ter aqui problemas num ataque isolado. Outro problema é a questão da marcação individual. É verdade que os jogadores acompanham os jogadores para fazerem pressão, mas se o jogador adversário conseguir ultrapassar no chamado confronto “um para um”, então a equipa atacante vai estar em vantagem. E quando estão em superioridade numérica? Aí, pode existir um espaço atrás dos dois jogadores. Se o jogador sozinho conseguir ultrapassar dois jogadores, a vantagem passa completamente para a equipa adversária onde até pode originar um possível remate contra a equipa de JJ.

Como também vamos ver mais à frente, a equipa ataca sempre com muitos, o que pode originar vários contra-ataques e por consequência fica a necessidade da equipa ter uma defesa rápida e também vai ser um maior desgaste para os jogadores.

Também é importante referir que os jogadores para fazer a recuperação de bola, para evitarem contra-ataques, têm preferência por ir atrás da bola fazendo a tal pressão, em vez de recuperarem posições e depois defenderem em bloco.

Agora a transição ofensiva. Esta é talvez uma das maiores críticas a JJ feita cá em Portugal. Vou começar por explicar talvez a razão porque o mesmo tentou adaptar Fabio Coentrão, Bernardo Silva, Acuna e Battaglia nos casos de Benfica e Sporting. Nem sempre correu bem, mas é a minha visão do porquê:

Nas transições ofensivas, é comum que jogadores do meio campo desçam para a defesa para poder projetar laterais para os lugares de médio-ala permitindo que os extremos estejam mais perto da linha final para cruzar ou para jogar por dentro. Aliás, em táticas com três defesas isso é ainda mais comum. Estes casos só não são assim tão evidentes quando a equipa tem defesas que saem bem a jogar com a bola nos pés, têm boa visão e bom passe (em Portugal temos os exemplos de Pepe e Mathieu que o fazem com muita regularidade). Bom, no caso das equipas de JJ é quase isso que acontece. E porquê “quase”? Porque os laterais nem sempre são projetados para fora.

Na imagem em cima, o jogador que sinalizei é Filipe Luís. O ex lateral esquerdo do Atlético Madrid está a jogar na zona de meio campo porque tem o Bruno Henrique projetado na ponta. Assim, origina mais uma pessoa no meio campo, baralha marcações e permite à equipa ir trocando a bola e avançando uns metros. Adaptando a Portugal, eu acredito que Acuna e Battaglia tenham jogado a laterais pois são jogadores que conseguem potencialmente jogar também por dentro, o que permite esta tática. Já Fábio Coentrão tinha bastante intensidade e velocidade e no outro flanco, apesar de Maxi Pereira também ser um jogador que ataca muito, Ramires não era bem um extremo e como tal permitia essas jogadas. Também, com o tempo, Di Maria aprendeu com JJ a jogar de fora para dentro, o que permitiu que Coentrão por um lado e Maxi Pereira (graças às características de Ramires) jogassem como extremos pois os médio-ala estavam mais colocados no meio do terreno.

Também os jogadores de meio campo ganham uma preponderância bastante grande. Não só na criatividade como no ataque e na defesa. os dois jogadores mais no centro do campo têm de estar completamente cordenados e o destaque é enorme devido às muitas transições defensivas e ofensivas. Cá em Portugal, a dupla de Jorge Jesus que melhor o executou foi William Carvalho e Adrien Silva. Ambos mostravam uma grande intensidade, principalmente Adrien, que era tão influenciador no terreno de jogo que às vezes até parecia que William não corria. Na imagem em baixo podem ver um caso do Flamengo em que o defesa subiu com a bola até ao meio campo e rapidamente dá-se uma transição ofensiva com os jogadores do meio-campo a subirem para o ataque:

