Opinião: Estarão os clubes portugueses condenados a ser “um fracasso” na Europa?

Devemos sempre tentar tirar o lado positivo das situações negativas. Assim, podemos afirmar que os últimos dois meses, apesar de penosos, constituíram uma oportunidade única e nunca antes vista nos nossos tempos para pensar e reestruturar a sociedade em todas as suas vertentes e setores. O futebol é um desses setores e penso que é do senso comum que o português precisa de algumas alterações. Mas porque é que dá a sensação que por mais reuniões e debates que haja, por mais que os dirigentes mudem, vai continuar sempre (quase) tudo na mesma?

No início do século XXI, quando ainda havia alguma sensatez nos valores dos ordenados e das transferências dos grandes jogadores e o desporto rei ainda não era tão influenciado  por interesses de dirigentes e empresários, em Portugal foram conseguidas algumas proezas. O Boavista sagrou-se campeão nacional em 2001, sendo a segunda equipa não pertencente à elite dos “três grandes” a consegui-lo. Dois anos depois, o FC Porto venceu a Taça UEFA, sendo o primeiro emblema português a lograr esse feito e em 2004 ganhou a Liga dos Campeões, que até hoje não mais foi conquistada por um clube de fora das quatro “melhores ligas”. Nos anos seguintes, a “liga milionária” foi-se tornando cada vez mais inacessível, mas os emblemas lusitanos continuaram a realizar campanhas meritórias na Taça UEFA/Liga Europa. Destaque para a vitória “azul e branca” em 2011 e para as finais alcançadas pelo Benfica (duas vezes), Braga e Sporting (uma vez cada).

Nesta altura, o campeonato nacional estava recheado de grandes jogos e resultados inesperados, sendo ainda considerado o topo da carreira de muitos atletas de qualidade e não apenas um assumido “trampolim” para vôos mais altos.

Com o avançar da década de 2010, como apreciador do futebol lusitano, fui começando a ter a crescente sensação de que faltavam jogadores de qualidade na “nossa” liga. A “ditadura” dos interesses económicos e dos direitos televisivos forçou os maiores clubes de Portugal a venderem rapidamente os melhores jogadores formados nas suas (excelentes) academias. Os jogos começaram a ser tão previsíveis que desde 2016, FC Porto, SL Benfica e Sporting CP já igualaram ou superaram a marca dos 86 pontos na Liga NOS, feito que até então só os “dragões” de Mourinho tinham conseguido, no ano em que se sagraram campeões do “velho continente”.

O decréscimo de qualidade do futebol lusitano fez-se notar ainda mais no inverno do presente ano. Quando o Benfica, que tinha até então um percurso quase perfeito no campeonato, o FC Porto, o Sporting e o Braga se juntaram na fase a eliminar da Liga Europa, a expectativa era grande. O resultado? Todos eliminados na primeira ronda. Este desfecho até poderia ter sido positivo caso tivesse despertado os “comandantes” do futebol português a introduzirem mudanças significativas na sua estrutura, como por exemplo, um maior equilíbrio na distribuição dos direitos televisivos pelos clubes. Ao invés, continuaram as famosas “guerras” entre os três maiores clubes, em que se fala de tudo menos da parte essencial deste desporto: a bola!

A continuar assim, vamos entrar num ciclo vicioso. O futebol português vai atrair cada vez menos adeptos (tanto para os estádios como pelas televisões), menos patrocínios e menos jogadores de qualidade. Será difícil voltarmos a ter algum clube a singrar nas provas internacionais nos próximas décadas. Para inverter este ciclo é necessária uma enorme mudança de mentalidade em todos os que de alguma forma participam neste desporto, desde os dirigentes aos adeptos. Enquanto gostarmos mais dos nossos clubes do que de futebol, este não irá longe.

 

Rui Simão da Costa

Um jovem de 24 anos, natural de Coimbra, reunindo através do jornalismo desportivo, o gosto pela escrita e pelo futebol.