Lembra-se de Jaime Graça, o histórico mentor de Bruno Lage

Era oriundo de uma família de operários e tinha paixão pela bola. Podia ser esta a história de tantos futebolistas, da atualidade e de antigamente, mas desta feita falamos do caso de Jaime Graça. Um dos “Magriços”, era um médio de apenas 1,63m, mas com uma grande importância no futebol português dos anos 60′ e 70′ do século passado. Fez história no Vitória de Setúbal, Benfica e até salvou a vida a Eusébio.

Jaime Graça cresceu no seio de uma família modesta da Margem Sul, mas com ligação ao futebol. Aos dez anos de idade abandonou o ensino para iniciar-se na profissão de eletricista. A paixão pelo “desporto rei” era paralela a esta atividade, uma paixão partilhada com o irmão mais velho Emídio Graça, figura do Vitória de Setúbal.

Os primeiros passos da carreira de Jaime foram marcados pela humildade, habitual à época, dada a parca profissionalização do futebol. Ele atuou em vários clubes da região de Setúbal, mas foi no Palmelense que se mostrou ao Vitória FC. Juntou-se ao irmão Emídio com apenas 17 anos, em 1959.

Ganhou a titularidade em 1962/63, com 20 anos. Tornou-se peça regular e duas épocas depois marcou uns estonteantes 19 golos (apesar de atuar a médio), um deles na vitória frente ao Benfica por 3-1, na final da Taça. Era um talento a amadurecer, e por Setúbal ficou só mais um ano – a estreia na Seleção Nacional, em 1965, aliada à participação histórica no Mundial de 66′, onde foi totalista, fê-lo mudar de margem do Tejo e instalar-se no clube da Luz.

Da Margem Sul ao “todo-poderoso” Benfica

Chegou àquela que era a equipa mais poderosa em Portugal, já farto de enfrentar Eusébio no campeonato. “Com ele na minha equipa foi tudo mais fácil. Fui campeão sete vezes em nove anos. Só perdi dois campeonatos para o Sporting”, afirmou.

Os anos “gloriosos” de Jaime Graça confundem-se com um dos períodos mais brilhantes da história do Benfica: no total, conquistou sete campeonatos nacionais, três taças, jogou uma final europeia (perdida para o Manchester United).

O ofício de eletricista acabou por ser importantíssimo para Jaime no dia 5 de dezembro de 1966. Enquanto Eusébio, Matta da Silva e Luciano utilizavam uma moderna banheira de hidromassagem, um curto-circuito apanhou estes jogadores de surpresa. Jaime Graça agiu rapidamente e desligou o quadro da eletricidade, salvando Eusébio, Matta da Silva… mas não Luciano, defesa-central que morreu tragicamente com 25 anos. Na sequência disto, recebeu a Medalha de Prata da Ordem do Infante D. Henrique.

Em nove temporadas na Luz, seis como titular, jogou 159 de águia ao peito e apontou 19 golos. Ainda viria a representar o Vitória de Setúbal e o Sesimbra, encerrando nas origens uma brilhante carreira.

O mestre Graça e o aprendiz Lage

É justo abrir uma alínea neste artigo para a relação entre Jaime Graça e Bruno Lage, até porque o treinador do Benfica tem insistido em nunca esquecer o legado do seu amigo. Lage considera-o quase um “segundo pai” – o acaso juntou-os no final da primeira década do século XXI, tendo Jaime regressado ao Benfica, quarenta anos depois, para coordenar os Sub-17 encarnados, enquanto Bruno orientava os Sub-15.

Teve uma modesta carreira como treinador, em clubes como Caldas SC, Olivais e Moscavide ou como adjunto no Euro 86′, mas marcando profundamente Bruno Lage. “O Jaime Graça é o único homem importante da minha carreira”, afirmou o treinador benfiquista após a conquista do título em 2019.

A partida de Jaime, em 2012, deixou Lage inconformado e são recorrentes as suas homenagens à lenda benfiquista. Não só em entrevistas, como no festejo do título, e até no registo civil – ele é pai de um rapaz chamado Jaime. Fica a certeza de que o médio setubalense vive não só na memória de Bruno Lage, como na de muitos adeptos de futebol portugueses.

David Silva

Contar a minha história é falar de futebol. Primeiro, a paixão. Depois, a prática. Em seguida, uma deslocação de 71km entre a Lourinhã e a NOVA/FCSH, onde concluí o curso de Ciências da Comunicação, em 2019. Pelo meio, nove meses de estágio memoráveis no Canal 11, na Cidade do Futebol. E por fim, a paixão. Sempre.