Quem te viu e quem te vê: Depoitre, o gigante que não singrou no Porto

No “Quem te viu e quem te vê” desta semana falamos de Laurent Depoitre, avançado que não deixou muitas saudades aos adeptos portistas. Sabe o que é feito do belga?

Ao contrário da esmagadora maioria dos futebolistas que disputam os principais campeonatos europeus, Depoitre não pensava tornar-se jogador profissional e sempre privilegiou os seus estudos, tendo inclusivamente frequentado o curso de Engenharia Civil na Universidade Livre de Bruxelas. Contudo, em 2013, quando tinha 24 anos, suspendeu a sua matrícula dado que o Oostende, clube no qual militava, havia conseguido a subida para a primeira divisão da Bélgica.

Foi só quando chegou ao principal escalão do futebol belga que o ponta de lança decidiu focar-se a 100% na modalidade e deixar de conciliar a vida académica com a desportiva. Até então o jogador só tinha representado modestos emblemas (RFC Tournai, RRC Péruwelz e SC Eendracht Aalst) das divisões inferiores do seu país e, por isso, não esperava viver do futebol.

Depoitre assinou pelo Oostende no verão de 2012, proveniente do Eendracht Aalst, (onde, em 2010/11, alcançou a subida da terceira para a segunda liga) e, logo na sua primeira temporada ao serviço do novo clube, apontou 15 golos e quatro assistências em 38 jogos, contribuindo para que a sua equipa terminasse em primeiro lugar e fosse promovida para a principal divisão.

Apesar de a qualidade dos adversários ter aumentado consideravelmente no ano seguinte, o atleta manteve a sua veia goleadora, registando 10 tentos e sete passes para golo em 37 partidas e consolidando a presença do Oostende na Jupiler Pro League, ao ficar em décimo lugar.

As suas prestações foram suficientes para atrair o interesse de uma das maiores equipas da Bélgica: o Gent. Foi assim que, no mercado de verão de 2014, aos 25 anos, Depoitre deu o salto na carreira e assinou pelo conjunto de Gante.

O gigante voltou a não desiludir os seus adeptos e teve uma excelente época a nível coletivo e individual: fez as redes adversárias abanar 14 vezes e assistiu os seus colegas em nove ocasiões ao longo de 40 encontros e o Gent sagrou-se campeão nacional e conquistou também a Supertaça que se seguiu.

Na temporada 2015/16, o avançado continuou em boa forma ao acrescentar 16 golos e cinco assistências em 47 jogos à sua conta pessoal. Foi também nesta época que o jogador se estreou nas competições europeias, mais especificamente na Liga dos Campeões, onde apontou um golo frente ao Zenit, e que o Gent fez história ao tornar-se na primeira equipa belga a ultrapassar a fase de grupos da prova milionária, acabando por ser eliminado nos oitavos de final pelo Wolfsburgo.

As notáveis exibições no seu país convenceram a direção liderada por Pinto da Costa, a pedido do antigo treinador azul e branco (Nuno Espírito Santo), a investir seis milhões de euros na aquisição dos serviços do então jogador de 27 anos, em agosto de 2016.

Porém, a sua passagem por Portugal foi um fracasso. Devido à elevada concorrência que existia no setor ofensivo do plantel (André Silva, Tiquinho Soares, Diogo Jota, entre outros), o seu tempo de jogo foi reduzido (entrou em campo 13 vezes, das quais somente cinco foram a titular) e acabou por não aproveitar as chances que lhe foram dadas, registando apenas dois tentos e uma assistência.

Mais tarde, numa entrevista à Sports FR, Depoitre explicou o que correu mal no Dragão: “Não foi uma época nada fácil. Vinha de dois anos muito bons no Gent e queria uma experiência no estrangeiro. Sabia que o FC Porto era um grande clube. Ia disputar a Liga dos Campeões, não podia recusar. Mas não correu como previsto. O FC Porto é um grande clube em Portugal e as equipas pequenas, quando o defrontam, jogam de forma muito defensiva. Não há muitos espaços para um avançado e isso não tem nada a ver com a minha forma de jogar. Quando me deram uma oportunidade, não a agarrei.”

Depois do insucesso na Invicta, o belga mudou-se para Inglaterra, para representar o recém promovido à Premier League Huddersfield Town, a troco de 3,8 milhões de euros. Assim, apenas no espaço de um ano, as transferências do jogador valeram um prejuízo de 2,2 milhões aos cofres dos dragões.

A sua estadia no Reino Unido durou dois anos. Na primeira época, o ponta de lança apresentou números razoáveis: colocou o esférico dentro das balizas adversárias seis vezes e serviu os seus colegas para o golo em dois momentos em 35 jogos. Assumiu ainda o papel de herói ao marcar o golo que garantiu a manutenção da sua equipa na primeira divisão frente ao Chelsea.

Na temporada 2018/19, a situação piorou. As suas oportunidades reduziram consideravelmente, entrando em campo em 25 ocasiões (12 a titular) e não conseguiu marcar qualquer golo, apontando apenas uma assistência. A nível coletivo, a época do Huddersfield foi desastrosa, terminando no último lugar da liga inglesa.

Após duas aventuras mal sucedidas no estrangeiro, esta época o atleta de 31 anos voltou para onde havia brilhado anteriormente, ou seja, para o Gent. O seu regresso foi um sucesso. O gigante foi titular na maioria dos jogos da sua equipa (35 vezes utilizado; 31 de início) e respondeu à confiança em si depositada com 15 golos e quatro assistências.

Laurent Depoitre é assim um exemplo de um jogador que, embora tenha qualidade inegável, simplesmente não se conseguiu adaptar a outras culturas futebolísticas nem a campeonatos mais competitivos.

 

Fonte das Imagens: Twitter FCPorto, Instagram Laurent Depoitre, Twitter KAA Gent

Simão Vitorino

Nasci e cresci em Vila Franca de Xira e estou atualmente a tirar uma licenciatura em Ciências da Comunicação na faculdade NOVA FCSH com o objetivo de me tornar jornalista desportivo no futuro, profissão que une duas grandes paixões minhas - o futebol e a escrita.