A história das táticas das selecções no desporto rei

Táticas? Quem nunca, não é? Todos nós somos treinadores de bancada e todos achamos, após o jogo, como é que a nossa equipa se devia de ter posicionado melhor em campo. E antes? Como é que é feito? Como é que isto é ensaíado? Conseguem perceber pelo meu último artigo de Opinião que eu dou muita importância à forma como os jogadores se compõem em campo, a chamada tática. Mas afinal, o que é isso?

Júlio Garganta, professor da Faculdade de Desporto da Universidade do Porto desde 1987, é autor de vários trabalhos publicados em revistas, atas e livros. Colaborou, no âmbito da observação e interpretação do jogo com FC Porto e Sporting SC. O mesmo indica que “tática é a capacidade do jogador perceber, analisar e decidir pela ação que melhor se adapte às situações e aos problemas decorrentes do jogo tanto de maneira individual quanto coletiva“.

A mesma vai ao encontro da sua definição que tem origem grega e se define como “arte de manobrar tropas”.

E como é que esta ideia surge para o futebol? A verdade é que só há uma certeza quanto às táticas no futebol: existe um guarda-redes e 10 jogadores em campo.

A história indica-nos que no início, o futebol era tentar correr de um lado ao outro do campo com o objetivo de marcar. Com o passar dos anos, todos os intervenientes começaram a pensar que quanto melhor se posicionassem em campo, mais fácil ficaria em marcar. Em Cambridge, na universidade inglesa, lançou-se um 2-3-5, no século XIX, chamada a pirâmide. Carlos Alberto Parreira, ex treinador de futebol, foi o treinador brasileiro que mais selecções orientou (seis no total) e alegou, sobre esta tática que “foi a primeira forma de noção tática registrada por um time, o início da inteligência no futebol”.

Esta tática terá durado até às primeiras décadas do século XX, mas, em 2017, foi adoptada por Sampaoli, então selecionador da Argentina, quando jogava com selecções claramente inferiores.

Novas regras surgiram e, com isso, novas táticas também. A regra do fora-de-jogo fez com que aparecesse a tática do WM, ou o 3-2-2-3. A ideia foi pegar na pirâmide, trazer o homem central do meio-campo para a defesa e fazer recuar dois avançados para o centro do terreno. Assim, a equipa estava mais equilibrada a defender e a atacar. Quem o fez foi o treinador Herbert Chapman que levou o Arsenal a conquistar títulos. Apostando na nova regra, assim, os defesas podiam subir e deixar os avançados adversários em fora-de-jogo.

Esta tática, levou a reinterpretações sucessivas. A Hungria mandou para trás o seu avançado centro, formando agora um M. Assim, a tática passou a ser a MM. Com ela, foi campeão olímpico em 1952, com o húngaro Puskás como avançado. Pode não ter ganho o mundial de 1954, mas o certo é  que ficou marcado para a história do futebol.

No Brasil, a tática mudou um pouco quando se transformou na “tática diagonal”. Servia para dar mais segurança quer a atacar, quer a defender. Com ela, o então técnico Flávio Costa foi vice-campeão em 1950. Era próximo de um 4-2-4 e incluía o recúo de um dos médios para o avanço de outro.

Esta tática foi tendo alterações e acabou por ganhar o mundial em 1958 com a tática, aí sim, de um 4-2-4. Basicamente, um dos jogadores do meio-campo foi recuado para a defesa. O homem do meio-campo mais próximo aos três da frente começou a aproximar-se ainda mais. Esse 4º jogador acabava por causar problemas no que se pode considerar “as segundas bolas” ou “recargas”. Este novo modelo encantou e teve na sua génese o primeiro ponta-de-lança móvel. Não mais que Pelé.

Após serem bi-campeões em 1962, o método começou a ser usado com regularidade. Contudo, o técnico Alf Ramsey (técnico que foi campeão pelo Ipswich Town na segunda liga inglesa e na primeira divisão consecutivamente em 1960-61 e 1961-62, respetivamente) considerava que a tática era bastante boa no ataque, mas deixava a defesa fragilizada para recuperar a bola. Igualmente, com quatro defesas adversários que eram agora usados, Ramsey não via razão para utilizar os extremos sendo que os recuou para médios-ala. Nascia assim o 4-4-2 (que sou especial fã), com as linhas quase lineares. Com elas, Ramsey foi campeão mundial em 1966 pela Inglaterra. Um dado curioso para este mundial, que ficou marcado pela selecção portuguesa conhecida pelos “magriços”, que conseguiu um estrondoso 3º lugar e que tinha atletas como Eusébio. É ainda o melhor registo da nossa selecção em mundiais.

