Opinião: O 12º jogador em Portugal

É costume dizer-se que os adeptos de um clube de futebol constituem o 12º jogador, numa alusão, não só à proximidade que estabelecem com os atletas, mas também ao papel que desempenham no apoio à equipa. Não é, com isto, menos comum ouvir-se dizer que “os adeptos ganham jogos”.

Em Portugal, são vários os clubes que se podem orgulhar das suas massas associativas. Acontece, porém, que a larga maioria dos portugueses, enquanto adeptos de futebol, acaba por se afeiçoar aos emblemas do costume: Sporting, Benfica ou Porto. Ainda assim, é possível encontrar, por esse país fora, muitos adeptos que, dos “três grandes”, apoiam o clube da terra.

O futebol, enquanto desporto, faz-se de resultados, por isso nem sempre as melhores “bancadas” conseguem um lugar na Primeira Liga. Deste modo, esta semana apresento aqui quatro emblemas que, na minha opinião (e na de muitos, certamente), possuem adeptos dignos da nossa primeira divisão, estando neste momento a militar em escalões inferiores.

Leixões SC

Leixões SC (Facebook)

Começamos em Matosinhos, onde reside um dos mais históricos clubes do nosso país, o Leixões Sport Club.

Não sendo um emblema com um vasto historial de sucesso, tendo como principais feitos a conquista da Taça de Portugal, em 1961, e o quinto lugar alcançado na 1ª Liga, em 1963, o clube sempre foi mais conhecido pela devoção dos seus adeptos, uma das mais apaixonadas massas associativas do norte do país.

Numa região em que, a meros quilómetros da cidade do Porto, as pessoas tendem a apoiar os azuis e brancos, Matosinhos é das poucas cidades em que a maioria dos seus habitantes se mantém fiel ao clube local.

A razão pela qual trouxe os “bebés do mar” para esta lista, no entanto, foi mais específica. O Leixões prepara-se agora para entrar numa das fases mais negras da sua história, tendo sido recentemente banido das ligas profissionais por dois anos, acusados de viciação de resultados.

A notícia veio a público nas vésperas do jogo diante do SC Farense e a resposta dos adeptos não se fez tardar, correspondendo ao apelo do treinador e enchendo o Estádio do Mar com mais de 4000 pessoas, números manifestamente acima do habitual, fazendo-se acompanhar por tarjas com críticas ao castigo aplicado, mas também mensagens de apoio e de compromisso com o clube, numa noite em que, de resto, se fizeram ouvir ao longo de todos os 90 minutos.

O clube terá um período duro pela frente, mas, com adeptos destes, certamente que a pena fica atenuada.

Lusitânia de Lourosa FC

Lusitânia de Lourosa FC (Facebook)

De Matosinhos seguimos para Santa Maria da Feira, mais concretamente para a freguesia de Lourosa, a casa do Lusitânia de Lourosa Futebol Clube.

Se a massa adepta do Leixões não se explica pelo sucesso dentro de campo, a do Lourosa ainda menos. Falamos de um clube cujo maior feito foi alcançar as meias finais da Taça de Portugal, em 1994, e que nunca (repito, nunca) jogou na Primeira Liga, nos seus 96 anos de existência. Já ao nível do campeonato, não foi além da segunda divisão, patamar que, de resto, apenas alcançou por 14 vezes.

Para uma freguesia com menos de 9000 habitantes, e numa cidade onde também habita o CD Feirense, o Lourosa facilmente atrai 2000 a 3000 adeptos por jogo, números absolutamente incríveis, quando tida em consideração a dimensão do emblema.

Para um clube “bairrista”, como muitos lhe chamam, se fosse pelos adeptos, certamente que estaria há muito assente no topo do nosso futebol.

SC Espinho

Sporting Clube de Espinho (Facebook)

Outro emblema que vive atualmente períodos muito difíceis, mas cujos adeptos parecem resistir a todas as adversidades. Estabelecido na cidade de Espinho, falamos, logicamente, do Sporting Clube de Espinho.

Decidi incluir este clube na lista, não só por ser um histórico do nosso futebol, contando 11 presenças na Primeira Liga, mas sobretudo pela resposta que a sua massa associativa tem dado, apesar de todos os problemas que atravessa, entre os quais ver-se forçado a treinar e a jogar em casa emprestada, no Estádio do Bolhão, em Fiães, a mais de 11 km do velhinho Estádio Comendador Manuel de Oliveira Violas, agora demolido.

Para um emblema que há já dois anos que não joga, verdadeiramente, em casa, os adeptos têm tomado bem conta do recado, deslocando-se em grande número, não só a Fiães, como à maioria dos jogos fora.

Numa altura em que se aguarda pela construção do novo estádio prometido pela Câmara, já faltou mais para os “Tigres da Costa Verde” regressarem a casa, e quando voltarem…certamente que a bancada tratará das “boas vindas”.

FC Tirsense

Futebol Clube Tirsense (Facebook)

São inúmeras as histórias de clubes de futebol que, atravessando dificuldades, se viram apoiados e, por vezes, até salvos pelos seus adeptos. Pois bem, no caso do Futebol Clube Tirsense…passou-se exatamente o contrário, com o clube a “resgatar” os seus próprios adeptos.

Com a descida aos campeonatos distritais, o emblema de Santo Tirso tomou medidas para evitar que os adeptos se afastassem do clube, promovendo iniciativas como a redução do preço dos bilhetes, tornando-os gratuitos em alguns jogos até, e saindo à rua, literalmente, promovendo os jogos em casa e distribuindo bilhetes pelos cafés e pelas pessoas que abordavam na cidade.

O resultado? Não só não perderam a ligação com a bancada como há quem diga que o clube se encontra mais próximo que nunca dos habitantes de Santo Tirso, registando, no final desta temporada, uma média de assistências impressionante, superior a grande parte das equipas da Primeira Liga.

Em 2019, no jogo diante do Freamunde, por exemplo, estiveram mais de 9000 pessoas no estádio, numa partida que ocorreu, diga-se, à mesma hora que o jogo do FC Porto para a Liga NOS.

De resto, com assistências a rondar os 5000 adeptos, os “Jesuítas”, como são conhecidos, parecem-me bem acompanhados para atacar o regresso às competições nacionais, no ano que vem.

 

Imagem destaque: Futebol Clube Tirsense (Facebook)

Duarte Rosa

"Alfacinha" de gema, sportinguista de coração. Desde o clube à seleção nacional, o amor pela bola está presente desde cedo. A licenciar-se em Ciências da Comunicação, na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa, esta paixão pela escrita e pelo futebol forma uma dupla interessante, que espera vir a agradar aos seus leitores.