Outra estratégia fundamental são as linhas de passe. A equipa aposta muito em ataques organizados sempre muito apoiados.  Devido a isto, Jorge Jesus sempre gostou de jogadores que fossem “táticamente evoluídos”. Esta ideia é utilizada para descrever o jogador que passa bem, tem uma boa visão de jogo, controla o tempo de passe, sabe guardar a bola e tenta jogar sempre para a frente. Devido a isso, podemos indicar que nos clubes lisboetas, JJ, contou, por exemplo, com Aimar, Ramires, Sálvio, Javi Garcia, Acuna, Bruno Fernandes, Adrien ou João Mário. Fica um exemplo, mais uma vez, da equipa do Rio de Janeiro:

E como é que as equipas de Jesus fazem golo? Da forma mais simples possível:

Com o chamado “as tabelas 1-2”. É tão simples como passar e adiantar-se para receber. Mais uma vez, só é possível com jogadores que trabalhem bem em espaços curtos. As transições têm de ser rápidas e com aproximações de vários jogadores no ataque. Idealmente, existe um jogador de referência e é esse o jogador que é o último a tocar na bola antes de finalizar. Em Lisboa, foram apenas quatro os jogadores que tiveram a total titularidade com JJ, o que mostra que houve um bom scouting de ambos os clubes. Cardozo, Jonas, Slimani e Bas Dost, com Jonas claramente a ser o que trabalhava melhor estes toques para a finalização.

Para tal, também é muito importante que alguém saiba contruir em pouco espaço e consiga colocar a bola no principal avançado. Saviola, Rodrigo, Montero, Téo e Bruno Fernandes foram jogadores muito importantes quer no Benfica, quer no Sporting para que estas finalizações pudessem ocorrer. Eram também muitas vezes os jogadores das chamadas “segundas bolas” ou “ressaltos” (ou simplesmente remates à entrada da área que também são uma característica nas equipas do treinador). No entanto, havia outros potenciais jogadores que também conseguiam finalizar em ambas as equipas pois entravam muito bem na grande área adversária como Di Maria, Gaitán, ou Bryan Ruiz (este último, apesar de ter falhado de baliza aberta um golo que podia ter dado o título ao Sporting na época 15/16, é um bom exemplo que está na memória de todos nós em como um médio aparece em zona de finalização).

Para além de finalizações na grande área com toques simples e remates à entrada da área, Jorge Jesus aposta em cruzamentos continuados ao longo de todo o jogo, mas com critério e apenas quando a referência para a finalização já está na área pronta a cabecear (todos nos lembramos de quantos golos fazia Bas Dost de cabeça).

Como vimos, esta tática tem os seus altos de baixos, mas dada a carreira de Jorge Jesus, até nem se pode dizer que seja má de todo. O treinador 65 anos conta com 18 títulos na carreira, duas finais em duas edições seguidas na Liga Europa e dois prémios de melhor treinador da Liga Portuguesa. Termino com o seu palmarés. Espero que tenham gostado, comentem e digam-me se há outra tática que gostam mais ou se há algum assunto mais tático ou de escolha pessoal que gostariam que abordasse.

Palmarés:

Competições internacionais: uma Copa Libertadores, uma UEFA Intertoto Cup e Recopa Sudamericana

Competições nacionais: uma Supertaça Arábia Saúdita, uma Supercopa do Brasil, uma Taça de Portugal, duas Supertaças Cândido de Oliveira, um Campeonato Brasileiro, três Ligas Portuguesas e seis Taças da Liga

João Estanislau

Com uma licenciatura em Comunicação Empresarial pelo ISCEM e duas pós-graduações em Gestão e Marketing do Desporto pelo INDEG-ISCTE e Director Técnico Desportivo pela a Universidade Europeia, trabalhei recentemente para o jornal online Leonino.pt. Participo ainda no programa Overlappings e Basculações, no canal de Youtube Vamos Falar de Futebol 10, todas as terças-feiras, a partir das 21h00. Sempre ligado ao futebol e à comunicação, pretendo partilhar contigo a minha visão do desporto rei. Fica atento!