Quem te viu e quem te vê: André Carrillo

O protagonista do “Quem te viu e quem te vê” desta semana é André Carrillo, extremo peruano que realizou uma das mais polémicas transferências do futebol português nos últimos anos e que está atualmente longe dos grandes palcos mundiais.

André Carrilo, natural de Lima, entrou no mundo do futebol através do Esther Grande de Bentín, pequeno emblema da sua terra-natal. Mais tarde, com 16 anos, mudou-se para o Alianza Lima, clube no qual concluiu a sua formação.

No dia 5 de dezembro de 2009, o então jovem de 18 anos realizou a sua estreia profissional no antepenúltimo jogo da temporada, tendo esta sido a única partida que contabilizou nesta época.

No ano seguinte, os minutos somados continuaram a ser escassos, já que entrou em campo por dez ocasiões e apenas uma destas foi a titular. No que diz respeito a contribuições ofensivas, o peruano registou um passe para golo neste período.

Contudo, em 2011, o flanqueador teve mais oportunidades e começou a dar nas vistas: foi utilizado nas primeiras nove jornadas do Campeonato Peruano (quatro jogos a titular), tendo feito as redes adversárias abanar três vezes e apontado uma assistência.

As exibições de Carrillo começavam a impressionar de tal forma que este nem terminou o ano no Perú. No verão de 2011, o Sporting CP pagou 800 mil euros ao Allianza Lima de modo a poder contar com os serviços do atleta de 20 anos.

A primeira época do extremo em Portugal foi bastante positiva. Dos 56 jogos que os leões realizaram na época 2011/12, figurou em 46 desses, embora tenha saltado do banco em 21 encontros. Para além de ter sido frequentemente utilizado por Domingos Paciência e, posteriormente, Ricardo Sá Pinto, teve também uma influência ofensiva interessante, contabilizando três golos e nove assistências, que auxiliaram a sua equipa a chegar às meias-finais da Liga Europa.

A temporada seguinte foi de má memória para os sportinguistas: não passaram da fase de grupos da Taça da Liga e da Liga Europa, foram eliminados precocemente da Taça de Portugal pelo Moreirense, terminaram em sétimo lugar na Primeira Liga e tiveram quatro treinadores diferentes (Ricardo Sá Pinto, Jesualdo Ferreira, Oceano Cruz e Franky Vercauteren). Esta instabilidade refletiu-se no desempenho do peruano, que se ficou pelos três golos e quatro assistências em 31 jogos.

Já na época 2013/14, com Leonardo Jardim no comando da equipa, o conjunto de Alvalade teve uma melhor prestação, ficando em segundo lugar no Campeonato. Contudo, o avançado voltou a apresentar números baixos: nos 32 encontros que disputou, dos quais 19 foram a titular, colocou a bola dentro da baliza duas vezes e assistiu os seus colegas em cinco ocasiões.

Foi só no ano que se seguiu, com Marco Silva no leme do Sporting, que se viu o melhor de Carrillo. Foi uma peça fundamental na equipa, sendo utilizado em 46 dos 53 jogos dos lisboetas, quase sempre no 11 inicial. À confiança em si depositada, o peruano respondeu com uns impressionantes sete tentos e 18 assistências. Coletivamente, os leões também tiveram um bom ano, conquistando a Taça de Portugal, primeiro título após quase sete anos de jejum.

A temporada 2015/16 parecia bem encaminhada quer para o ala, quer para o seu clube, uma vez que haviam conquistado a Supertaça ao eterno rival, a quem haviam também “roubado” o treinador Jorge Jesus, e porque este levava já um golo e três assistências nos primeiros sete jogos da época.

Porém, o atleta acabou mesmo por não realizar mais nenhum jogo de leão ao peito devido a uma suspensão por parte da direção verde e branca. Tudo isto porque o contrato que ligava as duas partes iria terminar no final da temporada em questão e este recusou todas as propostas de renovação. Bruno de Carvalho afirmou que o jogador não queria voltar a jogar pelo Sporting e acusou-o de forçar uma saída a custo zero enquanto que o agente do mesmo culpou a SAD verde e branca pela falta de entendimento.

