Lembra-se de Alessandro Del Piero, o “cavalheiro” da “Vecchia Signora”

Falar de Del Piero é relembrar uma mística do futebol italiano que se perdeu com os anos. A classe e a irreverência que trazia ao jogo fê-lo ser amado não só pelos adeptos da Juventus, onde jogou 18 temporadas, como pela maioria dos italianos. Vamos relembrar Alessandro Del Piero.

Como jogava

Del Piero marcava golos para todos os gostos. Tinha uma técnica apuradíssima, que compensava a sua baixa estatura. Conseguia colocar a bola no sítio certo para bater o guarda-redes com muita facilidade, de pé direito, pé esquerdo, dentro ou fora de área. Era, sobretudo, um  segundo-avançado muito inteligente e que dava muitas opções ao ataque, quer fosse um movimento de rutura, ou então um passe mortífero. Isso é visível pela grande quantidade de assistências que fazia época após época.

A sua imagem de marca eram os livres diretos. Marcou 53, de vários ângulos e distâncias. Aplicava uma curva descendente à bola (num estilo semelhante a Andrea Pirlo) que complicava a vida aos guardiões.

O início (precoce) de carreira

Nascido em Conegliano, Veneto, brotou para o futebol muito cedo. Com apenas 16 anos já havia jogado pela equipa principal do Padova, na altura na Série B. Em 1993, quando tinha 19 anos, a Juventus contratou-o por uns estrondosos cinco milhões de liras, atualmente dois milhões e meio de euros.

Ao chegar a Turim, deparou-se com um treinador histórico, com ligação ao futebol português – Giovanni Trapatoni, “A Velha Raposa”. Enquanto este foi técnico da Juventus, Del Piero foi suplente e a sua utilização foi feita com cautela. Na estreia substituiu uma estrela do futebol italiano à data – Fabrizio Ravanelli. Curiosamente, no primeiro jogo a titular fez um hat-trick, sendo que nesta altura jogava a médio-ofensivo.

Com o início da segunda época, Trapattoni saiu e foi rendido por Marcello Lippi, outro treinador que deixaria uma marca indelével no calcio italiano. Foi aí que começou a melhor fase da “Vecchia Signora” nos anos 90, pelo menos a nível das competições europeias. Ganharam o “Scudetto”, depois de nove anos de jejum, e chegaram à final da Taça UEFA (tendo perdido com o Parma). A glória viria em 1995/96, quando Del Piero ganhou a Taça dos Campeões Europeus, sendo considerado o melhor jogador desta edição.

Prestígio europeu e as primeiras lesões

A Juventus de Marcello Lippi chegou três vezes à final mais desejada da Europa, mas ganhou só dessa vez. Seguiram-se duas tentativas falhadas de revalidar o título, primeiro aos pés do Borussia Dortmund e depois Real Madrid. A temporada de 1997/98 foi a mais prolífica em termos de golos para Del Piero – 35 golos – na primeira vez que joga assumidamente a avançado, após a contratação de Zidane.

Seguiram-se três épocas de menor rendimento individual e coletivo. Alessandro começou a ser assolado por lesões e a equipa chegou a ficar em sexto lugar na liga. Carlo Ancelotti assumiu o comando do clube e, devido às lesões recorrentes de Del Piero, colocou-o outra vez atrás dos avançados, quando recuperou das lesões. A opção surtiu efeito e completou 59 assistências em dois anos.

A Juventus voltou à rota das vitórias com o regresso de Lippi, arrecadando dois scudettos em 2001/02 e 2002/03. O agora capitão da Juventus viria a tornar-se suplente com Fabio Capello, que duvidava da sua condição física. A relação entre os dois não era famosa, mas isso não o impediu de ganhar mais dois Scudettos e tornar-se o melhor marcador de sempre da Juve em janeiro de 2006, meses antes da glória mundial… e do ponto mais baixo da história da Juventus.

“Um cavalheiro nunca abandona a sua senhora”

Del Piero foi apanhado no olho do furação. O caso Calciopolis abalou o futebol italiano, provando casos de corrupção em vários clubes italianos, um deles a Juventus. A Juve foi relegada à segunda divisão, e perdeu os dois últimos campeonatos. Foi um choque geral (Pessotto, jogador da Juventus, tentou o suicídio). Del Piero era considerado um jogador de calibre mundial e não abandonou o clube nessa situação delicada, tal como Buffon, Nedved, Trezeguet e Camoranesi. Mesmo com nove pontos negativos, a Juventus subiu de imediato à Serie A e Del Piero foi o melhor marcador. Perguntaram a Del Piero o porquê de não abandonar a Juventus, e ele prontamente respondeu: “Porque um cavalheiro nunca abandona a sua senhora”. 

Um título agridoce: Del Piero foi figura de proa na Série B

Os anos seguintes foram o reerguer da Juventus, sempre com o camisola dez em destaque apesar da idade. Só viria a ganhar o Scudetto de novo em 2012, na sua última temporada no clube. Foi uma temporada invicta ao comando de Antonio Conte, seu ex-colega de equipa, e que acabou com lágrimas não só de alegria, como de tristeza. A despedida de Alessandro Del Piero foi arrepiante.

Um campeão mundial

A carreira inicial de Del Piero na seleção italiana não foi positiva. Apesar do plantel recheado de talentos, a “Squadra Azzurra” não foi além da fase de grupos do Euro 96′, e no Mundial 98′ caiu aos pés da França nos quartos-de-final. Esteve perto da glória no Euro 2000′, num certame em que rodou entre o banco e o onze inicial. Jogou os últimos 50 minutos da famosa final do Euro, ganha pela França com um golo de ouro de Trezeguet, seu futuro colega de equipa na Juventus.

O Mundial 2002 foi de injustiças para a Itália, eliminada num jogo contra a Coreia do Sul cuja arbitragem envergonhou o futebol mundial. A má sorte italiana continuava no Euro 2004, ficando-se pela fase grupos contra as modestas Suécia, Dinamarca e Bulgária. Tanta fome deu em fartura em 2006, no meio do escândalo Calciopoli. Foi uma caminhada vitoriosa com Marcello Lippi ao leme, ele que utilizava Del Piero como suplente de luxo. Ele entrou já no prolongamento das meias-finais contra a anfitriã Alemanha, marcou, e confirmou um primeiro golo de Fabio Grosso. O resto, é história.

Apesar de ser um jogador dado a lesões, Del Piero teve uma carreira com uma longevidade impressionante. Depois da Juventus, jogou mais dois anos no Sydney FC, da Austrália, e acabou a carreira na Índia, com 40 anos, no Delhi Dynamos. No total, fez 869 jogos, 343 golos e mais de 200 assistências.

 

David Silva

Lourinhanense de gema, é estudante de Ciências da Comunicação na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas. Tem como hobby a escrita, e como paixão o futebol.