Clubes “Fénix” em Portugal

O termo “clube fénix” nasceu em Inglaterra, mas é hoje usado também em vários países para descrever uma nova entidade desportiva criada para substituir um clube que falhou em termos de gestão, normalmente acabando por se extinguir. Em alguns casos, é criada pelos próprios adeptos do clube antigo e geralmente adota o mesmo nome, logotipo e uniforme.

Em Portugal, a grande maioria dos clubes fénix representam emblemas de menor estatuto, muitos a militar sobretudo nos campeonatos distritais, pelo que o termo nunca ficou tão conhecido no nosso país. No entanto, alguns representam nomes que, em tempos, já foram grandes no futebol português e que muitos adeptos ainda hoje recordam, sobretudo três.

Assim, esta semana damos-lhe a conhecer três clubes que atuaram na Primeira Liga num passado muito recente, mas que acabaram por ser extintos, “renascendo”, entretanto, pela mão de uma destas entidades.

Associação Naval 1º de Maio

Chegada à primeira liga pela primeira vez em 2005, muitos se recordam da Naval como o emblema que causava autênticas dores de cabeça aos grandes. Na época de estreia, arrecadou empates em Alvalade e na Luz (ambos sem golos) e ainda na Figueira da Foz com o Boavista (2-2).

Foram seis anos consecutivos no topo do nosso futebol, de 2005 a 2011, onde continuou a morder os calcanhares a gigantes, causando-lhes alguns tropeços. Em 2010 chegou a terminar em 8º lugar, a melhor classificação de sempre, ficando apenas a cinco pontos dos lugares europeus. No entanto, tudo o que é bom acaba depressa, e a descida acabou por bater à porta dos “navalistas”.

Apesar de se ter aguentado ainda dois anos na Segunda Liga, a Naval ver-se-ia despromovida na secretária em 2012, por incumprimentos no pagamento de salários. Quatro anos depois, e já com falta de jogadores, acabaria por descer aos distritais, onde apenas jogaria uma partida a contar para a Taça da Associação de Futebol de Coimbra (AFC) (perdeu por 3-0), a última do clube, antes da insolvência. Terminava assim a 5ª agremiação mais antiga do país (foi fundada em 1893), numa altura em que as suas camadas jovens ainda militavam em campeonatos nacionais.

Com isto, e prevendo o inevitável, no verão de 2017 um grupo de sócios e antigos dirigentes do clube reuniu-se para discutir a eventual criação de um novo emblema. Nem dito nem feito, a 24 de agosto do mesmo ano era oficialmente apresentada a Associação Naval 1893, o novo clube fénix do antigo emblema.

Ao longo dos meses seguintes, a Naval 1º de Maio procedeu à transição dos jovens atletas para o novo clube, que criou, entretanto, uma equipa sénior, atualmente a militar na Divisão de Honra da AFC. A formação disputa as suas partidas no antigo campo de treinos da “velhinha” Naval.

FC Felgueiras

Disputou uma única época na primeira divisão, em 1995/96. Uma passagem sem grande brilho, mas que ainda deu para “roubar” dois pontos ao FC Porto, logo na quinta jornada (empate a uma bola).

Sempre foi um clube consistente na 2ª divisão, onde passou a maioria dos seus anos. No entanto, um destino semelhante ao da Naval se avizinhava, senão pior. A certa altura, começou com sérias dificuldades financeiras e em 2005/06 foi impedido pela Federação de atuar na Segunda Liga, devido a salários em atraso bem como a dívidas fiscais e à Segurança Social. Como se não bastasse, no mesmo ano acabaria impedido de participar sequer na 2ª Divisão B (o equivalente, atualmente, ao Campeonato de Portugal).

O que já parecia grave…conseguiu ficar pior, com o emblema a ser acusado de estabelecer “relações perversas” com a autarquia de Felgueiras, a cuja presidente foi mesmo instaurado um processo crime.

Com um tão grande acumular de polémicas e sem solução à vista, a direção não teve remédio senão extinguir o clube, no verão de 2005.

A cidade começou a sentir a falta do futebol, pelo que em 2006, em honra do antigo emblema local, foram criados dois clubes, o CA Felgueiras e o FCF – Felgueiras. O primeiro acabaria por ser o mais bem-sucedido, subindo da segunda para a primeira divisão distrital da Associação de Futebol do Porto logo na primeira época, chegando mais tarde à Divisão de Honra (em 2010) e depois à 3ª Divisão nacional (em 2012).

Atingindo os campeonatos nacionais, o clube incorporaria o “rival” FCF – Felgueiras, dando mais força ao emblema. No mesmo ano, mudaria o nome para FC Felgueiras 1932, estabelecendo-se em definitivo como o sucessor do antigo FC Felgueiras (adotando, de resto, o mesmo emblema, estádio e cores), garantindo também a subida ao Campeonato de Portugal, onde permanece até hoje.

CF Estrela da Amadora

De longe o nome mais sonante deste trio, qualquer adepto de futebol em Portugal lembra-se bem do CF Estrela da Amadora.

Participante assíduo da Primeira Liga, vencedor de uma Taça de Portugal em 1990 e tendo ainda jogado na Taça das Taças e na Taça Intertoto, os “tricolores” são um emblema que ganhou bastante estatuto a nível nacional, sobretudo na última década do século XX. Não menos impressionante era a sua falange de apoio, estimando-se que contasse com cerca de 20 mil sócios nos anos 90.

A queda do clube, no entanto, começou a desenhar-se em 2009. Com graves dificuldades financeiras e dívidas que ascendiam quase aos 12 milhões de euros, o clube ver-se-ia impossibilitado pela Federação Portuguesa de Futebol (FPF) de se inscrever nas provas nacionais, acabando por ser despromovido diretamente para a 2ª Divisão (equivalente ao Campeonato de Portugal, atualmente).

A estadia no terceiro escalão não seria muito longa. Após ser declarado insolvente pelo Tribunal de Sintra, o emblema realizaria o seu último encontro em 2010, perdendo 0-1, com o Real SC. No mesmo ano, seria extinto.

Em 2011, o movimento “Sempre Tricolores”, constituído por adeptos do Estrela, tomou a iniciativa de fundar um novo clube, na esperança de que este pudesse “reencarnar” o antigo emblema da Reboleira. Nascia então o Clube Desportivo Estrela.

Apesar de ter surgido praticamente após o desaparecimento do velho clube, os tricolores teriam de esperar até 2017 para verem reunidas as condições de fundar uma equipa sénior, jogando apenas com escalões de formação até então.

Curiosamente, a sua estreia nos campeonatos distritais de Lisboa coincidiu com a crise do CF Os Belenenses, cuja nova equipa começaria no mesmo escalão e na mesma série que o Estrela. O embate entre os dois emblemas fez encher o Estádio José Gomes, numa tarde em que, com um futebol medíocre, o verdadeiro espetáculo veio da bancada, com cinco mil pessoas a assistir ao encontro, números nunca antes vistos a nível distrital, num ambiente que certamente fez lembrar velhos tempos.

O CD Estrela mantém-se, até hoje, no terceiro escalão do campeonato distrital da Associação de Futebol de Lisboa.

 

Imagens: Diogo Ventura / ObservadorAssociação Naval 1893FC Felgueiras 1932

Duarte Rosa

"Alfacinha" de gema, sportinguista de coração. Desde o clube à seleção nacional, o amor pela bola está presente desde cedo. A licenciar-se em Ciências da Comunicação, na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa, esta paixão pela escrita e pelo futebol forma uma dupla interessante, que espera vir a agradar aos seus leitores.