Finais da Taça de Portugal sem “grandes”

Contam-se já oitenta finais da Taça de Portugal até hoje, mas sabia que apenas seis não envolveram nenhum dos “três grandes”? Hoje recordamos esta meia dúzia de edições em que Benfica, Sporting e Porto, os protagonistas do costume, deram a vez a outros clubes na finalíssima da “Prova Rainha”.

 

CF Belenenses vs. Vitória SC (1942)

osbelenenses.com

Começamos por recuar até 1942, data da quarta edição da Taça de Portugal. Neste ano, após eliminar o FC Porto por uns estrondosos 5-1 no primeiro jogo, o Belenenses viria ainda a deixar pelo caminho o SC Olhanense e os lisboetas do CF Os Unidos, atingindo a final da prova, onde lhe esperava um adversário improvável: o Vitória SC.

Os vimaranenses, ainda assim, foram protagonistas de uma caminhada igualmente impressionante, “atropelando” Estoril Praia e SC Espinho por 7-2 e 4-1, respetivamente, nos dois primeiros jogos. A grande surpresa, no entanto, surgiu nas meias finais, onde viria a eliminar o Sporting por 2-1.

Numa altura em que o Estádio Nacional ainda não tinha sido construído, foi o “velhinho” Stadium de Lisboa (então a casa do Sporting CP) que acolheu esta final, a primeira sem “grandes”, de onde os azuis do Restelo sairiam vencedores por 2-0.

 

SC Braga vs. Vitória FC (1966)

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Foram precisos 24 anos para que voltasse a haver uma final sem os três do costume. Em 1966 foi a vez de SC Braga e Vitória FC medirem forças, agora sim no Jamor.

Os minhotos protagonizaram um percurso soberbo. Após eliminarem Ovarense, Atlético CP e Lusitânia dos Açores, fizeram frente ao campeão em título, SL Benfica, derrotando as águias a duas mãos (4-1 em Braga e 1-3 em Lisboa). Como se não bastasse, defrontariam o Sporting CP logo a seguir, nas meias finais, deixando também os leões de Alvalade pelo caminho, numa eliminatória que precisou de três jogos para definir o vencedor.

Do outro lado surgiam os sadinos do Vitória FC. Eliminando FC Famalicão, União de Lamas, Marítimo e Beira-Mar, chegavam ao Jamor com os títulos de melhor ataque (18 golos marcados) e melhor defesa (um golo sofrido) da prova. Ainda assim, e apesar de serem claros favoritos, foi o Braga que levou a melhor, derrotando os setubalenses por 1-0 e levando a tão cobiçada taça para a cidade dos arcebispos, o primeiro grande troféu do clube.

 

Vitória FC vs. Académica (1967)

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Apenas um ano após o SC Braga vencer a Taça, veríamos nova final sem “grandes”, em 1967. Como se não bastasse, o finalista vencido do ano anterior, Vitória FC, voltaria a marcar presença no Estádio Nacional, desta vez para fazer frente aos vencedores da primeira edição da “Prova Rainha”, a Académica de Coimbra.

Do lado dos sadinos, foi mais um percurso digno de registo, eliminado Barreirense, Sintrense, Leixões e…FC Porto, este último nas meias finais, derrotando os dragões a duas mãos (0-3 e 4-4, respetivamente).

Os estudantes, por sua vez, foram a “equipa sensação”, quer da Primeira Liga (2º lugar, a três pontos do vencedor, Benfica) quer da Taça, levando de vencidos a UD Oliveirense, o Leça FC, o Atlético de Luanda, o SL Benfica e ainda o campeão em título, SC Braga.

Apesar da campanha espetacular levada a cabo pela Académica, o Vitória conseguiria mesmo a sua “vingança”, vencendo a final por 3-2 (após prolongamento) e levando a taça de volta para Setúbal, dois anos após a primeira conquista.

 

Boavista FC vs. Vitória SC (1976)

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A quarta final ocorreu em meados dos anos setenta, colocando frente a frente o Boavista FC, campeão em título, e o Vitória SC.

