Quando não nos deixam voar

Caros leitores, imaginem o seguinte cenário, passam uma época, longe da família em diversos casos, a treinar com vento, chuva e frio, com longas viagens para jogar, com lesões que a qualquer momento podem aparecer e terminar a carreira e mesmo assim vencem, vencem e vencem, até que atingem um lugar que vos dá por direito um acesso a um play-off que, caso ganhem, vos permite jogar numa tão desejada liga superior; no entanto, esta oportunidade é vos retirada, sem uma razão digna pela Federação. Parece um problema de terceiro mundo, mas não, aconteceu em Portugal.

Neste artigo vou dar a minha opinião sobre a situação que aconteceu no Campeonato de Portugal com os seis clubes que estavam em lugar de play-off e não tiveram a oportunidade de o jogar. Neste artigo terei especial atenção ao clube que representei, o clube da minha terra, o meu clube, o Sport Clube Praiense.

No dia 7 do presente mês, a Federação Portuguesa de Futebol emitiu um comunicado onde afirmou que ascenderiam à Segunda Liga, o 1º classificado até ao momento da Série A, o Futebol Clube Vizela, e da Série B, o Futebol Clube de Arouca. A Federação justificou a escolha destes dois clubes para a subida de divisão, afirmando que foi feita tendo em conta o “mérito desportivo”,  e baseou-se no facto de os dois clubes em questão serem, dentro das quatro séries existentes, os casos onde havia um maior número de pontos conquistados. Isto é, o Vizela subiu porque tinha 60 pontos e o Arouca 58, enquanto os lideres das outras duas Séries tinham 53 (Praiense) e 57 (Olhanense).

Esta afirmação da FPF e as suas escolhas puseram-me a pensar. Então o Praiense e o Olhanense não tem “mérito desportivo”? Não tem todo o mérito de terem chegado ao lugar onde chegaram? Mas então, lá pelo Praiense e o Olhanense estarem em séries mais competitivas, onde há uma maior repartição dos pontos, não merecem subir?

Se ainda não está convencido que o critério de apenas subir as duas equipas com mais pontos não é correto, então apresento mais um argumento. Na temporada passada tudo foi realizado dentro da normalidade. Das quatro séries, foram a play-off as duas primeiras equipas de cada série. Os quartos de final foram realizados e depois vieram as meias finais. Nas meias finais jogou-se Casa Pia (2º classificado da Serie D) contra o Praiense (1º lugar na Serie D) e União de Leiria (1º  lugar da Serie C) frente ao Vilafranquense (2º classificado na Série C). Seguindo a lógica da Federação, o Praiense e a União de Leiria, supostamente conseguiam um lugar na final e, consequentemente, a presença na Segunda Liga. Não foi isso que se sucedeu, Praiense e União de Leiria ficaram pelo caminho e subiram o Casa Pia e o Vilafranquense, que, curiosamente, ficaram em segundo, atrás dos adversários que eliminaram; o que demonstra que a quantidade de pontos não foi assim tão importante.

Após esta decisão, a meu ver, escandalosa, da FPF, os seis clubes que estavam em posição de play-off e não subiram revoltaram-se. Os seis clubes (Benfica e Castelo Branco, Fafe, Lusitânia de Lourosa, Olhanense, Praiense e Real Massamá) juntaram-se às suas associações e já emitiram comunicados onde demonstravam o seu descontentamento e primavam pela verdade desportiva. Estes mesmos clubes convocaram uma reunião de urgência com a Federação, onde apenas pediram a presença de Fernando Gomes (presidente da FPF). Ao chegarem à reunião, após verem que Fernando Gomes não estava presente, os representantes dos clubes levantaram-se e foram embora; a reunião não durou um minuto e a não presença de Fernando Gomes foi vista como uma falta de respeito para com os clubes em questão. O Praiense já recorreu à decisão da Federação e a queixa já deu entrada no Conselho de Justiça federativo.

Agora falando mais especificamente no caso do Praiense, que é o clube da minha terra e que acompanho regularmente, a situação despoleta em mim um sentimento de angústia, preocupação e injustiça. Creio que quando falo do Praiense, falo por qualquer adepto de um dos seis clubes que vivem esta situação complicada e delicada.

