Quanto mais jogadores portugueses, maior a probabilidade de ser campeão?

Esta semana, analisamos os pódios da Primeira Liga dos últimos 20 anos e, com base no número de portugueses em cada plantel, tentamos perceber se esta é uma condição para ser campeão. Será que quantos mais portugueses melhor? Ou são os estrangeiros que por cá mandam?

1999/00: Na entrada no novo século, o Sporting Clube de Portugal foi campeão nacional, quebrando assim um jejum de 18 anos. No pódio, ficaram Porto (2º lugar) e Benfica (3º lugar). Em Alvalade, o português de Portugal era falado por 14 atletas. Do outro lado da segunda circular, 19 portugueses vestiam de águia ao peito. No Norte era onde o maior número de portugueses habitava, eram 22 o número de portugueses que jogava sob o comando de Fernando Santos. Em suma, dos três primeiros classificados, o que tinha mais portugueses era o segundo e o clube com menos era o primeiro classificado.

2000/01: Novo campeão nacional. O Boavista sagrava-se pela primeira vez na sua história campeão de Portugal. A segunda e terceira posição eram ocupadas pelo Porto e pelo Sporting, respetivamente. O campeão Boavista tinha 14 portugueses a vestir a axadrezada, enquanto o Porto tinha 21 e o Sporting 20. Apesar da mudança de ano, o campeão tinha sido novamente a equipa com menos portugueses, enquanto, como já tinha acontecido no ano anterior, o segundo posto foi o que alinhou com mais portugueses.

2001/02: Após um ano de interrupção, o campeonato voltou a ficar em Alvalade. Com 21 jogadores nascidos na terra de Amália, o Sporting conquistou o seu mais recente campeonato nacional. O restante pódio encontrava-se no Norte; Boavista (15 portugueses) e Porto (22) ocupavam a segunda e terceira posição. Desta vez, o maior número de portugueses estava no terceiro posto e o menor no segundo lugar.

2002/03: O Porto de José Mourinho começava a apresentar-se ao mundo. Os dragões, numa época onde também venceram a Liga Europa, venceram o campeonato com 27 (!) portugueses. O Benfica, no segundo lugar, tinha 17 portugueses no plantel e o Sporting, na terceira posição, jogava com 20. Nesta época, por uma diferença absurda, a equipa com mais jogadores nascidos em Portugal ocupou a primeira posição, enquanto o plantel com menos portugueses ficou no segundo lugar.

2003/04: De novo, Porto e Mourinho. Sem se contentarem com a Liga Europa, decidiram vencer, nesta temporada, a Liga dos Campeões. No entanto, por cá, mantiveram-se como vencedores da Primeira Liga, alinhando com uns surpreendentes 28 portugueses. Benfica e Sporting tinham no seu plantel 13 e 21 portugueses, respetivamente. O primeiro classificado voltou a não dar hipóteses e a ser o plantel com mais jogadores de Portugal, enquanto o segundo classificado voltou a ser o plantel com menos portugueses.

2004/05: O Sport Lisboa e Benfica quebrou o seu longo jejum e, com 19 portugueses, voltou a ser campeão nacional. Porto (22) e Sporting (20) ficaram nos lugares menos prestigiados do pódio. Na primeira posição ficou a equipa com menos portugueses e, a equipa com mais portugueses, ficou no segundo lugar.

2005/06: O técnico holandês Co Adriaanse levou o Porto à conquista do campeonato. Com 19 portugueses, o título voltou ao Norte. No pódio, ficaram as equipas lisboetas, Sporting, com 24 jogadores de Portugal e Benfica, com 21. Desta feita, o vencedor da Liga era o que tinha menos portugueses e o segundo classificado o que tinha mais.

2006/07: Porto, Sporting e Benfica partiram para a última jornada todos com possibilidades de conquistar o título. No entanto, o pódio não se alterou e o campeonato ficou pela ordem que foi referido anteriormente. O Porto tinha 14 portugueses no seu plantel, o Sporting 17 e o Benfica 17. Pela primeira vez, houve empate, o maior número de portugueses estava no plantel do segundo e do terceiro classificado, enquanto o vencedor do campeonato tinha o menor número de “tugas”.

2007/08:  Campeonato extremamente tranquilo para o FC Porto, que, com 15 portugueses, foi campeão. No segundo lugar ficaram os leões com 11 portugueses e, no terceiro posto, uma estreia, o Vitória de Guimarães, com 11 jogadores de Portugal, ficou à frente das águias. O campeão alinhou com mais portugueses enquanto o segundo e terceiro alinharam com menos.

