A verdadeira “Liga dos Últimos”

Recentemente, foi anunciado o regresso da Liga NOS aos relvados. Apesar de todas as restrições que se irão impor, desde recintos à porta fechada a jogos possivelmente confinados a um número reduzido de estádios do país, trata-se, naturalmente, de uma notícia agradável para os adeptos dos 18 atuais primodivisionários, já há mais de um mês isolados do desporto que todos amamos. No entanto, e como o nosso país nos tem vindo a habituar, uma decisão de tamanha magnitude não escapou a um certo grau de polémica (para não dizer “bastante” mesmo), ainda que fosse impossível vir a agradar a gregos e troianos.

Como sportinguista, foi logicamente com enorme alegria que recebi a informação do reinício da primeira divisão. Espanta-me, muito embora, ser esta a única prova nacional a regressar ao ativo (a mim e a todos, imagino), sobretudo quando tal decisão é feita sem trazer a público qualquer tipo de fundamento sólido, alegando apenas a ausência de condições para tal nos outros escalões. Ainda assim, e tendo em conta que a Primeira Liga define acessos diretos a provas internacionais, cujo domínio já foge ao controlo exclusivo do nosso país, consigo compreender a situação, ainda que apenas até certo ponto. O que mais me surpreendeu, no entanto, não foi o regresso em si (prematuro, se quiserem) do nosso campeonato, mas sim a forma como tudo foi levado a cabo.

Alegou a Federação Portuguesa de Futebol (FPF) que tudo iria ser orientado buscando a maior justiça e equidade possível, quando, na realidade, não foi essa a imagem que transpareceu. O maior escândalo, a meu ver, foi o cenário montado no Campeonato de Portugal (3ª divisão nacional), onde se definiu que os dois emblemas com maior pontuação, independentemente da Série em que militassem, obteriam acesso direto à 2ª Liga, de acordo com as classificações atuais. Pois bem, como pode a FPF alegar justiça, quando acaba de reduzir a meros números uma competição em que entram em jogo fatores regionais, já que equipas de zonas diferentes do país não se defrontam? Terá, porventura, uma equipa aveirense mais valor que um clube açoriano, ou algarvio? Se a ideia era encontrar uma solução prática e eficaz, parabéns, conseguiram isso mesmo, mas por favor não me falem em igualdade de critérios…

A outra situação que me deixou ainda mais irado (provavelmente por ver o meu clube diretamente envolvido) foi a reunião que se realizou entre líderes do governo e da modalidade. Uma reunião lógica e até necessária, não fossem os moldes em que a mesma se realizou. Falamos de um encontro em que estiveram presentes António Costa, Fernando Gomes, Pedro Proença e os presidentes…dos “três grandes”, Frederico Varandas, Luís Filipe Viera e Jorge Nuno Pinto da Costa. Com que então, a Liga não tem 18 clubes (isto se não incluirmos os da 2ª divisão)? Uma vez mais, pede-se igualdade de critérios para todos, quando na realidade aquilo a que se assiste é o tempo de antena a pender para os “suspeitos do costume”. Como se não bastasse, a presença de Proença, “apenas” o presidente da Liga de Clubes, não estava inicialmente prevista nos quadros da reunião, tendo de partir de Fernando Gomes convidar (se havia necessidade para tal) o antigo árbitro internacional. Quanto a isto, lamento, não consigo conjeturar. Ultrapassa-me…

Uma série de decisões e critérios, para mim, incompreensíveis, foi aquilo a que se assistiu ao longo da última semana. Numa altura em que se buscava, teoricamente, amenizar as distâncias entre os clubes mais poderosos e os mais débeis, o culminar de toda esta situação veio demonstrar exatamente o contrário. Em plena Liga portuguesa, uma situação digna da “Liga dos Últimos”.

 

Imagem: Global Imagens / Ivo Pereira

Duarte Rosa

"Alfacinha" de gema, sportinguista de coração. Desde o clube à seleção nacional, o amor pela bola está presente desde cedo. A licenciar-se em Ciências da Comunicação, na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa, esta paixão pela escrita e pelo futebol forma uma dupla interessante, que espera vir a agradar aos seus leitores.