Ter ou não ter fé em Jesus?

Talvez ainda mais impactante que o seu “abandono” desde o Benfica para o rival de Alvalade, o regresso de Jorge Jesus é a notícia da atualidade do futebol português.

Uma das figuras mais icónicas do desporto no nosso país, campeão pelo Benfica, vice-campeão pelo Sporting e “conquistador” da América do Sul, tornou-se um herói entre os adeptos do Flamengo e foi consagrado como uma figura eterna do futebol brasileiro, apesar da sua breve passagem.

O regresso do técnico é muito mais que a contratação de um novo treinador, mas numa escala que, enquanto acompanhante apaixonado durante anos do futebol, nunca vi. A conjuntura é difícil e não é uma simples troca de treinador no fim de uma temporada, o Benfica ainda tem uma jornada do campeonato e uma final da Taça de Portugal para disputar, sob o comando do substituto temporário, Nélson Veríssimo.

Contudo, tudo (!) é posto em análise e cada adepto consegue elaborar um  ponto de vista apoiado em diferentes aspetos e facetas do clube para apoiar, defender ou continuar indeciso face à nomeação do técnico.

Jesus para ressuscitar a presidência de Vieira?

A presidência do clube é um ponto chave, com eleições no futuro próximo do Benfica e a chegada de Jesus a servir como um ponto vital da campanha de Luís Filipe Vieira, que também pode acabar por prejudicar o atual presidente do clube nas eleições. O projeto alicerçado na formação que o clube vinha orgulhosamente publicitando, especialmente após a saída do treinador em 2015, entra em choque com o técnico em questão. Reduzindo tudo a uma frase, Jesus chega para treinar o Benfica, mas ninguém sabe que Benfica é esse.

Assumo que me opus à chegada do treinador ao clube desde que se tornou uma possibilidade, estou bem ciente das suas competências enquanto treinador e do seu conhecimento futebolístico, da mesma maneira que estou ciente da sua (controversa) gestão de um plantel e da forma como deixou o Benfica em 2015.

O futebol jogado pelo Benfica, Sporting e Flamengo foi bom, até excelente em certos momentos, os resultados refletiram-no e vários jogadores demonstraram publicamente o seu afeto pelo treinador e por tudo aquilo que Jesus fez por eles, inclusive veteranos que já passaram por vários grandes clubes e treinadores, deixando uma nota especial para o impacto que o técnico português teve nos mesmos (caso de Filipe Luís e Rafinha, por exemplo).

Um treinador marcante, no bom e no mau sentido

Recentemente o Benfica divulgou um vídeo com os melhores momentos dos anos em que Jorge Jesus treinou o clube e, confesso, alguma nostalgia apoderou-se de mim, recordações das adaptações de Enzo Peréz e Fábio Coentrão, da explosão de Rodrigo, Witsel, Garay, Lima, Cardozo, Salvio, Gaitán e todos os outros grandes jogadores que brilharam sob o comando do técnico. De todo o bom futebol que pudemos ver durante seis anos e os troféus que conseguimos conquistar.

O que a minha memória não me deixa esquecer é o lado negativo dos seis anos que Jorge Jesus esteve no Benfica. Ignorando já a sua saída e falta de respeito apresentada por vezes ao meu clube. Pessoalmente basta pensar apenas no que JJ fez ao comando do meu clube para querer vê-lo longe do Seixal com os meus jogadores.

Um nome é suficiente para gerar em mim tamanha repulsa a este regresso. Bernardo Silva, a grande pérola do Seixal que nunca brilhou no seu clube de formação. Emprestado e vendido por 15 milhões na mesma época, pois Jorge Jesus quis colocar um dos melhores médios ofensivos do mundo a defesa-esquerdo. Um tiro no pé, com uma caçadeira, para um projeto de formação.

O Benfica nunca mais foi o mesmo desde que Jesus saiu, os plantéis tornaram-se cada vez mais jovens e repletos de atletas da formação, motivo de grande orgulho para Luís Filipe Vieira ao garantir três campeonatos nacionais, aliando alguns jogadores veteranos e apostas “criteriosas” (sabemos muito bem quão pouco acertadas foram por vezes) internacionais para acompanhar os jovens talentos domésticos.

Formação versus Benfica europeu

No entanto, o pós-Jesus teve percalços, um deles, gigante, que é a época 2017/2018, onde o Benfica “incrivelmente” conseguiu zero pontos numa fase de grupos da Liga dos Campeões e fracassou completamente na busca do inédito pentacampeonato. Esse ano em específico é a maior representação da falta de construção de um plantel competitivo e de uma excessiva confiança em jovens da formação.

Nenhum de nós sabe exatamente que pupilos do Seixal irão florescer sob o comando de Jorge Jesus e quais irão ser emprestados, vendidos ou simplesmente postos de parte. A questão é se o técnico voltará a cometer erros à “Bernardo Silva”, ou se voltaremos aos dias de bater a Juventus na Luz, só que desta vez com um Gonçalo Ramos e um Florentino a titular. Um só treinador não decide tudo num clube e precisa do apoio adequado de uma “estrutura” (palavra sensível para qualquer adepto benfiquista). Coloca-se a questão. Será uma estrutura construída nos últimos anos de forma quase antagónica à saída do treinador, que treinou o clube em seis épocas, a melhor para o apoiar na busca pela prometida hegemonia do Benfica?

Talvez Jorge Jesus tenha sido o trunfo que Luís Filipe Vieira precisava para garantir a sua reeleição, a partir de onde irá pôr em marcha o projeto do “Benfica europeu” que tanto apregoou aos sócios do clube em anos, com um técnico que claramente tem uma ótima relação. Talvez JJ entenda que o mundo benfiquista nunca se vai esquecer do caso do Bernardo Silva e tenha em atenção os nomes talentosos que (felizmente) o Seixal não para de produzir, conciliando a sua capacidade de moldar e evoluir atletas com os jovens do clube, simultâneamente beneficiando da estabilidade financeira que o Benfica publicita frequentemente de modo a investir afirmativamente no plantel, quando necessário.

E assim, se crie uma hegemonia encarnada como todos os adeptos do Benfica sonham, juntando-se todos os clamores para que se “metam os míudos a jogar”, para que se jogue “à Benfica”, para que se volte a “ganhar na Europa” e afirmar-se como o maior clube de futebol de Portugal. Estes dois parágrafos exigiram todo o meu otimismo e ingenuidade possível, pois sabemos muito bem que o mundo do futebol tem tão pouco de linearidade como os livres do David Beckham.

Continuo cético no que toca ao regresso do Jorge Jesus e continuo a acreditar que não foi a melhor escolha para o clube, mas também digo com grande sinceridade que quero estar enganado e admito que seja possível. Quero acreditar que o presidente (provavelmente o mesmo após as eleições) e o treinador juntos vão relançar o Benfica para o topo do futebol português e para os palcos mais altos da Europa. Quero acreditar, porque no fundo, é uma questão de ter fé ou não em Jesus?

Fonte de imagem de capa: Twitter @SLBenfica

José Horta

Não nasci a gostar de futebol, mas quando comecei nunca mais quis outra coisa. Algarvio de nascença mas adepto do futebol para além daquele que se joga na praia. Sempre atento aos contornos e novidades do "Desporto Rei", "Beautiful Game" ou lhe quiserem chamar. Aluno universitário de Ciências da Comunicação na FCSH.