Opinião: Liga NOS 2019/20, o ano do campeão menos mau

Após a longa interrupção que a Liga NOS sofreu devido à pandemia de covid-19, faltam agora apenas sete encontros para ser finalizado o campeonato português, que está a ser, de resto, tudo menos agradável à vista nesta temporada.

Atualmente, FC Porto e Benfica dividem o primeiro lugar em igualdade pontual – apesar da vantagem portista devido ao confronto direto -, com 64 pontos cada. Quem vê a tabela classificativa sem ter acompanhado o que foi acontecendo ao longo da época pode pensar que está a acontecer um belo confronto entre os dois rivais, daí estarem taco a taco. Não podia estar mais enganado.

Se hoje águias e dragões estão tão renhidas na luta para saber quem será o campeão português, isso deve-se apenas a demérito das duas formações, até porque me arrisco a dizer que estamos a assistir a um dos piores anos da Liga NOS do qual tenho memória.

É óbvio que há e haverá sempre alguns resultados surpreendentes em todas as épocas, afinal falamos de futebol e os favoritos vêem-se dentro de campo, mas comecemos por ver os resultados obtidos pelas duas equipas esta época.

O Benfica é, na minha opinião, o caso mais gritante entre as duas equipas. Depois de no ano passado a equipa encarnada ter dominado por completo a segunda volta do campeonato, após a saída de Rui Vitória do comando técnico e a chegada de Bruno Lage, a equipa demonstrou um futebol atraente, dinâmico, com grande pendor ofensivo, o que se via pelas goleadas e exibições que se foram registando.

A equipa “apenas” perdeu Jonas e João Félix no verão – e coloco entre aspas porque eram jogadores de grande importância tática no esquema de Bruno Lage – precisando assim de se adaptar para esta nova temporada.

Grandes investimentos… em vão?

Para isso, gastou um total de 61 milhões esta época, com as chegadas de Chiquinho (quatro milhões de euros), Raúl de Tomás (20 milhões de euros), Carlos Vinícius (17 milhões de euros) e ainda Julian Weigl em janeiro (20 milhões de euros).

Apesar de RdT não ter convencido os dirigentes encarnados e ter por isso abandonado a Luz em janeiro rumo ao Espanyol, a verdade é que gastar mais de 60 milhões de euros numa temporada, estando no campeonato português, não é para todos.

No entanto, este investimento não passou para a qualidade exibicional e existe claramente uma discrepância entre o  Benfica da segunda metade 2018/19 e o Benfica 2019/20, o que se demonstra pelos resultados obtidos esta temporada.

Desde o início do mês de fevereiro – que foi apontado como sendo de extrema dificuldade – até ao presente momento da escrita, os encarnados totalizaram apenas três vitórias, três derrotas e quatro empates, que é um registo deveras negativo para um clube candidato ao título e que foi, inclusive, eliminado das provas europeias durante esse período.

Quanto ao FC Porto, esse não se ficou atrás das águias no que toca ao investimento, gastando um total de 63,1 milhões de euros no verão, por forma a garantir as contratações de Nakajima (12 milhões), Zé Luís (10,75 milhões), Mateus Uribe (9,5 milhões), Marchesín (7,7 milhões), Mamadou Loum (7,5 milhões), Luis Díaz (7,22 milhões), Saravia (5,5 milhões) e ainda o regresso de Marcano (2,93 milhões).

Contudo, à semelhança das águias, o dinheiro gasto pelos azuis e brancos também não se traduziu em bom futebol praticado – existindo neste caso ainda a agravante de terem ficado sob a alçada da UEFA por incumprimento do fair-play financeiro.

Qualidade (ou falta dela) dentro de campo

A má forma do FC Porto não foi, no entanto, igual à do Benfica. Os dragões pautaram a sua época, até ao momento, de uma inconstância exibicional e de resultados. Foram cedo eliminados da Liga dos Campeões, mas até iniciaram bem o campeonato. Perderam a final da Taça da Liga no último minuto do jogo frente ao Sporting de Braga e até conseguiram aproveitar a má fase das águias para chegar ao topo da liga, apesar de também terem sido eliminados da Liga Europa.

No entanto, começaram os maus resultados. Empataram ainda em março, em casa, frente ao Rio Ave e já após o retomar da Liga NOS perderam com o Famalicão, ganharam com uma fraca exibição ao Marítimo e empataram recentemente na casa do último classificado, o Desportivo das Aves, estando agora o campeonato como sabemos, empatado.

O ponto fulcral acaba por ser mesmo a qualidade do futebol, porque, como já referi, deslizes acontecem sempre e até um Barcelona ou um Liverpool por vezes têm exibições menos conseguidas. Agora, a verdade é que tanto águias e dragões estiveram longe de convencer esta temporada com a qualidade demonstrada no seu futebol, como se pode ver pela fraca exibição azul e branca frente ao Aves esta semana e pelo vitória tangencial dos encarnados frente ao Rio Ave, que, na minha opinião, apenas foi possível face às duas expulsões dos vilacondenses.

Isto leva-me a acreditar que o futebol português chegou esta época ao fundo do poço ao nível de qualidade. É verdade que continuamos a fazer despontar grandes talentos – basta ver a ida de Trincão para Barcelona – e que continuamos a trazer jogadores de qualidade menos conhecidos para as nossas fileiras – exemplos de Luis Díaz ou até mesmo Marcus Edwards, do Vitória SC, e Taremi, do Rio Ave -, mas o nosso futebol parece-me cada vez menos apaixonante.

Lembro-me de ver um FC Porto que venceu tudo com André Villas-Boas no comando e com estrelas que hoje jogam nos maiores palcos mundiais. Lembro-me de um Benfica comandado por Jorge Jesus a eliminar equipas como a Juventus na Europa e a dominar internamente. Hoje? Hoje não vejo nada que se assemelhe a isso.

Não sei como terminará o campeonato, até porque faltam jogar sete jogos. Totalizam 21 pontos, o que é muito futebol e pelo meio ambas as equipas terão jogos de elevada dificuldade, mas arrisco-me a dizer que quem quer que seja o campeão, não será algo merecido. Arrisco-me a dizer que este ano o campeão será a equipa que nesta reta final for menos mau, quem errar menos e não quem mereceu mais, quem praticou melhor futebol ou quem foi mais inteligente. Arrisco-me a dizer que o campeão 2019/20, será o “campeão menos mau”.

Fonte da Imagem: SL Benfica

Francisco Carvalho

Desde tenra idade que duas paixões me cativaram, desporto e a escrita, sendo a sua união o cenário ideal. Cedo percebi que com esforço e dedicação poderia juntar uma paixão a uma profissão, sendo o jornalismo a resposta. Numa geração onde a banalização e a desvalorização da informação são recorrentes, quero mostrar a relevância do mundo jornalístico em toda esta sociedade cativante que nos rodeia.