2008/09: O Porto conquista o seu tetracampeonato. Os 15 jogadores portugueses ajudaram o técnico português Jesualdo Ferreira a vencer uma vez mais o seu campeonato. Em segundo lugar voltou a ficar o Sporting de Paulo Bento, com 18 portugueses e na terceira posição ficou o Benfica, de Quique Flores, que contava com 10 portugueses. O segundo classificado teve o plantel com mais portugueses, enquanto, por outro lado, no terceiro posto estava a equipa do pódio com menos jogadores nascidos em Portugal.

2009/10: Benfica volta a ser campeão, desta vez com Jorge Jesus. O técnico português e os seus 11 compatriotas fizeram com que o campeonato voltasse a ser festejado na Luz. O Sporting de Braga foi a grande surpresa do campeonato e acabou por ficar em segundo lugar, com 17 portugueses, a cinco pontos do Benfica. Na terceira posição ficou o Porto, com 13 jogadores de Portugal. Esta temporada, o segundo lugar tinha mais portugueses e o primeiro menos.

2010/11: O Porto voltou a não dar a mais pálida hipótese aos adversários. Com André Villas-Boas, os 13 portugueses juntaram a Liga Europa, a Taça de Portugal e a Supertaça ao Campeonato. O Benfica ficou no segundo lugar, com nove portugueses e o Sporting ocupou o terceiro posto, com 21 portugueses. A equipa com mais portugueses ficou na terceira posição, enquanto a que tinha menos ocupou o segundo posto.

2011/12: Após a saída de Villas-Boas, Vitor Pereira assumiu o comando técnico do Porto e juntamente com os 10 portugueses que atuavam no plantel dos dragões, conquistou o campeonato nacional. O Benfica de Jorge Jesus (13 portugueses) e o Sporting de Braga (14 portugueses) ocuparam os outros dois lugares do pódio. Desta feita, o vencedor do campeonato foi o que alinhou com menos portugueses, enquanto o terceiro classificado era o que tinha mais portugueses no seu plantel.

2012/13: O campeonato do golo de Kelvin. Apesar do golo decisivo ter sido marcado por um brasileiro, a equipa do Porto contou com 10 portugueses para se sagrar campeã nacional. No segundo lugar, como é sabido, ficou o Benfica de Jorge Jesus, com 12. A terceira posição foi ocupada pelo surpreendente Paços de Ferreira, que conquistou este lugar histórico com 21 portugueses. A história voltou a repetir-se e o terceiro lugar teve mais portugueses e o primeiro classificado foi quem teve menos.

2013/14: Na época em que Eusébio e Mário Coluna nos deixaram, o Benfica venceu o campeonato, com 12 jogadores que estavam elegíveis para representar a seleção das quinas. O Sporting, agora de Leonardo Jardim, voltou ao segundo posto, desta feita com 19 jogadores portugueses. No último lugar do pódio, ficou o Porto, com somente sete jogadores portugueses. Nesta época, o segundo classificado tinha sido o clube com mais portugueses e o terceiro posto seria o que menos jogadores de Portugal tinha.

2014/15: Bicampeonato para o Benfica de Jorge Jesus. Com 13 portugueses, o campeonato voltou a ficar na Luz. O segundo lugar voltou a pertencer ao Norte, o Futebol Clube do Porto tinha no seu plantel 8 jogadores de Portugal. Em Alvalade ficou o terceiro lugar, defendido por 26 portugueses. Com uma diferença de 13 jogadores, o terceiro classificado tinha o plantel com mais jogadores portugueses, enquanto o segundo lugar pertencia ao plantel com menos portugueses.

2015/16: Campeonato marcado pela troca de Jesus da Luz para Alvalade e pela notável recuperação de Rui Vitória que, com os seus 12 compatriotas, conquistaram o campeonato. Em segundo lugar ficaram os leões (15 portugueses), de Jorge Jesus, que lutaram até ao fim do campeonato pelo título. No terceiro posto, ficou o Porto (14 jogadores) do espanhol Julen Lopetegui. Neste campeonato, o segundo classificado estava entregue ao plantel com mais portugueses, enquanto os campeões eram os que tinham menos lusitanos.

2016/17: O Tetra do Benfica e o Bi de Rui Vitória. Os 17 encarnados portugueses foram essenciais para esta conquista. O Porto, que alinhou com 12 portugueses, ficou na segunda posição e os leões, de Jorge Jesus, que no seu plantel tinham 18 jogadores de Portugal, ocuparam o último posto do pódio. A terceira posição voltou a ser novamente a que tinha mais portugueses, enquanto o segundo lugar era o que tinha menos portugueses.

