Opinião: Uma tragédia de duas caras

A pergunta que grande parte dos adeptos benfiquistas deve ter feito depois do jogo de terça-feira é: como? Como é que, depois do regresso de um dos treinadores mais titulados da história do futebol português, e de um investimento de quase 80 milhões de euros em reforços, o Benfica continua sem conseguir vencer na Europa?

O fracasso em Salónica não só custou milhões aos cofres encarnados e gerou uma onde de críticas a todo o plantel, como poderá também dificultar a vitória de Luís Filipe Vieira nas eleições.

Os “encarnados”, sem o dinheiro que iriam receber se tivessem chegado à fase de grupos da Liga dos Campeões, deverão ser obrigados a vender alguns dos seus ativos mais importantes para terem o orçamento necessário para atacar alguns dos seus alvos no mercado de transferências, sem excederem os limites do fair play financeiro.

O que é que terá causado esta tragédia grega? Será que o investimento em jogadores foi feito para as posições erradas? Será que os jogadores contratados não têm qualidade suficiente para jogar num grande clube português? Poderá ser que Jorge Jesus  terá exigido demais aos dirigentes benfiquistas sem ter um plano concreto em mente para a época desportiva?

Muitas acusações, muitas dúvidas, poucas certezas. Mas talvez exista uma explicação para o descalabro encarnado. No artigo de opinião desta semana, iremos apresentar uma outra perspetiva sobre a derrota da equipa de Jorge Jesus na Grécia.

Antes de mais, é necessário afirmar que o Benfica da segunda parte foi completamente diferente da equipa do primeiro tempo. Durante os primeiros 45 minutos, viu-se uma equipa pressionante, que conseguia sair a jogar desde a defesa e que trocava a bola no meio-campo com fluidez e segurança, o que lhe permitiu chegar várias vezes perto da área adversária.

Caso se mantivesse esta tendência, seria só uma questão de tempo até o clube da Luz se colocar em vantagem no marcador. O problema é que na segunda metade do jogo houve uma inversão dos papéis.

Apesar de uma entrada semelhante ao que foi a primeira-parte, foram os gregos a dominar o resto da partida. Foram mais pressionantes e mais perigosos nos contra-ataques, deixando as “águias” desprevenidas.

É no mínimo estranho como é que uma equipa muda de estilo de jogo assim de um momento para o outro, principalmente quando estava a fazer uma exibição positiva até então.

Tudo isto se deve a dois fatores essenciais: confiança e pressão.

A partir do momento em que o PAOK começou a ser mais perigoso, a partir de um ataque rápido por exemplo, pareceu que os jogadores benfiquistas perderam a mística que até então carregavam, principalmente aqueles que já se encontravam no plantel à entrada para a nova temporada.

Pizzi perdeu o controlo do meio-campo, deixando de conseguir encontrar colegas desmarcados; Taarabt teve dificuldades em conduzir a bola até à frente de ataque; Grimaldo, recuperado de lesão, demorou a encontrar o seu ritmo e André Almeida revelou-se incapaz de defender o lado direito da defesa, sendo constantemente ultrapassado pelos adversários.

Foi uma prestação que fez lembrar a segunda metade da época passada, onde se viu um Benfica inconsistente, previsível e demasiado tímido na forma como abordava o jogo.

No fundo, estamos perante um plantel que, quando as coisas não correm de feição, torna-se mais medroso e agitado. Os reforços que foram a jogo, como foi o caso de Pedrinho, Cebolinha e Vertonghen, revelaram aspetos positivos e grande potencial, mas os “veteranos” ainda estão abalados com a perda do campeonato para o FC Porto.

O grande desafio de Jesus não vai ser alterar conceitos defensivos ou ofensivos ou convencer jogadores de classe mundial a mudarem-se para a Luz. O obstáculo que o treinador vai ter que superar é restaurar a confiança e o espírito competitivo de alguns jogadores do plantel, de forma a que no futuro próximo estes saibam lidar com situações de pressão.

A imagem dos jogadores encontra-se debilitada, agravada ainda mais pelo facto de que vários analistas e adeptos consideram os capitães da equipa ( Pizzi, Rafa e Anfré Almeida) como os responsáveis pela quebra de forma  e consequente saída de Bruno Lage do clube de Lisboa na temporada transata.

O jogo desta última terça-feira só veio acentuar os rumores da existência de uma batalha de egos dentro do grupo, de que os atletas não jogam pelo clube mas sim para benefício próprio. Este ambiente em que o clube vive  torna quase impossível o sonho de um regresso à antiga glória europeia.

De certa forma, a falta de confiança dos jogadores é também resultado da pressão de Luís Filipe Vieira em formar um projeto europeu. Quando o presidente dos encarnados prometeu um Benfica a lutar por troféus no panorama internacional, era grande a esperança que se fazia sentir no universo benfiquista.

No entanto, cedo se percebeu que o clube não tinha o que era necessário para fazer uma boa campanha na Liga Europa ou na Liga dos Campeões. Ironicamente, o período em que o Benfica esteve mais perto de regressar à elite europeia foi durante a primeira passagem de Jesus, em que o clube chegou a duas finais consecutivas da Liga Europa. Uma altura em que Vieira ainda não tornava constantemente público o seu desejo de pertencer ao grupo dos clubes milionários que dominam as competições europeias.

Em resumo, Jorge Jesus herdou uma equipa desorganizada e de espírito pessimista, envolvida em polémicas exteriores desnecessárias, devido a um presidente que tardou a entender que é preciso mais do que promessas e ameaças para incentivar uma equipa que luta por reconhecimento na mais importante competição de clubes do mundo.

O erro de Vieira foi achar durante anos que rapidamente se iria construir uma equipa que lhe daria um legado sem paralelos, ignorando o contexto em que se encontra o futebol português. Não percebeu que um projeto desta dimensão não poderia ser forçado ou apressado, irritando adeptos aos quais nada lhes foi dado depois de lhes terem prometido a mais alta das recompensas.

Jesus vai precisar de tempo e paciência para recuperar a mística do clube a nível nacional e mundial. Infelizmente, tempo e paciência são coisas que os adeptos já perderam há muito tempo.

Fonte da imagem: UEFA Champions League Twitter/@ChampionsLeague