Históricos: Mónaco de 2016/17, o único que conseguiu travar o PSG

Esta semana, relembramos uma equipa que, em 2017, conseguiu fazer o inimaginável em França: sagrar-se campeão em pleno período de investimento catariano no PSG. Os parisienses, desde a chegada de Nasser Al-Khelaifi em 2011, tinham estabelecido um domínio ao nível doméstico que parecia imparável. O Mónaco, orientado por Leonardo Jardim, não só deslumbrou a França ao negar o pentacampeonato a Paris, como foi sensação na Europa, chegando até às meias-finais da Champions League. 

A época 2016/2017 arrancou da mesma forma que as últimas quatro anteriores na França. O PSG era o principal favorito a vencer todas as competições domésticas, procurando o clube orientado por Unai Emery ser o segundo emblema francês da história a conseguir conquistar o pentacampeonato (o Olympique de Lyon é o único até hoje a conseguir tal feito). As apostas estavam todas viradas para que isso fosse mesmo verificar-se, com o clube da capital francesa a dispor de um orçamento astronómico em relação aos restantes clubes participantes, incluindo o Mónaco, que ainda assim investiu uma quantia considerável no verão, cerca de 50 milhões de euros. Sem comparação no entanto com os valores gastos pelo campeão em título da altura, 144,6 milhões.

A equipa de Leonardo Jardim, que vinha de uma época em que tinha terminado em terceiro na classificação, começou desde bem cedo a mostrar que só tinha olhos para o topo. Após um empate com o Guingamp na jornada inaugural, seguiram-se praticamente apenas triunfos e com golos em boa dose. Ora veja-se a impressionante série de resultados da equipa monegasca: na terceira jornada, surpreenderam o próprio PSG com uma vitória em casa por 3-1; na jornada seguinte foram ao terreno do Lille golear por 4-1; venceram o Rennes por 3-0 em casa; sofreram um desaire inesperado por 4-0 no derby frente ao Nantes; venceram o Angers por 2-1 e aplicaram uma goleada por sete a zero no estádio do Metz, à qual deram seguimento, duas jornadas depois, com um triunfo por 6-2 frente ao Montpellier. A turma de Jardim era, de facto, uma autêntica máquina de futebol atacante.

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Apesar do seu poderio ofensivo, quando a época chegou oficialmente a meio, no fim da 19ª jornada, o Mónaco não era ainda líder, encontrando-se a dois pontos de distância do Nice, primeiro classificado. Isso rapidamente viria a alterar-se na jornada seguinte, em que o Mónaco mais uma vez aplicou uma goleada, com a vítima a ser o Marselha, derrotado por 4-1 no Stade Velódrome. Com este triunfo, o Mónaco alcançou o primeiro lugar, posto no qual não haveria mais de sair. A segunda volta do campeonato trouxe mais um bom número de goleadas frente ao Lorient (4-0), Nice (3-0), Metz (5-0), Nantes (4-0), Caen (0-3), Nancy (0-3) e Lille (4-0), um registo absolutamente absurdo e ao qual o PSG, apesar de ter passado quase toda a segunda volta do campeonato à distância de apenas três pontos dos monegascos, não conseguiu acompanhar.

No dia 17 de maio de 2017, foi oficial. O Mónaco venceu o Saint- Étienne por duas bolas a zero em casa e sagrava-se campeão francês pela oitava vez na sua história, 17 anos depois da última conquista (1999/2000). Leonardo Jardim surpreendia tudo e todos em França, ao negar o penta ao PSG e a suceder a Artur Jorge como técnico português a sagrar-se campeão francês. O seu plantel, que viria a ser desmantelado ao longo das épocas seguintes por meio de grandes vendas, contava com Danijel Subašić como guarda-redes regular, Jemerson e Kamil Glik no centro da defesa, Benjamin Mendy e Djibril Sidibé nas alas, Fabinho, Bakayoko e João Moutinho no centro do meio campo, Bernardo Silva e Thomas Lemar como extremos e uma frente atacante que beneficiou da alta produtividade de Radamel Falcão (foi o terceiro melhor marcador da liga, com 21 golos marcados) e de Valère Germain e ainda da emergência de um certo jovem de 18 anos que viria a ser a nova coqueluche do futebol francês, Kylian Mbappé, que na sua primeira época profissional, apontou “apenas” 26 golos e 11 assistências ao longo de todas as competições.

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Na Champions League, o Mónaco deslumbrou tudo e todos. Após ultrapassar o Fenerbahçe e o Villareal nas etapas de qualificação, os monegascos acabaram a fase de grupos no primeiro lugar com 11 pontos somados, à frente do Bayer Leverkusen, Tottenham e CSKA de Moscovo. Ficaram para a memória ambos os triunfos por dois a um sobre a equipa de Pochettino, que acabaria por ser despromovida para a Liga Europa. O sorteio dos oitavos ditou um confronto com o todo-poderoso Manchester City de Pep Guardiola, perspetivando-se que a equipa de Jardim não conseguisse fazer frente ao multimilionário clube inglês, orientado por um dos melhores treinadores do mundo.

Pois, foi mesmo isso que a equipa de Bernardo e Moutinho fizeram, com destaque para o médio direito que, ao longo das duas mãos, fez um par de exibições de luxo (tal como Mbappé), que levaram a que o técnico espanhol o apontasse como contratação prioritária para o seu clube no mercado de transferências da época seguinte. Após os monegascos participarem num autêntico jogo de loucos na primeira mão em Etihad, que terminou com uma derrota frente aos citizens por cinco a três, os pupilos de Leonardo Jardim deram tudo por tudo na segunda partida e arrancaram uma vitória em casa por três a um que eliminou a equipa inglesa da competição.

O Mónaco ainda eliminou o Borussia Dortmund na fase seguinte, após duas vitórias (3-2 em Signal Iduna Park e 3-1 no Stade Louis II) e haveria de, eventualmente, cair frente à Juventus nas meias-finais após duas derrotas em ambas as mãos (0-2 em casa e 2-1 em Turim), mas o que ficou verdadeiramente na memória dos adeptos foi a fantástica exibição da equipa monegasca nos oitavos de final frente ao Man City, que correu mundo fora.

Fonte da imagem: sportsnet.ca

Termina assim a história do Mónaco de 2016/2017, a grande sensação da época que assinalou um percurso absolutamente espantoso, aproveitando um plantel que hoje seria avaliado como um dos mais valiosos da Europa, mas que, na altura, estava recheado de nomes pelos quais a maioria do comum adepto de futebol não olharia duas vezes. Um exemplo de que sonhar não custa, de que no futebol não existem impossíveis. A equipa de Leonardo Jardim entrava nas partidas sempre com o mesmo objetivo em mente: pressionar o adversário a todo o custo e atacar até ao último minuto. A fome de golos era insaciável, o que se traduziu no melhor ataque da Ligue 1, com a equipa a terminar a época com um número redondo de 100 golos assinalados.  Um autêntico regalo para os amantes do futebol de ataque e uma história bonita de superação que acabou em glória, é isto que Leonardo Jardim e a sua equipa podem orgulhar-se de ter protagonizado no ano de 2017.

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Alexandre Dionisio

Desde pequeno fui levado ao mundo do futebol, inicialmente enquanto júnior no Ginásio Clube de Alcobaça, clube da minha cidade, e agora mais velho enquanto espetador assíduo do mágico desporto que tanto nos emociona. Com uma licenciatura em Ciências da Comunicação na bagagem e um mestrado em Jornalismo em curso, acompanho cada jogo com a máxima emoção. Que isso nunca mude.