Em 1970, viu-se uma das melhores equipas da história.  O selecionador Zagallo, optou por levar os melhores para o mundial e colocá-los onde fosse a sua posição. Com liberdade criativa e completamente adaptados às suas posições, ficou uma espécie de 4-3-3 “torto” e encantou o futebol. Zagallo conquistou assim o mundial desse ano, após ter conseguido conquistar como jogador em 1958 e 1962. Aliás, é hoje uma das três únicas pessoas que conquistou mundiais quer como jogador, quer como selecionador (Beckenbauer em 1970 como jogador e 1990 como selecionador e Deschamps em 1998 como jogador e 2018 como selecionador).

O futebol começava a ter uma preparação cada vez maior. Não era só a forma como os jogadores estavam em campo, mas as suas movimentações. Em campo, era um 4-3-3 que se transformava num 3-4-3, mas não era só isto. Todos deviam se integrar no ataque e ajudar à defesa. A ideia era: com bola, trocar posições para se criar espaços, sem ela, pressão e cobertura para eliminar linhas de passe. No que podemos chamar de “futebol total”, a Holanda foi duas vezes vice-campeã do mundo, em 1974 e em 1978 (dado curioso que voltou a ser vice-campeã do mundo também em 2010 perdendo para a Espanha, nunca tendo ganho assim, um mundial). Foi também nesta época que a selecção ficou apelidada de laranja mecânica em tributo ao clássico filme de Stanley Kubrick e ficou assim inventado o “carrossel holandês”.

A década de 80 trouxe a disco e uma inovação tática. Ao som de sucessos como o Thriller de Michael Jackson, Carlos Bilardo, selecionador argentino na altura, fez o sentido inverso da Inglaterra de 66′. Ora, se os adversários jogavam sem extremos, era um desperdício jogar com 4 defesas. Como tal, recuou um jogador do meio campo para a defesa e fez avançar os laterais que passavam a ter menos responsabilidade defensiva e mais liberdade para atacar, passando a jogar em 3-5-2. Em situações defensivas, os alas recuavam formando um 5-3-2. Isto permitiu que, em 1986, a Argentina, com Diego Maradona, brilhasse e conquistasse o mundial desse ano e fosse vice em 1990, para além do 3º lugar na Copa América em 1989.

No início do novo milénio, o esquema com três defesas ficou esquecido, sendo que voltou o sistema com quatro defesas e médios-ala como se fossem extremos tendo assim várias tarefas ofensivas e defensivas. Com três jogadores no centro do terreno sobrando, começou a pensar-se como seria melhor organizá-los. A ideia é dependente em se ter um médio-defensivo e dois jogadores de ligação, isto é, dois jogadores que ajudem em manobras ofensivas e defensivas, que descubram jogadores, façam circular a bola, etc., ou dois jogadores com características mais defensivas e um jogador com maior liberdade ofensiva, podendo chegar perto do ponta-de-lança. Durante muito tempo jogou-se (e ainda se joga) assim. Muito influenciada por Pep Guardiola que por sua fez influênciou-se no “futebol total” de Cruyff, a selecção espanhola, foi a primeira selecção a ganhar um Europeu, um Mundial e um Europeu consecutivamente. O passe e a posse de bola eram uma arma poderosa e assim conquistaram vários títulos: Europeus em 2008 e 2012 e Mundial em 2010.

Em 2014 a Alemanha foi campeã do mundo no Brasil (que ficou para a história com o famoso 7-1 nas meias-finais diante do Brasil que jogava em casa e perdia de forma incrível), com um triângulo com dois médios mais móveis, no caso, Khedira e Kross.

É importante afirmar que variações táticas do 4-3-3 foram-se transformando também num 4-1-4-1 e também num 4-2-3-1

A França, que ganhou o último mundial em 2018, jogava no tal 4-2-3-1, assim como a vencida Croácia, com muita dinâmica ofensiva e apostava em jogadores rápidos, para além de ser uma equipa que já tinha uma base de anos anteriores, mas que não foi suficiente para derrotar a nossa selecção que acabou por ganhar o Europeu de 2016 com um golo de Éder, precisamente na França.

 

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João Estanislau

Com uma licenciatura em Comunicação Empresarial pelo ISCEM e duas pós-graduações em Gestão e Marketing do Desporto pelo INDEG-ISCTE e Director Técnico Desportivo pela a Universidade Europeia, trabalhei recentemente para o jornal online Leonino.pt. Participo ainda no programa Overlappings e Basculações, no canal de Youtube Vamos Falar de Futebol 10, todas as terças-feiras, a partir das 21h00. Sempre ligado ao futebol e à comunicação, pretendo partilhar contigo a minha visão do desporto rei. Fica atento!