Após eliminar União da Madeira, SC Lamego, Estoril Praia e Vitória FC, o Boavista chegava a esta final com um confortável segundo lugar no Campeonato Nacional. Já o Vitória deixou pelo caminho o FC Famalicão, o Belenenses, o FC Porto e o Sporting, terminando a liga no sexto posto, diretamente abaixo dos leões.

A final foi excecionalmente disputada no Estádio das Antas. Talvez por isto o fator casa tenha jogado a favor dos axadrezados, que acabariam por vencer os minhotos por 2-1, conquistando a segunda taça do clube e sagrando-se bicampeões da prova, tendo vencido a edição anterior diante do campeão da liga, Benfica.

 

CF Estrela da Amadora vs. SC Farense (1990)

Estrela da Amadora

O início da década de 90 foi marcado por uma das mais enigmáticas edições da Taça de Portugal. Enquanto que a liga foi dominada, sem surpresas, por FC Porto, SL Benfica e Sporting CP, a Taça parece ter sido “virada do avesso”, servindo de palco para inúmeros resultados inesperados que certamente fizeram delirar as casas de apostas.

Chegando aos oitavos de final, dos “três grandes” apenas o FC Porto se mantinha em prova, acabando eliminado pelo FC Tirsense. Antes disso, nos dezasseis-avos de final, já o SL Benfica havia sido derrotado pelo Vitória FC. O Sporting, então, “nem vê-lo”, tendo terminado a sua participação aos pés dos madeirenses do CS Marítimo, logo na terceira eliminatória, Marítimo este que viria a ser eliminado na ronda seguinte…pelo CF Valadares, da terceira divisão.

Um ano atípico só poderia terminar com uma final atípica. Nem dito nem feito, frente a frente estiveram CF Estrela da Amadora e SC Farense, dois clubes em estreia absoluta no Jamor. Como se tal não bastasse, os algarvios militavam então na segunda divisão.

O emblema da Reboleira levou de vencidos o Estoril Praia, o SC Braga, o FC Marco, o SC Tirsense e o Vitória SC. O Farense, por sua vez (e jogando todas as eliminatórias), venceu o GD Portalegrense, a UD Oliveirense, o Odivelas FC, o CF Esperança de Lagos, a União da Madeira, a UD Valonguense e, por fim, o campeão em título, CF Belenenses.

O jogo terminou com uma igualdade a um golo, forçando um segundo encontro. Na finalíssima, Paulo Bento, então jogador do Estrela e natural da Amadora, foi o autor de um dos dois tentos sem resposta que dariam a vitória ao clube lisboeta.

 

SC Beira-Mar vs. SC Campomaiorense (1999)

SC Beira-Mar

Se 1990 foi emocionante, o mesmo (ou mais ainda) se pode dizer de 1999. Além de ter sido a última final sem “grandes” até hoje, foi novamente uma edição em que estes três estiveram irreconhecíveis. Os últimos “sobreviventes” foram Benfica e Porto, ambos derrotados na 5ª eliminatória (16 avos de final) pelas mãos de Vitória FC  e Torreense, respetivamente.

No Jamor estiveram frente a frente SC Beira-Mar (finalista vencido em 1991) e SC Campomaiorense (estreante na final). Enquanto que os aveirenses eliminaram o FC Benfica, o Portomosense, a UD Leiria, o Moreirense e o Vitória FC, a turma de Campo Maior chegou ao Estádio Nacional deixando pelo caminho SC Braga, FC Penafiel, FC Alverca, CS Marítimo e AD Esposende.

A história do jogo, por sua vez, foi digna de um autêntico conto de fadas, uma vez que o único golo da partida foi marcado por Ricardo Sousa, que era, nem mais nem menos, que o filho do treinador, António Sousa, dando a vitória ao pai e ao Beira-Mar, que regressou a Aveiro recebido em festa. Curiosamente, a equipa viria a descer de divisão no mesmo ano.

 

Imagem destaque: SC Beira-Mar

 

 

Duarte Rosa

"Alfacinha" de gema, sportinguista de coração. Desde o clube à seleção nacional, o amor pela bola está presente desde cedo. A licenciar-se em Ciências da Comunicação, na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa, esta paixão pela escrita e pelo futebol forma uma dupla interessante, que espera vir a agradar aos seus leitores.