Opinião – Campeonato cancelado, futebol beneficiado?

Nos últimos dias, dois campeonatos de peso significativo no contexto do futebol mundial, um dos quais faz parte do famoso top-5, foram cancelados. Ambos por decisões executivas dos seus respetivos governos.

No caso holandês, todos os eventos desportivos foram cancelados até 1 de Setembro, com os lugares europeus definidos mediante as classificações atuais, sem descidas de divisão nem campeões. Na França, o caso é semelhante, com uma suspensão de todas as competições desportivas até ao fim de Agosto, porém o PSG sagrou-se campeão e os clubes do fundo da tabela foram despromovidos.

A UEFA tenciona levar as competições europeias até ao fim e a pressão está agora do lado dos outros campeonatos. A Alemanha tem perspetivas muito otimistas de regresso, apontando já para 9 de maio o recomeço da Bundesliga. Em Inglaterra existem planos para realizar o que resta da Premier League em alguns estádios, totalmente à porta fechada.

Por Itália e Espanha a situação continua bastante incerta, enquanto que em Portugal recentemente reuniram-se o Primeiro- Ministro, presidente da Liga, da Federação e dos três “grandes” visando definir o futuro do campeonato nacional, com o Governo a anunciar nos dias que se seguiram o regresso da liga no final de maio.

É um cenário complicado, onde sinceramente o futebol não é a prioridade, pois a saúde pública bate os interesses desportivos. Contudo, cada país apresenta-se como um caso diferente e a economia também beneficia imenso com a ressuscitação do desporto Rei, acelerando-se este regresso em casos como o alemão, nitidamente o mais avançado dos campeonatos mais influentes na Europa, tal como a melhoria do bem-estar populacional (vale o que vale, mas é um elemento positivo).

Cada um tem o seu input pessoal neste debate. Os adeptos do Liverpool devem de olhar para esta situação com um pânico tremendo, como um pesadelo inimaginável capaz de impossibilitar a reconquista da Liga Inglesa, que estava quase garantida, 30 anos depois. Um adepto do Marselha talvez olhe para esta situação com tranquilidade e agrado, pela qualificação do seu clube à Liga dos Campeões (devido ao ótimo trabalho de André Vilas Boas) descartando a corrida ao título, entregue ao PSG, pela improbabilidade de retirar o triunfo aos parisienses.

Os benfiquistas iriam revoltar-se se o FC Porto fosse campeão com dez jornadas para disputar (especialmente pela mínima vantagem de um ponto), da mesma forma que os portistas se iriam sentir injustiçados se o campeonato fosse cancelado pouco depois de ultrapassarem os seus rivais na tabela classificativa. Felizmente, no nosso país, caso o combate ao coronavirus continue a decorrer de forma positiva, sem percalços significativos, poderemos ver o que as últimas dez jornadas têm reservado para os seus adeptos, através do conforto das nossas casas, claro.

Contudo, caso as condições não se reúnam para levar este campeonato até ao fim e tenhamos que seguir o exemplo dos nossos “colegas” holandeses e franceses, aceitem a decisão como o melhor para a saúde pública e o bem do nosso país. Os governos entendem a importância de retomar o desporto, basta olharmos para a Itália, um país que está a passar enormes dificuldades em lidar com a pandemia, o exemplo mais grave na Europa aliás, mas sem descartar o regresso da Serie A nos próximos meses.

Pessoalmente, vejo o cenário holandês como o melhor exemplo para lidar com a situação de um possível cancelamento, definindo os apuramentos europeus mediante as posições atuais dos clubes, sem campeões nem descidas de divisão. Certamente seria frustrante para o FC Porto, em Portugal, contudo a vantagem de um ponto é tangencial e da mesma forma que os dragões anularam uma desvantagem de sete face aos encarnados, o Benfica poderia igualmente subir de novo à liderança.

Para definir os resultados da Ligue 1, os franceses aplicaram uma contagem de média pontos por jogo, fazendo jus às classificações no momento da paragem, tal como dos clubes que tinham partidas a menos que os outros. O PSG tinha uma partida em atraso e já estava a 12 pontos do segundo classificado, Marselha. Dificilmente o cenário fosse mudar na definição do campeão, como tem sido costume nos últimos anos.

Agora em Portugal, por mais frustrante que seja o tamanho do fosso entre os grandes clubes e o resto dos seus concorrentes, pelo menos as corridas ao título costumam ser intensas e apenas decididas nas últimas jornadas. Na Holanda, Ajax e PSV partilhavam a liderança em igualdade de pontos, com o conjunto de Amesterdão na frente devido à diferença de golos. Nenhum foi capaz de conquistar a Eredivise, mas nenhuma base de adeptos ficou com um sabor mais amargo na boca que os seus rivais e em Portugal o cenário é semelhante. Se perguntarmos a um benfiquista e a um portista se acreditam que a sua equipa conseguirá ser campeã, ambas teriam fé no seu clube (a paragem do futebol provavelmente já anulou algum pessimismo do lado dos encarnados após a fase péssima do clube).

Numa nota final, expresso a minha sincera preocupação perante esta fase de transição face ao nosso estilo de vida durante esta pandemia e tal como o nosso Primeiro-Ministro apelou, a continuação deste progresso depende das nossas atitudes individuais e da nossa responsabilidade. Este é um momento quase inédito de poder dado aos adeptos no que toca ao futuro dos seus clubes e do desporto que tanto gostam. Está nas nossas mãos (literalmente) a continuidade do nosso campeonato e do futuro do nosso futebol. Por cada golo que queremos voltar a celebrar, finta que queremos ver ou discussão intensa sobre aquele lance polémico que queremos ter, cuidem-se e perpetuem o bom trabalho que temos feito até agora.

José Horta

Não nasci a gostar de futebol, mas quando comecei nunca mais quis outra coisa. Algarvio de nascença mas adepto do futebol para além daquele que se joga na praia. Sempre atento aos contornos e novidades do "Desporto Rei", "Beautiful Game" ou lhe quiserem chamar. Aluno universitário de Ciências da Comunicação na FCSH.