Foi neste contexto que, em fevereiro de 2016, foi anunciado que Carrillo e o Benfica haviam chegado a um pré-acordo para este se mudar para a Luz assim que o seu vínculo expirasse. Contudo, os cofres encarnados ainda desembolsaram 6,6 milhões de euros na sua contratação, montante que englobou “os encargos com serviços de intermediação e o prémio de assinatura do atleta”.

Após tamanha polémica, havia muita expectativa e pressão nos ombros do jogador de 25 anos. Todavia, este não conseguiu estar à altura das exigências. Num plantel que contava com nomes como Zivkovic, Salvio, Cervi, Rafa e Gonçalo Guedes para atuar nos flancos, o peruano acabou por ser utilizado por Rui Vitória em 32 dos 54 jogos da época, sendo que só 13 destes foram a titular. Também o nível exibicional esteve muito distante daquele que mostrou ser capaz de alcançar nos seus últimos anos no Sporting, somando apenas três golos e três assistências. Porém, coletivamente, as águias tiveram um ano fantástico, vencendo a Taça de Portugal, Supertaça e Campeonato.

Com pouco espaço no conjunto da capital portuguesa, Carrillo acabou por ser emprestado logo na época seguinte ao Watford, (os hornets pagaram um milhão de euros pelo negócio) onde reencontrou Marco Silva. No entanto, desta vez, o técnico português não conseguiu tirar o melhor do jogador e acabou inclusivamente por ser despedido e substituído por Javi Garcia no decorrer da época. O flanqueador fez dois passes para golo e dois tentos em 30 jogos, (foi suplente utilizado 12 vezes e não alinhou em 11 encontros) números insuficientes para convencer a direção do clube inglês a ativar a sua cláusula de compra.

Assim, no verão de 2018, o avançado estava de regresso a Portugal, mas não por muito tempo, já que, logo de seguida, voltou a ser cedido, desta feita a troco de quatro milhões de euros para o Al Hilal, emblema que havia recentemente contratado Jorge Jesus e, por isso, o peruano voltou a trabalhar com um antigo técnico.

Embora a passagem do treinador português pelo clube da Arábia Saudita tenha durado apenas cerca de meio ano, Carrillo ainda permanece até hoje neste emblema visto que, findado o período do empréstimo, o conjunto árabe adquiriu permanentemente o passe do jogador por 9,5 milhões de euros. Desde que se juntou a esta equipa, o ala contabilizou 69 jogos, 12 golos e 15 assistências e arrecadou medalhas de vencedor da Supertaça e da Liga deste país, bem como uma Liga dos Campeões Asiática.

Dotado de enorme velocidade, fintas notáveis, dribles impressionantes e capacidade técnica acima da média, André Carrillo é, sem dúvida, um jogador de inegável talento. Depois de três temporadas razoáveis em Alvalade, o peruano brilhou de forma consistente com Marco Silva e prometia repeti-lo com Jorge Jesus, mas a recusa em prolongar o seu contrato desmoronou esta hipótese. Desde então, nunca mais voltou a alcançar aquele nível exibicional. A sua passagem pelo Benfica foi um flop desportivo (em matéria financeira, gerou um lucro de 7,9 milhões) e, após também não ter deixado saudades em Inglaterra, tem encontrado bastante sucesso no futebol árabe, campeonato menos competitivo no qual certamente está a auferir muito mais do que recebia nos seus antigos clubes. Atualmente com 29 anos, será já tarde demais para voltar a ver o avançado em grande ou terá ele ainda tempo de regressar à Europa e mostrar o que é capaz?

 

Fonte das Imagens: Twitter @canoticiaspt, Twitter @CristhianSotoAL, Twitter @SIMundial, Twitter @SerBenfiquista, Twitter @BenficaTransfer e Twitter @18andrecarrillo

Simão Vitorino

Nasci e cresci em Vila Franca de Xira e estou atualmente a tirar uma licenciatura em Ciências da Comunicação na faculdade NOVA FCSH com o objetivo de me tornar jornalista desportivo no futuro, profissão que une duas grandes paixões minhas - o futebol e a escrita.