2017/18: Sérgio Conceição assume o comando dos Dragões (que contavam com 16 portugueses) e o título fica no Norte. Na segunda posição ficou o Benfica de Rui Vitória, com 13 portugueses. Os leões, com vários problemas internos, ficaram na terceira posição e no seu plantel tinham 23 portugueses. Repetição da época passada, o terceiro lugar voltou a ter mais portugueses enquanto os segundos voltaram a ter menos jogadores nascidos em Portugal.

2018/19: A reconquista de Bruno Lage. Os encarnados, após um ano de interrupção, voltaram a ser campeões, desta feita com 16 portugueses. Em segundo, os dragões de Conceição, que ao seu dispor tinha 10 jogadores nascidos em terras lusas. Por fim, o Sporting ocupou a terceira posição, com 14 portugueses. O campeão acabou por ser a equipa com mais portugueses, enquanto o segundo classificado era o que tinha um menor número de portugueses no plantel.

2019/20: Se a época transata tinha sido a reconquista de Bruno Lage, esta foi a reconquista de Sérgio Conceição. O treinador português voltou a vencer o campeonato com o Porto, sendo que desta vez contou com 13 portugueses aos seus serviços. As águias ficaram em segundo e contaram com 15 atletas portugueses. Apesar do terceiro lugar ainda não estar oficialmente atribuído, à data da realização deste artigo, o Sporting ocupava esta posição, posto isto, os leões contam com 16 portugueses. Esta época, foi possível verificar que o campeão foi quem tinha menos portugueses no plantel e o terceiro classificado foi aquele que com mais portugueses podia contar.

Com base nesta análise, é possível verificar que:

Mais portugueses/Vencedor: 4 (2002/03, 2003/04, 2007/08, 2018/19)

Mais portugueses/2ºlugar: 9 (1999/00, 2000/01, 2004/05, 2005/06, 2006/07, 2008/09, 2009/10, 2013/14, 2015/16)

Mais portugueses/3ºlugar: 9 (2001/02, 2006/07, 2010/11, 2011/12, 2012/13, 2014/15, 2016/17, 2017/18, 2019/20)

Menos portugueses/Vencedor: 10 (1999/00, 2000/01, 2004/05, 2005/06, 2006/07, 2009/10, 2011/12, 2012/13, 2015/16, 2019/20)

Menos portugueses/ 2ºlugar: 9 (2001/02, 2002/03, 2003/04, 2007/08, 2010/11, 2014/15, 2016/17, 2017/18, 2018/19)

Menos portugueses/3º lugar: 3 (2007/08, 2008/09, 2013/14)

É possível verificar que no início do século, as equipas com mais jogadores portugueses conseguiam resultados bastante favoráveis, o que muito provavelmente estava relacionado com os objetivos do jogador português, que era chegar a um grande e ser campeão nacional, como pode ser observado no Porto de 2003/04; com a evolução do tempo, os objetivos dos jogadores portugueses foram mudando e passaram por explorar cada vez mais o futebol internacional, o que leva aos clubes nacionais, que querem apostar forte no campeonato nacional a irem ao mercado estrangeiro (muitas das vezes o sul-americano). Com isto, nos tempos mais atuais, as equipas com mais portugueses apostam forte na sua formação, devido ao facto de se tentarem “reconstruir”, como por exemplo o Sporting de 2019/20 e o Sporting de 2010/2011. Contudo esta aposta na formação não faz milagres, e muitas das vezes quem aposta muito na formação (e consequentemente no jogador português), não tem resultados muito positivos e acaba por ocupar muitas das vezes as piores posições do pódio. Em suma, vemos que cada vez menos, ter muitos portugueses no plantel é sinónimo de título; nos dias que correm, muitas das vezes, os que atuam com menos portugueses, conseguem resultados mais favoráveis, o que, em diversos casos, é proveniente das fortes investidas no mercado.

Top-3 equipas do pódio com mais portugueses:

  1. FC Porto / 28 portugueses (2003/04)
  2. FC Porto / 27 portugueses (2002/03
  3. Sporting CP / 26 portugueses (2014/15)

Top-3 equipas do pódio com menos portugueses:

  1. FC Porto / 7 portugueses (2013/14)
  2. FC Porto / 8 portugueses (2014/15)
  3. SL Benfica / 9 portugueses (2010/11)

Fonte das imagens: Twitter da Playmakerstats, do Benfica e do Sporting.

Alexandre Ribeiro

Nascido e criado na ilha Terceira, nascido e criado para o futebol. Desde cedo aprendi, vivi e vibrei com o desporto rei. A licenciar-me em Ciências da Comunicação na FCSH da Universidade Nova de Lisboa. Com o futebol e a escrita espero proporcionar um espectáculo fora das 4 linhas para todos aqueles que partilhem o gosto pela bola e pelos seus artistas.