Opinião: Luz (verde) ao fundo do túnel?

Os últimos dois anos foram provavelmente os mais duros na história do Sporting Clube de Portugal, começando com o inexplicável episódio em Alcochete (e consequente destituição de Bruno de Carvalho), passando pelos desentendimentos entre a direção e os grupos organizados de adeptos e, mais recentemente, a ausência da equipa de futebol nas competições europeias, um cenário que não se via desde 2013, um ano após o histórico 7º lugar no campeonato nacional (“histórico” pelos piores motivos, entenda-se). É seguro dizer que já houve dramas para todos os gostos em Alvalade, mas, ao fim de duas longas e duras temporadas, poderemos estar, finalmente, a assistir ao início do reerguer do leão?

O final da época 2019/20 marcou o encerrar da primeira metade do mandato da direção de Frederico Varandas, atual presidente do clube. Uma direção que começou bem, no que tocou aos problemas de tesouraria (fruto de uma pesadíssima herança dos líderes anteriores), mas que rapidamente demonstrou debilidades e inexperiência, pese embora a fase dramática que o clube atravessava.

Foi uma primeira época por demais acima das expectativas, ou não fosse o Sporting acabar por conquistar dois troféus nacionais (a Taça de Portugal e a Taça da Liga), algo inédito em 10 anos, mas que acabaria por se demonstrar “sol de pouca dura”, pois os verdadeiros problemas começaram a surgir no ano seguinte. Desde a crise de treinadores (quatro no total) aos conflitos com as claques (esteja a razão de que lado estiver) passando por contratações que se viriam a revelar autênticos flops (julgo não ser necessário tecer esclarecimentos neste aspeto…), certamente que o 4º lugar no término da Liga NOS foi o menor dos males para qualquer sportinguista, numa temporada marcada por uma instabilidade, divisão e desentendimentos nunca antes vistos no clube.

Ao nível do futebol, o Sporting precisava (para não variar) de um novo começo, e esse reset surgiu com um nome: Rúben Amorim. O novo treinador chegou a Alvalade (com alguma polémica à mistura), não só para orientar a equipa, mas também para representar aquilo que viria a ser a nova imagem do emblema verde e branco. Uma cara nova, mas com vista a um regresso ao velho “ADN” dos verdes e brancos: um clube vencedor, mas sobretudo formador de jovens talentos.

Com isto, e juntando-se o útil ao agradável (10 milhões à parte), a juventude de Rúben aliada a uma clara aposta do técnico em jovens da casa parecia o arquétipo da perfeição para este leão renascente. A chegada do ex-jogador, aos olhos da direção, serviria de cereja no topo do bolo para um trabalho, até então oculto, de revitalização na área da formação leonina, com um investimento colossal a ser direcionado exclusivamente para a Academia de Alcochete, não só a nível de equipamentos e staff, mas também no que toca a metodologias, algumas inalteradas desde 2002 (data da criação da Academia).

Os resultados não foram imediatos, pelo contrário. Foi logicamente necessário todo um período de adaptação (processo rotineiro aquando da chegada de qualquer treinador), mas, olhando agora para o presente do clube, especificamente da equipa de futebol, as melhorias são por demais notórias, não só ao nível do jogo jogado, mas também e sobretudo ao nível do plantel, com a inclusão imediata de muitos jovens “Made In Alcochete” (Nuno Mendes, Eduardo Quaresma, Luís Maximiano, Matheus Nunes, Tiago Tomás, Joelson Fernandes e Jovane Cabral) e o posterior acrescento de outros tantos para a presente época (Gonçalo Inácio, João Palhinha e Daniel Bragança), já para não falar do regresso de outro “menino” da casa: João Mário.

Vemos, portanto, um plantel recheado da “prata da casa”, como há muito não se via em Alvalade. Esta revolução no plantel, a juntar-se a várias contratações, aparentemente, acertadas (finalmente!), parece conjugar num ótimo “tónico” e num bom indício para aquilo que se pode esperar do Sporting para o futuro, pelo menos para os próximos dois anos. Uma revolução que precisa ainda de assentar e de se consolidar, naturalmente (não se fazem omeletes sem partir ovos), mas que representa já uma melhoria a olhos vistos, a meu ver pelo menos.

Há, ainda assim, um pequeno/grande fator que, por enquanto, esta direção parece não dar mostras de querer resolver: as claques. Doa a quem doer, a verdade é que a pandemia foi, infelizmente, a melhor coisa que podia ter acontecido a Frederico Varandas, pois só assim se conseguiu ver isolado de todo o ruído que o circulava, conseguindo um tão necessário espaço para levar a cabo este projeto. Duvido muito que estivesse aqui a escrever isto caso não tivesse havido uma paragem na competição.

Não vou estar aqui a desenvolver a minha opinião sobre quem tem ou quem não tem razão entre claques e direção (eventualmente será assunto para outro artigo), mas temo que esta se esteja a aproveitar da ausência dos adeptos para ignorar um problema que deve ser resolvido com a máxima urgência. Por mais que possa custar a admitir, os adeptos serão sempre a voz máxima do clube, pelo que, se a bancada está mal, muito provavelmente o resto do Sporting acabará por se ressentir também, pelo que é, na minha opinião, imperial que direção e grupos organizados de adeptos consigam chegar a um consenso rapidamente, pois a situação, como está, rapidamente se tornará impraticável quando os sportinguistas regressarem às bancadas.

É um Sporting que passou por muito em dois anos, mas, com a resiliência dos seus adeptos e com as claras melhorias dos últimos tempos, poderá estar aqui a contemplar uma luz ao fundo do túnel?

 

Imagem: Sporting Clube de Portugal (Facebook)

Duarte Rosa

"Alfacinha" de gema, sportinguista de coração. Desde o clube à seleção nacional, o amor pela bola está presente desde cedo. A licenciar-se em Ciências da Comunicação, na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa, esta paixão pela escrita e pelo futebol forma uma dupla interessante, que espera vir a agradar aos seus leitores.