Lembra-se de…Fergus Suter, o primeiro profissional do futebol

Fergus “Fergie” Suter. Soa-lhe familiar? Provavelmente sim, mas garantimos-lhe que não foi de o ter visto jogar alguma vez. Falamos de um atleta escocês que atuou em Inglaterra entre 1878 e 1889. No entanto, acontece que apenas recentemente o seu nome gerou maior atenção e tudo graças…a uma série da Netflix. Mantenha-se connosco para ficar a conhecer um pouco melhor a carreira e a vida daquele que se afirma ter sido o primeiro jogador profissional na história do futebol.

The English Game”, é o nome da minissérie que colocou (de novo) Suter nas bocas dos adeptos do desporto rei. Nascido a 21 de novembro de 1857, em Glasgow, acabaria por mudar-se para Partick, onde começou por herdar o trabalho da família, tornando-se pedreiro. Mais tarde, em 1876, passaria a jogar, simultaneamente, no clube local, o Partick FC, fundado escassos meses antes.

Nesse mesmo ano, os escoceses jogariam uma partida de cariz amigável, diante dos ingleses do Darwen FC. Isto porque um dos fundadores do Partick era, na realidade, natural de Darwen, tendo vindo trabalhar para a Escócia e acabando por ajudar no nascimento do clube. A partida era, com isto (e tanto quanto se sabe), uma forma de criar uma relação entre os dois emblemas.

Numa altura em que o futebol inglês e o futebol escocês possuíam táticas de jogo completamente distintas, os nortenhos venceriam categoricamente o encontro, marcando 7 golos sem resposta. Outros jogos se seguiram entre as duas partes e as exibições de Fergie atrairiam especial atenção da parte dos ingleses. Assim, em 1878, o jovem pedreiro trocaria mesmo o Partick pelo Darwen.

A mudança geraria, no entanto, enorme polémica. Não foi preciso esperar muito tempo para que Suter começasse a ser acusado de ser pago para jogar, algo muito grave aos olhos da Football Association, visto que, à data, o futebol era um desporto totalmente amador, sendo inclusive proibido um clube pagar fosse o que fosse aos seus atletas, sob o risco de sofrer graves penalizações.

Fergus, deitado em baixo, com o plantel do Darwen FC (1879)

Sabe-se, atualmente, que Suter fora mesmo pago em Darwen, tendo o próprio admitido isto publicamente, em declarações ao Lancashire Daily Post, já reformado dos relvados, em 1902. Ainda assim, o escocês conseguiu, na altura, evitar algo mais do que alguns rumores contra si, afirmando que se mudara para Lancashire em busca de novo trabalho, o que não era totalmente mentira, visto que perdera, de facto, o emprego em Partick, devido ao colapso no Banco de Glasgow, pelo que alegava jogar pelo Darwen FC nas horas vagas. Na realidade, Fergie trabalhou mesmo como pedreiro em Inglaterra, mas apenas por uma ou duas semanas, dedicando-se então a 100% ao futebol, como o primeiro jogador profissional da modalidade, embora tal estatuto apenas tenha sido “oficializado” mais tarde.

Legal ou ilegal, o que é facto é que, juntamente com James Love (outro atleta que viajara com ele para sul), Fergie revolucionou o futebol em Darwen, ajudando os ingleses a tornar-se na primeira equipa do norte do país a atingir os quartos de final da FA Cup, em 1879, acabando eliminados pelos Old Etonians, emblema que venceria a respetiva edição da prova. No ano seguinte, tornar-se-ia capitão da equipa e o seu irmão Edward juntava-se ao plantel, oriundo, também ele, do Partick FC, clube que, ao longo dos anos seguintes, desempenhou um papel importantíssimo na entrada de jovens escoceses no futebol inglês, graças à ligação com Darwen.

Apesar de estarem comprometidos com o clube, tanto Suter como Love participaram numa partida ao serviço de outro emblema, o Turton FC. Apenas duas semanas após a derrota na Taça diante dos Old Etonians, ambos terão sido convidados a jogar pelos Tigers, na final da Challenge Cup, jogo que viriam a perder por 1-0 diante do Eagley FC. Alegadamente, ambos os atletas terão sido pagos para participar no encontro.

Em 1880, no entanto, Fergus tornaria a alimentar os rumores que o circundavam relativamente à sua profissionalização, mudando-se para os rivais locais do Blackburn Rovers. De novo, não há qualquer prova concreta de que tenha havido dinheiro envolvido nesta mudança, mas alega-se que os Blues tenham feito chegar ao escocês uma proposta bastante sedutora, ao ponto de o convencerem mesmo a abandonar Darwen, aparentemente, sem motivo algum.

Fergus, em baixo do lado esquerdo, com o plantel do Blackburn (1884)

Apesar de toda a polémica, dentro de campo Fergus mantinha-se irrepreensível, contribuindo para que os Rovers se tornassem na primeira equipa do Norte a atingir a final da FA Cup, em 1882, mas perdendo o troféu para os Old Etonians. Dois anos depois, ainda assim, viriam mesmo a conquistar a prova, repetindo o feito ao longo de três épocas consecutivas, entre 1884 e 1886.

Já com praticamente todo o plantel constituído por jogadores pagos, o Blackburn ver-se-ia então acusado de jogar com uma estrutura profissional. Tal acusação despoletaria o derradeiro debate que resultou na profissionalização do desporto, em 1885.

Em 1887, Fergie esteve perto de regressar a Glasgow, onde representaria os Rangers, mas os escoceses terão recusado o atleta.

O ano de 1888 marcou a época inaugural da Liga Inglesa, a primeira do seu formato na história do futebol. Fergus jogou uma única partida nesta prova, num jogo diante do West Bromwich Albion, onde atuaria…como guarda redes. Pouco terá conseguido fazer, num encontro que a sua equipa viria a perder por 2-1. A mesma partida marcaria o final da carreira do jogador, aos 31 anos.

Mesmo com todo este sucesso, Fergie nunca chegou a jogar pela seleção nacional escocesa, uma vez que, na altura, os treinadores recusavam-se a convocar jogadores que atuassem em Inglaterra.

Apesar de praticamente não haver qualquer tipo de registos no que toca ao desempenho deste atleta dentro de campo, sabe-se que Fergus Suter foi um autêntico revolucionário no desporto rei, não só por ter trazido para Inglaterra ideias de jogo escocesas, até então nunca antes pensadas no sul da Grã-Bretanha, mas também por ter sido o primeiro a contribuir para a transição do amadorismo para o profissionalismo da modalidade.

Duarte Rosa

"Alfacinha" de gema, sportinguista de coração. Desde o clube à seleção nacional, o amor pela bola está presente desde cedo. A licenciar-se em Ciências da Comunicação, na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa, esta paixão pela escrita e pelo futebol forma uma dupla interessante, que espera vir a agradar aos seus leitores.