Servi o Praiense durante vários anos e lá apaixonei-me pelo clube. Entre experiências boas e outras menos boas, entre lesões, desilusões e muitas alegrias, aprendi o que é ser Praiense. Ser Praiense é trabalho, esforço e sacrifício. É fazer tudo, o possível e o impossível, para nos batermos de igual para igual com qualquer adversário. É mostrar para Portugal inteiro a honra em ser das ilhas de bruma. É sermos menos, mas juntos, sermos mais que qualquer um. É fazer das tripas coração em qualquer treino ou qualquer jogo. É saber sofrer. Ser Praiense é a alegria de um povo trabalhador e humilde, que se revê na coragem da equipa, direção e equipa técnica que todos os fins-de-semana luta para dar aos adeptos um motivo para sorrir. Tirando nós, praienses, ninguém sabe “o orgulho que se sente por se ter sangue praiense”.

Depois de ser conhecida a decisão da Federação, o povo da Praia da Vitória também sentiu um enorme descontentamento, que, sem perder tempo, redigiu uma carta a Fernando Gomes, assinada por 53 figuras ilustres dos encarnados da Praia (uma figura por cada ponto conquistado esta época), na qual passo um pequeno excerto que me ficou na retina: “Fazemos-lhe um apelo. Ajude-nos a contar aos nossos filhos e netos uma bonita história, com um final feliz. Era uma vez o nosso Praiense, viviam-se tempos difíceis e atípicos, e um dia, a Direção da FPF, precipitadamente, injustamente e involuntariamente, tomou uma decisão que emergiu sentimentos de tristeza e revolta na nossa Praia da Vitória. Depois de uma época desportiva de investimento público e privado, de esforço e sacrifício e de mérito desportivo, de repente, pela aplicação de um determinado critério, o Praiense ficou afastado da possibilidade de aceder aos campeonatos profissionais de futebol quando liderava a Serie C do Campeonato de Portugal, com 53 pontos. Era um sonho que ficava desfeito. Mas, contaremos nós, mais tarde, com ponderação, humildade e reconhecimento, a FPF primou pelo exemplo, repôs a justiça, devolveu o que era nosso por direito próprio e realizou o sonho dos Praienses. Nesse dia, vamos nós dizer, fez-se historia, e sem mágoa ou rancor, despoletou-se alegria, gratidão e orgulho de se ser Açoriano, da Praia da Vitória e dos “encarnados” da Praia.” Até ao momento, Fernando Gomes ainda não se pronunciou.

Da minha parte, só tenho um apelo a fazer à Federação, que, certamente, de nada vale. Não estou a pedir para sermos beneficiados, estou a pedir para não sermos prejudicados, é diferente. Caso a decisão que atualmente vigora se mantenha, vamos, claramente, sair prejudicados. Pessoas, famílias, instituições e clubes dependem de uma decisão acertada. A realização de um play-off seria uma decisão arriscada, mas que eu não colocaria fora de questão. Contudo, acho que as afirmações de Marco Monteiro à SportTv+ são, no mínimo uma hípotese a ter em conta; o presidente do Praiense propôs a realização de duas séries na Segunda Liga. Os oito clubes que estavam em posição de play-off nesta temporada no Campeonato de Portugal subiriam à Segunda Liga.  Em 2020/21 a Segunda Liga teria as duas séries propostas, os primeiros classificados de cada série ascenderiam à Primeira Liga e desceriam ao Campeonato de Portugal as equipas necessárias para que na temporada 2021/22 a Segunda Liga regressasse à normalidade. A meu ver, como já disse, é, no mínimo, uma opção que deve ser estudada.

Por enquanto, o futuro é incerto e sombrio. Só tem uma palavra de apreço e de apoio para cinco representantes dos seis clubes que vivem esta situação dura. Para o Praiense quero agradecer em especial a todos os jogadores, equipa técnica e direção, por terem posto o Praiense no patamar onde está hoje e por terem levado o nome do clube além fronteiras. Convosco, sonhamos e acreditamos que poderia ter sido feita história no nosso clube. Para sempre, grato. Por fim, “onde houver disputa nós vamos à luta” porque “somos os melhores, somos os maiores, somos o Praiense”.

Alexandre Ribeiro

Nascido e criado na ilha Terceira, nascido e criado para o futebol. Desde cedo aprendi, vivi e vibrei com o desporto rei. A licenciar-me em Ciências da Comunicação na FCSH da Universidade Nova de Lisboa. Com o futebol e a escrita espero proporcionar um espectáculo fora das 4 linhas para todos aqueles que partilhem o gosto pela bola e pelos seus artistas.