MLS: casa de reforma ou de oportunidades?

O ano de 2020 marca a 25ª edição da Major League Soccer (MLS), a principal liga de clubes no futebol dos Estados Unidos. Ao longo de quase três décadas, a MLS manteve-se, até hoje, um campeonato com características bastante peculiares, como a divisão das equipas em conferências (Este e Oeste) ou a inexistência de subidas e descidas de divisão, sendo os clubes (ou franchises, como são chamados) obrigados a comprar a sua entrada na competição.

Numa altura em que o “desporto rei” vai ganhando cada vez mais destaque nas terras do “Uncle Sam”, surgem também cada vez mais debates em torno da MLS, desde críticas ao formato da competição ou à forma como o sucesso dos emblemas parece depender mais dos bolsos dos seus donos do que propriamente do mérito conseguido dentro de campo. Independentemente disto, há algo que sempre foi associado a este campeonato e que ainda hoje parece constituir o seu principal estereótipo: a MLS é vista como a liga dos “reformados”.

Apesar de hoje em dia ser possível observar este fenómeno em outras provas domésticas, como na China ou nos países do Médio Oriente, continua a ser quase rotina um atleta nos seus “trintas” rumar aos EUA, ficar por lá um ou dois anos e, depois sim, anunciar em definitivo a sua retirada dos relvados. A tendência existe desde o início da liga, em 1996, altura em que acolheu nomes como Hugo Sánchez (ex-Real Madrid e Atlético de Madrid), Carlos Valderrama (ex-capitão da seleção colombiana) ou ainda Roberto Donadoni (ex-AC Milan), todos já em final de carreira. O motivo também foi sempre o mesmo: salários bastante generosos para a idade avançada dos jogadores. Até mesmo antes da criação da MLS era possível verificar estas ocorrências, com o próprio Eusébio a ter tido a sua experiência do outro lado do Oceano Atlântico.

A “tradição” mantém-se até aos dias de hoje, com jogadores como Nani, Ilsinho e Victor Wanyama, atualmente, ou Rooney, David Villa e Beckam, num passado recente, a tentar a sua sorte nesta competição. Ainda assim, no meio de tantas velhas glórias, parece que ultimamente os emblemas têm vindo, cada vez mais, a apostar na formação e não apenas em “joias da coroa”. Atualmente, aliás, (e ironicamente) a média de idades de todos os planteis é de 26.9 anos, um número inferior, por exemplo, ao da Liga Inglesa (28.1 anos).

O investimento na juventude é real, portanto. Nem dito nem feito, neste momento o melhor marcador do campeonato, desde o recomeço da competição, é Diego Rossi, jovem avançado do LAFC que conta 7 golos em 5 jogos e apenas 22 anos, seguido de Ayo Akinola, do Toronto FC (20 anos). Akinola, por exemplo, é um dos mais recentes frutos da formação do emblema canadiano e leva já 5 golos em apenas 3 jogos.

Outro bom exemplo foi a recente transferência de Miguel Almirón do Atlanta United para o Newcastle United, em 2018. Por cerca de 23 milhões de euros, foi a venda mais cara de sempre na história da MLS e o atleta tinha apenas 24 anos na altura.

Posto isto, estará a MLS capaz de, no futuro, vir a ser uma escola de talentos para o mundo? A afirmação parece ousada, mas a minha opinião é que sim, e penso ter bons motivos para o defender, mais concretamente: três.

Para já, independentemente da qualidade dos plantéis e das equipas técnicas, os clubes dispõem de condições para treinar que igualam (ou até superam) as da maioria dos grandes emblemas europeus. Com infraestruturas modernas e equipadas com as mais recentes tecnologias, qualquer atleta que chegue à MLS poderá contar com alguns privilégios com os quais muitos clubes no velho continente ainda nem sequer sonham. Tudo isto é possível graças ao tal formato competitivo, que é, de resto, muito característico nos restantes desportos do país.

Em segundo lugar surge a mentalidade dos americanos para com o desporto. Apesar de ir contra todo e qualquer estereótipo norte americano, a realidade é que os EUA se tratam de um país que vive o desporto de forma ímpar, algo bem visível, por exemplo, nas universidades, onde o investimento nas equipas desportivas é absolutamente colossal. Um bom reflexo disto são os chamados Superdrafts, em que atletas universitários têm a oportunidade de ingressar numa equipa de alta competição do respetivo desporto, algo que na MLS, naturalmente, não é exceção. Assim, com a motivação bem presente, está meio caminho andado para surgirem jogadores de sucesso.

Por fim, mas não menos importante, surge a questão da “concorrência”. Como disse, há já uns anos que a MLS deixou de ser o último reduto para atletas de topo em final de carreira. Com outros campeonatos, como a Liga Chinesa ou os campeonatos do Médio Oriente, a apresentar-se cada vez mais como opções igualmente vantajosas (senão melhores ainda), é possível que esta perda de “hegemonia” possa ter levado os clubes americanos a passar, progressivamente, a investir mais na formação de jovens atletas, e não apenas em “velhas glórias”. Deste modo, e uma vez que as outras ligas não dão sinais de abrandar na aquisição destes jogadores, pode ser que isto sirva de motivação para que esta aposta na formação cresça ainda mais.

Uma “casa de reforma” ou uma “casa de oportunidades”? Provavelmente um pouco das duas, mas certo é que, a continuar assim, estaremos não muito longe de começar a observar cada vez mais atletas a sair dos redutos americanos para os grandes europeus. Miguel Almirón lançou o mote, veremos quantos o seguem.

 

Imagem: Major League Soccer (Facebook)

Duarte Rosa

"Alfacinha" de gema, sportinguista de coração. Desde o clube à seleção nacional, o amor pela bola está presente desde cedo. A licenciar-se em Ciências da Comunicação, na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa, esta paixão pela escrita e pelo futebol forma uma dupla interessante, que espera vir a agradar aos seus leitores.